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A primeira grande crise da Igreja
Igreja Católica

A primeira grande crise da Igreja

A primeira grande crise da Igreja

Uma heresia poderosa, nos primeiros séculos do cristianismo, quase devastou a Igreja. Mas, como em todas as outras épocas, Deus não deixou de suscitar grandes santos para defender o depósito da fé e a verdade sobre seu Filho Jesus.

Rodney PelletierTradução: adaptação de Equipe Christo Nihil Praeponere18 de Janeiro de 2019
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Conhecer e estudar a história da Igreja é algo que nos ajuda a compreender muitos dos acontecimentos de hoje e nos motiva a ter mais esperança na ação divina. Vejamos um caso particular.

O século IV viu o surgimento da sutil heresia do arianismo — uma negação virulenta da divindade de Jesus Cristo. Hoje isto nos parece “senso comum”: É óbvio que Jesus é Deus! Como poderia algum cristão dizer o contrário?” No entanto, desde o fim da era apostólica, no século II, até o século IV, essa foi uma doutrina que a Igreja teve de declarar oficialmente para esclarecer a confusão da época.

O arianismo manifestou-se desde o começo do cristianismo. Nosso Senhor mesmo teve de mostrar que não era apenas um profeta poderoso, mas uma Pessoa Divina. Para isso, realizou milagres e falou com uma autoridade jamais vista em um profeta de Israel.

Depois de sua ascensão ao Céu, os Apóstolos do Senhor ensinaram sua divindade, desde a pregação de São Pedro em Pentecostes até o Evangelho de São João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1, 1). São João viu a necessidade de escrever seu Evangelho — tão notavelmente diferente dos outros três — para reforçar a doutrina de que Jesus Cristo é a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, com uma natureza humana e uma divina.

E foi exatamente isso que acabou se tornando um obstáculo para muitos cristãos primitivos. A maioria das heresias que surgiram até o século IV envolviam erros de compreensão acerca de Jesus Cristo.

Esses erros alcançaram seu auge na teologia do padre Ário. Ordenado entre 312 e 313 d.C., em Alexandria, no Egito — um dos maiores centros de teologia cristã do mundo antigo —, Ário tinha uma história de adesão aos erros teológicos da seita lucianista e foi excomungado em 319 por Santo Alexandre, bispo de Alexandria. Apesar disso, ele era conhecido por seu ascetismo e sua pregação.

No centro de tanta controvérsia estava a palavra grega ὁμοούσιος (homo-ousios), que significa “da mesma substância”. Ário preferia a palavra ὁμοιούσιος (homo-i-ousios), que significa “de substância similar” — não igual em dignidade ou coeternidade com o Pai.

Como notou certa feita o grande padre e teólogo jesuíta John Hardon, nenhuma heresia jamais obteve sucesso sem antes receber o apoio de algum bispo católico. Não foi diferente com o arianismo. Embora Ário tivesse sido condenado pelo bispo Alexandre de Alexandria e pelo sínodo dos bispos egípcios em 321, o bispo Eusébio de Nicomédia era colaborador do heresiarca e favorito do imperador Constantino. Com o apelo de Ário ao poder político, em questão de poucos anos espalhou-se por todo o Império Romano a blasfêmia de que Jesus Cristo, longe de ser Deus, não passava de uma mera criatura.

Vendo os recém-legalizados cristãos divididos em um assunto tão importante, o imperador Constantino procurou reunir tanto o lado católico quanto o ariano para que eles chegassem a uma resolução. No ano de 325, então, em união com todos os bispos do mundo conhecido, ele convocou o Concílio Ecumênico de Niceia (atual Iznik, na Turquia). Quase dois mil bispos, padres e diáconos se juntaram para o concílio.

Afresco do século XVI retratando o Concílio de Niceia.

Em Niceia se reuniram grandes mentes católicas, como Santo Atanásio, à época diácono, Santo Hilário de Poitiers, São Nicolau e muitos outros. Embora Ário tivesse feito suas objeções, o concílio voltou-se contra ele, sustentando o ensinamento constante de Jesus Cristo tal como foi transmitido por seus Apóstolos.

Desde então, todos os católicos do Ocidente e do Oriente professam a divindade de Jesus Cristo tal como consta no Credo de Niceia: “Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas.”

Ário e os outros bispos que se recusaram a aceitar o Credo de Niceia foram excomungados pelo concílio e exilados na Ilíria pelo imperador.

Apenas três anos mais tarde, Eusébio de Nicomédia escreveu uma carta a Constantino em nome de Ário, e o heresiarca foi admitido de volta. Ao contrário do que ocorreu no Concílio de Niceia, desta vez o imperador se envolveu diretamente nos assuntos religiosos e fez da teologia de Ário sua opção pessoal. Ário passou os sete anos seguintes sob a proteção do imperador, tornando difícil a vida dos católicos. O heresiarca nutria um ódio especial para com Santo Atanásio e conspirou para que o santo fosse expulso de sua diocese cinco vezes.

Em 335, Constantino ordenou ao bispo de Constantinopla que desse a Ário a Santa Comunhão como sinal de reconciliação. O patriarca, ciente de que Ário não estava arrependido, rezou para que o heresiarca morresse antes de causar escândalo e cometer esse sacrilégio. Conta-se que, estando Ário a caminho da Missa (advertência de linguagem forte),

apoderou-se dele um medo nascido da consciência de seus crimes; e com violência, naquele mesmo instante, soltou-se-lhe o ventre. Perguntou então se por ali havia latrinas e, como lhe dissessem que estavam atrás do fórum de Constantino, para lá se dirigiu. Logo em seguida começou a desfalecer, e juntamente com os excrementos saiu-lhe também o ânus [...]. Seguiu-se então uma grande hemorragia, e por fim foi expelido o intestino delgado junto com o baço e o fígado. E assim morreu ele sem demora (Sócrates Escolástico, História Eclesiástica, c. 38, PG 67, 177-178).

Apesar da vitória dos católicos no concílio, a heresia continuou a espalhar-se entre os bispos e os leigos. Anos depois, São Jerônimo lamentaria: “Ingemuit totus orbis et arianum se esse miratus est — O mundo todo acordou em uma manhã, surpreendido e lamentando por descobrir-se ariano.” Tribos bárbaras como os godos, lombardos, vândalos e visigodos abraçaram a heresia e levaram-na até o século VI a muitas das terras do Império Romano fora da Itália. Lá pelo século VIII, entretanto, elas foram convertidas ao catolicismo.

Como se pode ver, a marca dessas grande crises que acontecem na vida da Igreja é a confusão. No século IV, mesmo depois que os bispos se reuniram para combater com força o erro da época, décadas foram necessárias para acabar com os efeitos mais imediatos do arianismo. Ao fim e ao cabo, porém, sempre permanece viva a promessa de Nosso Senhor no Evangelho: “Portae inferi non praevalebunt adversus eamAs portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja” (Mt 16, 18).

Recomendações

  • Para informações mais detalhadas a respeito do que foi o arianismo, não deixe de assistir às aulas de nosso curso História da Igreja Antiga.

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Lutero contra “uma Roma corrupta”?
Padre Paulo Ricardo

Lutero contra “uma Roma corrupta”?

Lutero contra “uma Roma corrupta”?

31 de outubro de 1517: Lutero contra “uma Roma corrupta”? “Reforma” Protestante ou revolução? Conheça, no dia 21 de janeiro próximo, a verdade por trás da propaganda!

Equipe Christo Nihil Praeponere16 de Janeiro de 2019
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Por muito tempo nossa cultura ficou refém de uma narrativa tendenciosa e panfletária sobre a “Reforma” Protestante.

Levados pela propaganda midiática e por uma história de tom notadamente anticlerical, até mesmo nossos católicos passaram a acreditar em um Lutero piedoso e justiceiro lutando contra uma Igreja Romana corrupta e distante do Evangelho de Cristo… A Martinho Lutero, conta-nos esta versão, caberia restaurar a verdadeira essência do cristianismo.

Diante desta versão dos fatos, aos católicos hoje o que caberia? Talvez simplesmente conformar-se e, quem sabe, até reconhecer as supostas “virtudes” do movimento protestante… Acontece que, sem uma busca sincera da verdade histórica, até nossos esforços de “aproximação ecumênica” tendem ao mais absoluto fracasso.

Por isso, no próximo dia 21 de janeiro de 2019, Padre Paulo Ricardo convida você a voltar no passado (mais exatamente ao dia 31 de outubro de 1517) e revisitar um dos acontecimentos mais importantes da era moderna: a chamada “Reforma” Protestante.

Qual o problema com a história oficial desse evento? Que intenções e que motivações realmente levaram Lutero a divulgar suas teses revolucionárias e a lançar as bases de uma nova religião? Por que esse acontecimento tem influências decisivas sobre as terríveis revoluções de nossa época?

É o que iremos estudar com Padre Paulo Ricardo, em mais este curso exclusivo de férias! Assista acima ao novo e definitivo trailer deste material e ajude-nos a chamar as pessoas para o lançamento que faremos! No próximo dia 21 de janeiro, às 21h, você vai conhecer o homem que, mesmo sem se dar conta, tornou-se o primeiro na história a montar uma ideologia.

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Os quatro temperamentos e nossa vida interior
Espiritualidade

Os quatro temperamentos
e nossa vida interior

Os quatro temperamentos
e nossa vida interior

Como a descoberta e o trabalho do nosso temperamento pode ajudar no caminho de nossa santificação? É o que explica neste texto o grande tomista espanhol Pe. Antonio Royo Marín.

Pe. Antonio Royo MarínTradução: S.O.S. Família/Equipe CNP15 de Janeiro de 2019
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Além dos grandes recursos psicológicos de caráter natural e sobrenatural, podemos aproveitar-nos também, no caminho da nossa santificação, de um auxílio de caráter puramente fisiológico — o nosso próprio temperamento —, melhorando suas boas disposições e corrigindo, dentro do possível, os seus defeitos. Naturalmente, trata-se de algo que contribui em pouca medida para a nossa santificação, num plano puramente dispositivo e meramente natural, mas não deixa de ter sua importância, ao menos negativa, removendo obstáculos (ut removens prohibens).

Vamos, pois, estudar a natureza, a classificação e os meios de aperfeiçoar o próprio temperamento.

1. Natureza. — Há uma grande diversidade de opiniões entre os autores sobre a natureza e a classificação dos temperamentos. Vamos expor aqui a doutrina mais comumente admitida, dando-lhe uma orientação eminentemente prática.

Noção. — O temperamento é o conjunto de inclinações íntimas que brotam da constituição fisiológica de um homem. É a característica dinâmica de cada indivíduo, que resulta do predomínio fisiológico de um sistema orgânico (sistema nervoso, sistema sanguíneo) ou de um humor (bílis, linfa).

Como se vê por essas noções, o temperamento é algo inato no indivíduo. É a índole natural, ou seja, algo que a natureza nos impõe. Por isso mesmo, ele nunca desaparece inteiramente: genio y figura hasta la sepultura — “gênio e figura permanecem até a sepultura”. Mas uma educação oportuna e, sobretudo, a força sobrenatural da graça podem, se não transformá-lo totalmente, ao menos reduzir ao mínimo suas estridências, e ainda suprir de todo suas manifestações exteriores. É testemunha disso — entre outros mil — São Francisco de Sales, que passou para a posteridade com o nome de “Santo da doçura”, apesar de seu temperamento fortemente colérico.

2. Classificação. — Depois de mil tentativas e ensaios, os tratadistas modernos voltam à classificação dos antigos clássicos, que parece remontar em sua origem ao próprio Hipócrates, maior médico da Antiguidade (460-377 a.C.). Segundo ele, os temperamentos fundamentais são quatro: sanguíneo, melancólico (nervoso), colérico (belicoso) e fleumático, conforme predomine neles a constituição fisiológica que seu nome mesmo indica.

Vejamos as características principais de cada um deles. Antes, porém, é preciso advertir que nenhum dos temperamentos que vamos descrever existe “quimicamente puro” na realidade. Geralmente, apresentam-se mesclados e, além disso, apresentam graus muito diversos. Assim, os fleumáticos nunca o são de todo, pois se encontram neles muitos traços de sensibilidade. Os sanguíneos têm, às vezes, qualidades próprias dos melancólicos, etc. Trata-se unicamente de algo predominante na constituição fisiológica de um indivíduo. É preciso levar muito em conta esta observação, ao descobrir alguns traços próprios de um determinado temperamento, para evitar um juízo prematuro, que poderia estar muito longe da realidade objetiva.

Passemos agora à descrição detalhada de cada um deles. Seguimos principalmente Conrado Hock e Guibert. É deles que citamos, vez por outra, suas próprias palavras.

a) Temperamento sanguíneo. — Características essenciais com relação à excitabilidade: O sanguíneo se excita fácil e fortemente por qualquer impressão. A reação pode ser também imediata e forte, mas a impressão ou duração pode ser curta. A lembrança de coisas passadas não provoca tão facilmente novas emoções.

“O Êxtase de Santa Teresa”, uma sanguínea. Quadro do séc. XVIII.

Boas qualidades. — O sanguíneo é afável e alegre, simpático e prestativo, dócil e submisso para com seus superiores, sincero e espontâneo (às vezes até à inconveniência). É verdade que, ante a injúria, raciocina às vezes com violência e prorrompe em expressões ofensivas; mas esquece rapidamente tudo, sem guardar rancor de ninguém. Desconhece a teimosia e a obstinação. Sacrifica-se com desinteresse. Seu entusiasmo é contagioso e arrebatador. Seu bom coração cativa e apaixona, exercendo uma espécie de sedução em torno de si.

Por ter uma concepção serena da vida, é fundamentalmente otimista, não o arredam as dificuldades, confia sempre no bom êxito. Surpreende-se muito de que os outros se incomodem com uma brincadeira pouco agradável, que lhe parece a coisa mais natural e simpática do mundo. Tem grande sentido prático da vida e é mais inclinado a idealizar do que a criticar.

Dotado de uma exuberante riqueza afetiva, é fácil e ágil para a amizade e se entrega a ela com ardor, às vezes apaixonadamente.

Sua inteligência é viva, rápida, assimila facilmente, mas sem muita profundidade. Dotado de uma memória feliz e uma imaginação ardente, triunfa facilmente na arte, na poesia e na oratória, mas não poderá alcançar a eminência do sábio. Os sanguíneos seriam muito freqüentemente espíritos superiores se tivessem tanta profundidade como sutileza, tanta tenacidade no trabalho como facilidade nas concepções.

Más qualidades. — Ao lado dessas boas qualidades, o temperamento sanguíneo apresenta sérios inconvenientes.

Seus principais defeitos são a superficialidade, a inconstância e a sensualidade. A primeira se deve principalmente à rapidez de suas concepções. Julga haver compreendido logo qualquer problema que se lhe proponha, quando na realidade o percebeu tão-somente de maneira superficial e incompleta. Daí procedem seus juízos apressados, ligeiros, freqüentemente inexatos, quando não inteiramente falsos. É mais amigo da amplitude fácil e brilhante do que da profundidade.

A inconstância do sanguíneo é fruto da pouca duração de suas impressões. Em um instante passa do riso ao pranto, do gozo delirante a uma negra tristeza. Arrepende-se pronta e verdadeiramente de seus pecados, mas volta a eles na primeira ocasião que se lhe apresenta. Os sanguíneos são vítimas de impressões de momento, sucumbem facilmente à tentação. São inimigos dos sacrifícios, da abnegação e do esforço duro e contínuo. São preguiçosos no estudo. Torna-se-lhes quase impossível refrear a vista, os ouvidos e a língua. Distraem-se facilmente na oração. A épocas de grande fervor sucedem-se outras de languidez e desalento.

A sensualidade encontra terreno abonado na natureza ardente do sanguíneo. Deixa-se arrastar facilmente pelos prazeres sensuais da gula e da luxúria. Raciocina prontamente contra suas quedas e as deplora com sinceridade. Mas faltam-lhe energia e coragem para dominar a paixão quando torna a levantar a cabeça.

Santo Agostinho, outro sanguíneo, retratado por Philippe de Champaigne.

Educação do sanguíneo. — A educação e canalização de qualquer temperamento deve consistir em fomentar suas boas qualidades e em reprimir os defeitos. Por isso, o sanguíneo deverá procurar canalizar a sua exuberante vida afetiva por um meio nobre e elevado. Se conseguir amar fortemente a Deus, chegará a ser um santo de primeira categoria. Sanguíneos cem por cento foram o Apóstolo São Pedro, Santo Agostinho, Santa Teresa e São Francisco Xavier.

Mas é preciso que lute tenazmente contra seus defeitos, até tê-los vencido totalmente. Há de combater sua superficialidade, adquirindo o hábito da reflexão e ponderação em tudo o que fizer. Deve aprender a lidar com os problemas examinando-os por todos os lados, prevendo as dificuldades que poderão surgir, dominando o otimismo demasiado confiante e irreflexivo.

Contra a inconstância, tomará sérias medidas. Não bastarão os propósitos e resoluções, que violará na primeira ocasião que se lhe apresente, apesar de sua sinceridade e boa fé. É preciso pôr sua vontade num plano de vida, convenientemente revisado, aprovado por seu diretor espiritual e no qual esteja tudo previsto e anotado, e que nada se deixe ao arbítrio da sua vontade fraca e caprichosa. Há de praticar seriamente o exame de consciência, aplicando-se fortes penitências pelas transgressões que sejam fruto de sua inconstância e volubilidade. Há de pôr-se em mãos de um experiente diretor espiritual e obedecer-lhe em tudo. Na oração, há de lutar contra sua tendência aos consolos sensíveis, perseverando nela apesar da aridez e secura.

À sensualidade deverá opor-se com uma vigilância constante e uma luta tenaz. Deve fugir como da peste a todas as ocasiões perigosas, nas quais sucumbirá facilmente, ao se aliar sua sensualidade com sua inconstância. Deve ter particular cuidado na guarda da vista, recordando-se das suas dolorosas experiências. Nele, mais do que em ninguém, cumpre-se aquilo de que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. Deve guardar o recolhimento e praticar a mortificação dos sentidos externos e internos. Deve, enfim, pedir humilde e constantemente a Deus o dom da perfeita pureza de alma e corpo, que só do Céu nos pode vir (Sb 8, 21).

b) Temperamento melancólico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: a do melancólico é débil e difícil ao princípio, mas forte e profunda por repetidas impressões. Sua reação apresenta estes mesmos caracteres. Quanto à duração, pode ser larga. O melancólico não esquece facilmente.

Boas qualidades. — Os melancólicos têm uma sensibilidade menos viva do que a dos sanguíneos, mas mais profunda. São naturalmente inclinados à reflexão, à solidão, ao silêncio, à piedade e vida interior. Compadecem-se facilmente das misérias do próximo, são benfeitores da humanidade, sabem levar a abnegação até o heroísmo, sobretudo ao lado dos enfermos.

Sua inteligência pode ser aguda e profunda, maturando suas idéias com a reflexão e a calma. É pensador e gosta do silêncio e da solidão. Pode ser um intelectual seco e egoísta, encerrando-se na sua torre de marfim, ou um contemplativo que se ocupe das coisas de Deus e do espírito. Sente atração pela arte e tem aptidão para as ciências.

Seu coração é de uma grande riqueza sentimental. Quando ama, dificilmente se desprende de suas afeições, porque nele as impressões se arraigam com muita profundidade. Sofre com a frieza ou a ingratidão. A vontade segue a vicissitude de suas forças físicas: débil e quase nula quando o trabalho o tenha esgotado; forte e generosa quando desfruta de saúde ou quando um raio de alegria ilumina seu espírito. É sóbrio e não sente a desordem passional, que tanto atormenta os sanguíneos. É o temperamento oposto ao sanguíneo, como o colérico é oposto ao fleumático.

Foram de temperamento melancólico o Apóstolo São João, São Bernardo, São Luís Gonzaga, Santa Teresinha do Menino Jesus, Pascal.

Santa Teresinha do Menino Jesus tinha um temperamento melancólico.

Más qualidades. — O lado desfavorável deste temperamento é a tendência exageradamente inclinada à tristeza e à melancolia. Quando recebem alguma forte impressão, ela penetra-lhes profundamente a alma e lhes produz uma ferida sangrante. Não possuem o coração na mão como o sanguíneo, mas, sim, muito no fundo, e aí saboreiam a sós sua amargura. Sentem-se inclinados ao pessimismo, ao ver sempre o lado difícil das coisas, ao exagerar as dificuldades. Isto os torna retraídos e tímidos, propensos à desconfiança em suas próprias forças, ao desalento, à indecisão, aos escrúpulos e a certa espécie de misantropia.

São irresolutos por medo de fracassar em suas empresas. O melancólico “nunca sabe acabar”, como dizia Santa Teresa. É o homem das oportunidades perdidas. Enquanto os demais estão do outro lado do rio, ele está pensando e refletindo, sem se atrever a atravessá-lo. Sofrem muito e fazem sofrer aos demais sem querê-lo, porque, no fundo, são bons. Santa Teresa não os julgava aptos à vida religiosa, sobretudo quando a melancolia está arraigada (cf. Fundações, c. 7. Tenha-se em conta que a “melancolia”, sobre a qual havia se pronunciado, refere-se somente ao temperamento melancólico, e não aos extravios de um caráter voluntariamente neurastênico).

Educação do melancólico. — O educador deverá ter muito em conta a forte inclinação do melancólico à concentração sobre si mesmo. Do contrário, expõe-se a não compreendê-lo e a tratá-lo com grande injustiça e falta de tato. O sanguíneo é franco e aberto na confissão; o melancólico, pelo contrário, quer desafogar-se por meio de um colóquio espiritual, mas não pode; o colérico pode expressar-se, mas não quer; o fleumático não pode nem quer fazê-lo. Deve-se ter muito em conta tudo isto, para não intentar procedimentos educativos contraproducentes.

É preciso infundir no melancólico uma grande confiança em Deus e um sereno otimismo da vida. Deve-se inspirar-lhe uma suma confiança em si mesmo, ou seja, na amplitude de sua alma para as grandes empresas. É preciso aproveitar a sua inclinação à reflexão para fazê-lo compreender que não há motivo algum para ser suscetível, desconfiado e retraído. Se for preciso, deve-se submetê-lo a um regime de repouso e sobrealimentação (Santa Teresa curava muitas monjas melancólicas proibindo a longa oração, as vigílias e jejuns e “fazendo-as divertir-se” — cf. Quartas moradas, 3, 12 e 13; Fundações, 6, 14). Acima de tudo, deve-se combater a sua indecisão e covardia, fazendo-o tomar resoluções firmes e lançar-se a grandes empresas com ânimo e otimismo.

c) Temperamento colérico. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o colérico se excita pronta e violentamente. Raciocina num instante. Mas a impressão lhe fica na alma por muito tempo.

Boas qualidades. — Atividade, entendimento agudo, vontade forte, concentração, constância, magnanimidade, liberalidade. Eis aí as excelentes prendas deste temperamento riquíssimo.

Os coléricos (ou belicosos) são apaixonados e voluntariosos. Práticos, desembaraçados, são mais inclinados a obrar do que a pensar. O repouso e a inação repugnam à sua natureza. Sempre estão acariciando o seu espírito com um grande projeto. Apenas acabam de conceber um fim, põem mãos à obra, sem desistir por causa das dificuldades. Entre eles abundam os chefes, os conquistadores, os grandes apóstolos. São homens de governo. Não são daqueles que deixam para amanhã o que deveriam fazer hoje; antes, preferem fazer hoje o que deveriam deixar para amanhã. Se surgem obstáculos e inconvenientes, esforçam-se para os superar e vencer. Apesar do seu ímpeto irascível, quando conseguem reprimi-lo pela virtude, alcançam uma suavidade e doçura da melhor cepa. Tais foram São Jerônimo, Santo Inácio de Loyola e São Francisco de Sales.

São Jerônimo, um colérico, pintado por Luca Giordano.

Más qualidades. — A tenacidade do seu caráter os faz propensos à dureza, obstinação, insensibilidade, ira e orgulho. Se lhes opomos resistência ou os contradizemos, tornam-se violentos e cruéis, a menos que a virtude cristã modere as suas inclinações. Vencidos, guardam o ódio no coração até que soe a hora da vingança. Geralmente são ambiciosos e tendem ao mando e à glória. São mais pacientes do que o sanguíneo, mas não conhecem tanto a delicadeza de sentimento, compreendem menos a dor das outras pessoas, têm em suas relações um trato menos fino.

Suas paixões fortes e impetuosas sufocam essas afeições doces e esses sacrifícios desinteressados que brotam espontaneamente de um coração sensível. Sua febre de atividade e seu ardente desejo de conseguir o que se propõem os faz pisotearem violentamente tudo o que os impede, e aparecem ante os demais como uns egoístas sem coração. Tratam os outros com uma altaneria que pode chegar à crueldade. Tudo deve curvar-se diante deles. O único direito que reconhecem é a satisfação dos seus apetites e a realização de seus desígnios.

Educação do colérico. — Tais homens seriam de um preço inestimável se soubessem dominar-se e governar suas energias. Com relativa facilidade chegariam aos mais altos cumes da perfeição cristã. Muitíssimos santos canonizados pela Igreja possuíam este temperamento. Em suas mãos, as obras mais difíceis chegam a feliz termo. Por isso, quando conseguem processar suas energias, são tenazes e perseverantes nos caminhos do bem e não cessam em seus empenhos até alcançar os píncaros mais elevados.

Deve-se aconselhá-los a que sejam donos de si mesmos, que não atuem precipitadamente, que desconfiem de seus primeiros movimentos. Deve-se levá-los à verdadeira humildade de coração, a se compadecerem dos fracos, a não humilhar nem atropelar a ninguém, a não deixarem sentir sua violência, sua própria superioridade, a tratarem a todos com suavidade e doçura.

d) Temperamento fleumático. — Características essenciais com relação à excitabilidade: o fleumático não se excita nunca, ou o faz tão só debilmente. A reação é também débil, quando não chega a faltar por completo. As impressões recebidas desaparecem logo e não deixam vestígios em sua alma.

Boas qualidades. — O fleumático trabalha devagar, mas assiduamente, contanto que não se exija dele um esforço intelectual demasiadamente grande. Não se irrita facilmente por insultos, fracassos ou enfermidades. Permanece tranqüilo, sossegado, discreto e criterioso. É sóbrio e tem um bom sentido prático da vida. Não conhece as paixões vivas do sanguíneo, nem as profundas do nervoso, nem as ardentes do colérico. Dir-se-ia que carece por completo de paixões. Sua linguagem é clara, ordenada, justa, positiva; mais do que brilho, tem energia e atrativo.

O trabalho científico, fruto de uma larga paciência e de investigações conscienciosas, lhe convém melhor do que grandes produções originais. O coração é bom, mas parece frio. Falta-lhe entusiasmo e espontaneidade, porque sua natureza é indolente e reservada. É prudente, sensato, reflexivo, obra com segurança, chega aos fins sem violência, porque afasta os obstáculos em lugar de os romper. Às vezes a sua inteligência é muito clara. Fisicamente, o fleumático é de rosto amável, de corpo robusto, de andar lento e vagaroso. Santo Tomás de Aquino possuiu os melhores elementos deste temperamento, levando a cabo um trabalho colossal com serenidade e calma imperturbáveis.

O grande Doutor Angélico possuía os melhores elementos de um fleumático.

Más qualidades. — Sua calma e lentidão lhe fazem perder boas ocasiões, porque tarda muitíssimo em pôr-se em ação. Não se interessa nada pelo que se passa fora de si. Vive para si mesmo, em uma espécie de concentração egoísta. Não vale para o mando e o governo. Não é afeiçoado a penitências e mortificações; se é religioso, não abusará dos cilícios. É deles que Santa Teresa descreve com tanta graça: “As penitências que fazem estas almas são coerentes com sua própria vida. Não tenhais medo de que se matem, porque sua razão está muito em si” (Santa Teresa, Terceiras moradas, 2, 7). Em casos mais agudos, convertem-se em homens átonos, mortiços e vagos, completamente insensíveis às vozes de ordem que poderiam tirá-los da sua inércia.

Educação do fleumático. — Pode-se tirar muito partido do fleumático, se lhe forem incutidas convicções profundas e lhe forem exigidos esforços metódicos e constantes em ordem à perfeição. Lentamente chegará muito longe. Deve-se sacudi-lo de sua inércia e indolência, empurrando-o às alturas, acender em seu coração apático a labareda de um grande ideal. Deve-se estimulá-lo ao pleno domínio de si mesmo, excitando-o e pondo em uso suas forças adormecidas; não como ao colérico, que deve obtê-lo contendo-se e moderando-se.

Conclusão geral sobre os temperamentos. — Repetimos o que dissemos mais acima: nenhum destes temperamentos existe em estado “quimicamente puro”. O leitor que tenha percorrido estas páginas poderá não ter encontrado em nenhuma delas os traços completos de sua particular fisionomia. A realidade é mais complexa do que todas as categorias especulativas. Com freqüência encontramos na prática, reunidos em um só indivíduo, elementos pertencentes aos temperamentos mais díspares. Isso explica, em boa parte, a diversidade de teorias e classificações entre os autores que se preocupam com estas coisas.

Contudo, é indubitável que em cada indivíduo predominam certos traços temperamentais que permitem catalogá-lo, com as devidas reservas e precauções, em algum dos quadros tradicionais. Por outro lado, sem negar a grande influência do temperamento fisiológico sobre o conjunto da psicologia humana, dadas as íntimas relações e interdependências entre a alma e o corpo, não devemos conceder-lhe uma importância exageradasobretudo no que diz respeito à moralidade de nossos atos —, à maneira de certos racionalistas, que atribuem ao temperamento nativo a responsabilidade única de nossas desordens.

O temperamento ideal. — Se quisermos estabelecer, em sintética visão de conjunto, as características do temperamento ideal, tomaríamos algo de cada um dos que acabamos de descrever. Ao sanguíneo pediríamos sua simpatia, seu grande coração e sua vivacidade; ao melancólico, a profundidade e a delicadeza de sentimentos; ao colérico, sua atividade inesgotável e sua tenacidade; ao fleumático, o domínio de si mesmo, a prudência e a perseverança.

Conseguir pelo esforço sistemático e inteligente este ideal humano, que a natureza não pode conceder a quase ninguém, conduz à difícil empresa do aperfeiçoamento e melhora do próprio temperamento, juntamente com o rude trabalho da formação do caráter.

Referências

  • Pe. Antonio Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. 2.ª ed., Madrid: BAC, 2015, pp. 784-790. A tradução portuguesa foi retirada do site S.O.S. Família e levemente adaptada para esta publicação.

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O problema de Lutero, qual era?
Padre Paulo Ricardo

O problema de Lutero, qual era?

O problema de Lutero, qual era?

Talvez a história que você ouviu até hoje sobre Lutero e a “Reforma” Protestante, a narrativa que lhe contaram na escola… não seja a história verdadeira.

Equipe Christo Nihil Praeponere11 de Janeiro de 2019
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Sabe Lutero e a “Reforma” Protestante? Talvez a história que você ouviu até hoje, a narrativa que lhe contaram na escola… não seja a história verdadeira.

Mas nosso curso de férias não se propõe somente a apresentar uma biografia de Martinho Lutero e a contar como ele deu início ao movimento protestante. Assim como com outros de nossos cursos, também este terá uma abordagem bem diferente da que normalmente as pessoas usam para tratar deste assunto.

Nosso curso tem história, tem apologética e tem teologia, mas tudo apresentado de uma maneira completamente nova, que você dificilmente vai encontrar em outro lugar.

A grande novidade deste conteúdo encontra-se já em seu título: por que “Lutero e o Mundo Moderno”, e não simplesmente “Quem foi Lutero” ou “O que foi a ‘Reforma’ Protestante”?

Porque o assunto deste curso envolve muito mais do que uma personagem e um evento históricos. Ao longo de nossas aulas, você entrará em contato com todos os inúmeros desdobramentos da “Reforma” Protestante até os nossos dias, e entenderá como Lutero e a revolta a que ele deu origem são uma peça-chave para entendermos a modernidade.

Assista ao teaser de nosso curso acima e ajude-nos a chamar as pessoas para este lançamento! No próximo dia 21 de janeiro, às 21h, você conhecerá o homem que, mesmo sem se dar conta, tornou-se o primeiro na história a montar uma ideologia.

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O que os jornalistas não sabem sobre ideologia de gênero
Sociedade

O que os jornalistas não
sabem sobre ideologia de gênero

O que os jornalistas não
sabem sobre ideologia de gênero

Afinal, a ideologia de gênero existe mesmo ou não passa de “uma invenção da Igreja Católica”? Será que o mundo em que vivem nossos jornalistas é o mesmo em que nós vivemos?

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Janeiro de 2019
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“O jornalismo é popular, mas é popular principalmente como ficção. A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro”. Dizem que foi Chesterton o autor dessa observação genial sobre a veracidade dos periódicos, tablóides, revistas e diários que compõem a chamada grande mídia. De fato, o abismo entre o universo jornalístico e a vida cotidiana é uma coisa que parece se agravar ano após ano, sobretudo para a imprensa tradicional. Acostumados aos velhos jargões e ao ritmo frenético da modernidade — o que dificulta o estudo e a meditação séria sobre temas delicados —, muitos jornalistas acabam reféns da própria indigência e, de quebra, não conseguem fazer a mínima avaliação da realidade sem o auxílio de algum intelectual chique ou de cacoetes obsoletos.

Outro dia um jornalista dizia para seus ouvintes na rádio que a “ideologia de gênero” era — atenção — “uma invenção da Igreja Católica”. Como se os padres e leigos que lotaram as câmaras municipais há alguns anos, exigindo a retirada das questões de gênero dos planos de educação, não tivessem mais nada que fazer do que inventar “moinhos de vento” para combater a ferro e fogo.

Declarações como essas, no entanto, aparecem aos montes nos jornais, e mesmo profissionais bem intencionados acabam cedendo à tentação neriana de colocar a culpa sempre nos cristãos. A regra é clara: se os casos de AIDS aumentam no país, a culpa é da Igreja e da sua doutrina medieval contra o sexo antes do casamento; se algum maluco abusa de uma moça no ônibus, a culpa é da Igreja machista que não aceita a ordenação de mulheres; se a economia está mal, é por causa do voto de pobreza dos santos católicos. Os exemplos variam e a história se repete: sim, senhores, “qualquer pedaço de pau serve para bater na Igreja Católica”.

Nada é mais ideológico do que isso. Trocando em miúdos, ideologia é uma forma de argumentação retórica para sustentação de uma tese obtida de antemão, ou seja, sem os devidos métodos filosóficos e empíricos de encontro da verdade. O ideólogo já está convencido da sua teoria, e vai usar qualquer estratagema para defendê-la, apesar da realidade e a natureza das coisas. Desse modo, ele não precisa ler, estudar ou ouvir os argumentos adversários. Para vencer o debate, basta-lhe acusar os oponentes de alguma coisa infamante, com base em algum preconceito generalizado, e pronto.

Esse tipo de atitude é prontamente repetida nas redações de quase todos os jornais da grande mídia. Afinal de contas, por que um jornalista perderia tempo com algum livro ou trabalho científico se pode simplesmente explicar uma situação pelo esquema ideológico do chefe? No caso da polêmica sobre o gênero, imaginem quantos desses profissionais leram, alguma vez, os textos da Conferência do Cairo, os livros de Judith Butler e Shulamith Firestone, ou estiveram em alguma sala de aula para observar in loco o tipo de “educação” sexual que as escolas oferecem aos seus alunos. Não se trata aqui de juízo temerário, mas de mera análise lógica dos fatos. Para um repórter negar a realidade gritante da “ideologia de gênero” na educação, ou ele nunca leu nem presenciou nada do tipo, ou sofre de grave dislexia e não consegue entender o que se passa debaixo do próprio nariz. E vejam que nem aventamos a hipótese de sordidez pura e simples, o que não é impossível.

A Igreja Católica considera ideológicas as discussões de “gênero e direitos reprodutivos” porque elas se baseiam justamente naquele tipo de proposição falsa que se sustenta por argumentos pseudocientíficos. Para negar a realidade biológica e a identidade sexual humana, os ideólogos do gênero afirmam que a expressão da identidade sexual humana é, antes de tudo, uma construção social. Nesse sentido, haveria a sexualidade física (pênis e vagina), a atração sexual (hetero, homo ou bissexual) e, finalmente, a identidade de gênero, que seria a forma como a pessoa se constrói socialmente e vive a sua sexualidade no cotidiano. Do ponto de vista do gênero, portanto, todo ser humano nasceria neutro e só descobriria a própria identidade mais tarde, após algumas experiências sexuais e sociais. De acordo com Judith Butler, a mais badalada ideóloga do gênero, “a família é também uma formação histórica: sua estrutura e seu significado mudam ao longo do tempo e do espaço”.

A teoria de gênero defende, grosso modo, a inexistência de uma substância humana que esteja presente em todos os homens e mulheres. Tudo estaria resumido às performances e às aparências. Para que um homem seja mulher, ele só precisa de algumas cirurgias remodeladoras e de diminuir o seu nível de testosterona. Não importa se a pessoa tem uma constituição feminina ou masculina, pois tudo depende apenas da vontade do indivíduo, que deve ser livre para se construir conforme o próprio gosto. De resto, os velhos papéis institucionais de pai, mãe e filho devem, aos poucos, sumir do horizonte social para dar espaço a uma nova forma de família plural e diversificada. Esse é o objetivo da teoria de gênero, segundo as palavras da própria Butler. Trata-se de “gerar mais liberdade e aceitação para a gama ampla de identificações de gênero e desejos que constitui nossa complexidade como seres humanos”.

Verba volant, scripta manent, diz um antigo provérbio latino. Popularizadas pela academia, as palavras de Butler e de outros teóricos de gênero “voaram” para bem longe de seus escritos e foram fazer estrago na realidade. O primeiro grande experimento de gênero de que se tem notícia é a trágica história da família Reimer, contada aqui no site inúmeras vezes. Para provar sua “teoria”, o doutor Money não pensou duas vezes antes de submeter o pequeno David Reimer a uma cirurgia, de modo que pudesse tratá-lo então de Brenda. O menino deveria ser educado como menina para se adaptar ao novo gênero. Resultado: o rapaz cresceu deprimido e acabou se suicidando. Mas esse, infelizmente, não seria o último destino fatal da ideologia de gênero. Os números de suicídio provocados, entre outras coisas, pela confusão mental decorrente das questões de gênero só aumentam, assim como o número de pessoas que se expõem a cirurgias arriscadas de mudança de sexo.

A confusão chegou até aos esportes também. Segundo as leis atuais do Comitê Olímpico Internacional, um homem pode concorrer contra mulheres desde que se declare do gênero feminino e, dentro de um ano, estabilize sua produção de testosterona a um nível aceitável. Ele nem precisa amputar o membro viril. Desse modo, marmanjos de 1,90m de altura estão jogando no vôlei feminino e dando porrada em mulheres do MMA.

Fotografia da exposição “You Are You”, tirada em um acampamento de verão para crianças “gender-nonconforming”. (Sim, é um menino.)

Para assegurar o bem-estar das crianças, a Associação Americana de Pediatras emitiu uma declaração gravíssima contra a presença desse tipo de teoria dentro das escolas. Segundo a organização, “condicionar crianças a acreditar que uma vida inteira de personificação química e cirúrgica do sexo oposto é normal e saudável, é abuso infantil”. A declaração adverte contra os bloqueadores de hormônios da puberdade, que têm se tornado um fenômeno entre muitos jovens, depois do advento das propagandas de gênero. Causou escândalo recentemente uma campanha da cantora Celine Dion em que a artista aparece colocando roupas “neutras” em bebês de uma maternidade. É justamente contra esse tipo de abuso que a Associação Americana de Pediatras e outras organizações mundo afora se levantaram, sobretudo agora que os casos de crianças com “disforia de gênero” estão crescendo vertiginosamente.

No Brasil, o Ministério da Educação trabalhou insistentemente nos últimos anos para incluir esse tipo de abordagem dentro do ensino escolar. No livro do MEC Sociologia em movimento, por exemplo, os alunos aprendem que “o peso cultural da família patriarcal e da Igreja em nossa sociedade continua a ser uma forte influência para a marginalização dos grupos LGBT. Isso leva à violência homofóbica e transfóbica, assim como à violência doméstica contra mulheres”. Também o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) cobra dos universitários que se comprometam com a inclusão das temáticas de gênero nas escolas. Se os pais não tivessem se posicionado em tempo oportuno contra toda essa loucura, as escolas do Brasil hoje seriam como as da Suécia, onde meninos e meninas se vestem de cor laranja e não podem ser tratados por ele ou por ela.

Mas certamente essas coisas não existem, diria o jornalista chapa-branca, e a nota da Associação Americana de Pediatras deve ter sido escrita por algum monge albino do Opus Dei, infiltrado na instituição para promover o caos. Essa insistência dos jornais em fechar os olhos para a realidade, negando-se a retratar na íntegra os fatos como eles são, tem lhes custado um alto preço. Depois do advento da internet, as pessoas não estão mais reféns da “espiral do silêncio” imposta pela grande imprensa, e agora elas recorrem a outros canais alternativos de informação, que prestam um excelente trabalho. Enquanto isso, os jornais tradicionais agonizam e lutam para manter viva uma ideologia antiquada e pedante. E eles juram que a culpa é da Igreja Católica.

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Lutero, o homem que gerou o mundo moderno
Padre Paulo Ricardo

Lutero, o homem que
gerou o mundo moderno

Lutero, o homem que
gerou o mundo moderno

Por que, em certo sentido, Lutero é seguido mais pelas ideologias atuais do que pelos próprios protestantes? É o que Padre Paulo Ricardo vai responder em nosso novo curso de férias!

Equipe Christo Nihil Praeponere7 de Janeiro de 2019
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Está chegando mais um curso de férias em nosso site!

Este mês, Padre Paulo Ricardo apresenta a você uma personagem decisiva para a história tanto da Igreja quanto da humanidade: Martinho Lutero.

Neste curso, que dá início a nossos estudos de História da Igreja Moderna, você acompanhará o contexto histórico em que se deu a chamada “Reforma” Protestante, a biografia do homem que deu origem a essa revolta e, principalmente, a ligação dele com as ideologias e movimentos revolucionários de nossa época.

Você vai se surpreender ao descobrir que Lutero é mais seguido pelas ideologias atuais do que pelos próprios luteranos e protestantes!

Anote, pois, em sua agenda! No próximo dia 21 de janeiro, às 21h, você tem um encontro conosco para conhecer esta figura controversa, cheia de temores internos e que, mesmo sem se dar conta, tornou-se o primeiro homem na história a montar uma ideologia.

Para ter acesso a este conteúdo que estará disponível em breve, avisamos desde já que é necessário ser aluno de nosso site. Por isso, se você ainda não estuda conosco, faça agora sua inscrição e tenha acesso, ainda hoje, a todo o nosso catálogo de cursos.

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