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Conheça os sacramentos da Igreja com o Padre Paulo Ricardo

Texto do episódio
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Chegou ao mercado editorial brasileiro a tradução do polêmico livro do jornalista Rod Dreher, A opção beneditina, considerado pelo jornal The New York Times como “o mais discutido e importante livro religioso da década”. O alarde tem justificativa. Nessa obra de 320 páginas, Dreher apresenta uma situação bastante delicada para o cristianismo. Na sua avaliação, os cristãos devem desaparecer do mapa em poucas décadas caso a Igreja não encontre uma solução adequada para uma nova e eficaz evangelização dos povos.

Para alguns críticos, o livro de Rod Dreher seria apenas mais um daqueles títulos sensacionalistas. Todavia, existem graves evidências para se crer que o que Dreher apresenta não é só verdadeiro, mas até ponderado se comparado ao diagnóstico de outros estudiosos. Um levantamento do sociólogo Christian Smith, por exemplo, mostra que a maior parte dos jovens americanos hoje professa uma religião “deísta-moralista-terapêutica”. Trata-se de uma religião baseada em cinco princípios fundamentais: i) um Deus impessoal, que não intervém na sua criação; ii) as pessoas só precisam ser boas e simpáticas, como ensinam todas as religiões; iii) o principal objetivo da vida é ser feliz e sentir-se bem; iv) todas as pessoas vão para o Céu; v) Deus não precisa estar no meu dia a dia, a não ser quando tenho algum problema para resolver (saúde, emprego, família etc).

Dados mais escandalosos estão presentes em outra pesquisa de Christian Smith, publicada em 2014. Segundo o seu relatório, os jovens católicos americanos estão cada vez mais distantes da Igreja, e não a reconhecem mais como algo decisivo para a formação de suas identidades. A pesquisa foi lançada em livro, sob o título Young Catholic America, ainda sem tradução para o Brasil.

Vale, por outro lado, certa cautela no que se refere a algumas propostas interpretativas de Dreher. Em primeiro lugar, trata-se de um autor não-católico. Neste sentido, ele tende a diluir algumas formulações doutrinais para encontrar um denominador comum a todos os cristãos. E é óbvio que uma posição assim não serve para os católicos. Depois, a sua solução para o problema do cristianismo pode, como veremos logo, fomentar outras graves dificuldades. É preciso levar em consideração que Rod Dreher nasceu em uma família metodista, e a sua conversão à Igreja Católica aconteceu bem mais tarde. Além disso, os escândalos de pedofilia na Igreja, que se tornaram públicos em 2002, foram duros o bastante para constrangê-lo a abandonar o catolicismo e ingressar na Igreja Ortodoxa. Portanto, a sua linha de ação é muito mais no campo dos chamados “valores tradicionais” do que na doutrina cristã.

Em todo caso, a avaliação de Dreher sobre a guerra cultural contra o cristianismo é digna de consideração. De fato, os cristãos não estão mais conseguindo transmitir os seus valores para as gerações seguintes. Tão logo os filhos são inseridos na sociedade, a propaganda cultural os persuade a imitar a moda, os gostos e as atitudes dos homens modernos. Trata-se aparentemente de uma guerra assimétrica, cuja origem explicamos no nosso curso A Igreja e Mundo Moderno. Como ficou claro naquelas aulas, o problema do cristianismo não pode ser resolvido apenas pela via política, elegendo-se pessoas simpáticas à Igreja. Essa estratégia pode servir para nos dar certo tempo de organização, mas não resolve o problema na sua causa última. É preciso algo mais aprofundado.

Para Dreher, uma das opções para o drama cristão atual seria a formação de comunidades como as de São Bento, no século VI. Nessa época, a Igreja também passava por uma grave crise civilizatória: as invasões bárbaras, a queda de Roma, problemas dentro da própria Igreja etc. Horrorizado com aqueles acontecimentos, Bento recolheu-se numa caverna e ali se santificou por meio de uma vida austera e contemplativa. Com efeito, ele também formou outras pequenas comunidades monásticas e, após o desaparecimento do Império Romano, coube a essas comunidades preservar a vida cristã, as virtudes, a alta cultura, a fim de transmiti-las para a nova civilização que surgia na Europa. Daí o motivo de São Bento ser chamado o “Pai da Europa”.

De igual modo, Dreher propõe que os cristãos façam pequenas comunidades, onde possam se refugiar da confusão moderna e educar seus filhos segundo a norma das virtudes. Ele também recomenda a abertura de escolas cristãs ou a educação doméstica (homeschooling), a fim de que os filhos sejam preservados de más companhias.

Houve quem achasse a proposta de Dreher um tanto donatista, como declarou o padre jesuíta Antonio Spadaro, diretor da revista italiana La Civiltà Cattolica. De nossa parte, vemos que a intuição básica de Dreher está correta: não é possível manter uma fé cristã em contato direto com o mundanismo, ainda que exista o exemplo dos pais e o testemunho das coisas belas. Por outro lado, insistimos também na necessidade de uma educação religiosa que leve as pessoas ao encontro íntimo com a verdade cristã. Não se trata apenas de aprender doutrinas para empreender debates apologéticos, mas de encontrar-se pessoalmente com Cristo presente nas verdades doutrinais. E é nesse ponto que Rod Dreher falha.

Em nossas aulas aqui no site, temos defendido exaustivamente o valor da meditação e da contemplação das verdades, como meio para o encontro com Deus. Uma vez que “apascentar é, antes de tudo, doutrinar”, os jovens precisam conhecer a fundo a própria fé, a fim de que, diante das dificuldades, mantenham-se firmes na rocha firme da verdade católica, pois “em vão se esperaria que alguém cumprisse as obrigações de cristão” sem antes conhecê-las com exatidão (Pio X, Acerbo nimis, n. 6). Os cristãos que cometem graves desvios de caráter abandonam, primeiramente, a certeza sobre o dogma da fé. Antes de profanar a Missa ou corpo de uma criança, os padres desviados já haviam profanado o próprio coração por uma doutrina dúbia e herética. Quem não crê retamente, não age retamente.

Uma boa formação doutrinal não impede, contudo, que os cristãos formem legitimamente comunidades para a ajuda mútua e o fortalecimento da própria identidade. É de admirar que haja pessoas contrárias a essas comunidades cristãs numa época em que tantos defenderam as Comunidades Eclesiais de Base. Os cristãos precisam de um ambiente adequado para crescer na graça santificante e se transformar pela ação do Espírito Santo e a infusão das virtudes. Nesse caminho, poderemos repetir o êxito civilizacional de nossos irmãos medievais que, apesar das labutas, conseguiram formar uma cristandade sólida nas máximas do Evangelho.

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