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Esta aula possui um tema que, de certa forma, é quaresmal, por ser a própria razão da existência da Quaresma; mas também é um tema para a vida inteira, pois devemos carregar a cruz durante toda a nossa peregrinação terrestre.

Infelizmente, isso é uma realidade da qual pouco se fala. Muitas pessoas querem “seguir” Jesus, mas poucos querem configurar-se a Ele, a ponto de escolherem carregar a Cruz como Ele o fez. Malgrado Jesus tenha se encarnado justamente para oferecer o Santo Sacrifício do Calvário, muitos tendem a fazer como São Pedro, que aceitou Jesus, mas negou a Cruz.

Esse episódio é bem significativo para observarmos aquilo que pode acontecer conosco. Num primeiro momento, o Apóstolo Pedro realiza um ato de fé, afirmando de forma convicta a Nosso Senhor: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!" (Mt 16, 16). Ao que Jesus responde: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isso, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16, 17). No entanto, logo em seguida, quando Jesus começa a falar sobre o caminho de sofrimento que precisava percorrer, Pedro o contesta: “Que Deus não permita isso, Senhor! Isso não te acontecerá!” (Mt 16, 22). Então, Jesus o repreende: “Vai para trás de mim, satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, pois não pensas de acordo com Deus, mas de acordo com os homens” (Mt 16, 23).

Vemos, portanto, um paradoxo entre as duas atitudes de Pedro: na primeira, guiado pelo Espírito Santo, ele reconhece Jesus como Deus; já na segunda, conduzido pela carne, ele titubeia e nega a Cruz. Em relação a esta última atitude, o fato de Pedro ser chamado de Satanás, por Jesus, mostra-nos que, quando agimos pela carne [1], tornamo-nos satânicos, ou seja, inimigos de Deus.

Embora a conversa entre Jesus e Pedro tenha ocorrido à parte, ao ver o erro do Apóstolo, Jesus se dirige aos demais e exorta-os a abraçar a cruz e segui-lo: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16, 24).

A partir dessas palavras de Nosso Senhor, podemos dividir a nossa aula em duas partes: o “renuncie a si mesmo” (ἀπαρνησάσθω ἑαυτὸν) e o “tome a sua cruz” (ἀράτω τὸν σταυρὸν αὐτοῦ). Essas duas partes estão presentes nos três Evangelhos sinóticos. O padre Garrigou-Lagrange nos diz que a primeira parte é aquela que todos nós deveríamos fazer, a fim de mortificarmos o amor desordenado que habita em nosso coração. Mas, para alcançarmos a santidade, é preciso também vivermos a segunda parte, o “tome a sua cruz e siga-me”. Sem essa segunda atitude, podemos até não cometer pecados, mas jamais cresceremos na virtude a ponto de sermos santos. 

A renúncia de si mesmo é necessária porque, como já falamos no curso de Terapia das Doenças Espirituais, existe dentro de nós um amor próprio desordenado [2], chamado filáucia, que, como nos diz São João Crisóstomo, é um “amor louco”, porque autodestrutivo.

Se observarmos a civilização atual, veremos que ela erigiu a loucura da filáucia como um sistema institucional [3]. Mas a negação de si mesmo é fundamental para impormos limite a nós mesmos, de modo que nosso corpo não nos escravize a alma, como uma “criança mimada” que domina os próprios pais. Quando isso ocorre, nossa alma torna-se “carnal”, no sentido de que fica apegada às paixões, tornando-se refém da lógica do “foge da dor, busca o prazer”. Por isso, a Igreja nos ensina a viver a mortificação, de modo especial na Quaresma, mas não somente nesse período, pois ela é necessária ao longo de toda a vida. O livro de (7, 1) ensina-nos que a vida do homem sobre a terra é uma luta constante, que se realiza contra os três inimigos da alma: o demônio, o mundo e a carne.

Para seguirmos a Cristo, precisamos renunciar a nós mesmos como Ele próprio o fez. Seu Calvário não foi um “acidente de percurso”, como alguns erroneamente alegam. Ao contrário, Ele veio para isso, como nos diz a Carta aos Hebreus: “Por essa razão, ao entrar no mundo, Cristo declara: Não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste um corpo para mim. Não foram de teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. Então eu disse: ‘Eis que eu venho, ó Deus, para fazer a tua vontade’” (Hb 10, 5-8).

Ao vir ao mundo para fazer a vontade de Deus, já vemos em Cristo a dimensão do sacrifício, no sentido de uma alma humana que nega a si própria. E é justamente o seu sacrifício na Cruz que nos santifica: “É em virtude desta vontade que somos santificados pela oferenda do Corpo de Jesus Cristo realizada uma vez por todas” (Hb 10, 10). Por isso, a Igreja Católica possui como marca característica de seus templos a imagem de Jesus crucificado, recordando a todo católico que a nossa salvação advém do Sacrifício do Calvário.

Humanamente, a cruz é apenas um crime horrendo; mas, pela fé, sabemos que nela está a nossa vitória. Tal realidade Pedro ainda não havia compreendido. Por isso, Nosso Senhor o repreende: “Vai para trás de mim, satanás!” (Ὕπαγε ὀπίσω μου Σατανᾶ). Palavras semelhantes, mas não idênticas, foram usadas por Cristo contra o demônio no deserto: “Vai para trás, satanás!” (Ὕπαγε Σατανᾶ). Aqui, percebemos uma sutil distinção: a Pedro, Jesus ordena “vai para trás de mim”, no sentido de seguir e voltar a pensar como Ele e não de forma carnal; já ao demônio, Nosso Senhor exige que ele se afaste, afirmando “vai para trás”. E o mesmo seguimento exigido a Pedro, Jesus pede aos discípulos: “Se alguém quiser vir comigo (Εἴ τις θέλει ὀπίσω μου ἐλθεῖν), renuncie a si mesmo (ἀπαρνησάσθω ἑαυτὸν)”. Tal negação de si mesmo é fundamental para vivermos não apenas a Quaresma, mas toda a nossa vida.

Mas só isso não basta; é imprescindível abraçar a cruz, que é uma realidade inevitável e da qual não podemos fugir. Mesmo quando fizermos todos os nossos deveres corretamente, surgirá alguma adversidade. Quando isso ocorrer, não vejamos a cruz como um empecilho, pois viemos a este mundo para carregá-la e, por meio dela, unirmo-nos ao Cristo Crucificado.

Existe uma cruz que Deus, na sua infinita sabedoria, reservou para cada um de nós desde toda a eternidade; e, quando ela se revelar, saudemo-la, inclinando-nos diante da vontade amorosa de Deus, que, por meio dela, quer nos santificar.

Diferentemente do que alguns pensam, a cruz não é a exceção, mas sim a regra na vida daqueles que buscam a santidade, pois esta consiste na configuração a Cristo. E, assim como o Divino Esposo, no leito nupcial da Cruz, diz: “Eis o meu Corpo que é dado”, também nós devemos nos oferecer em sacrifício quando nossa cruz se apresentar.

Viemos a este mundo para nos unir a Cristo na Cruz. Por isso, entreguemo-nos com Ele, dizendo: “Eis que eu venho para fazer a vossa vontade, Senhor”. Em vez de negar a Cruz, como fez Pedro num primeiro momento, aceitemo-la com fé e coloquemos em Deus toda a nossa esperança, clamando: In manus tuas Domine commendo spiritum meum — “Pai, em tuas mãos, entrego o meu espírito”. Sigamos o Crucificado, a fim de sermos santificados pela oferenda de seu Corpo na Cruz.

Referências

  1. O termo “carne” (sarx) designa não o corpo em si, mas a alma apegada de forma desordenada ao mundo e a si mesma.
  2. Embora, pelo pecado original, tenhamos essa tendência desordenada, podemos viver um amor próprio ordenado e bom, à medida que amamos a nós mesmos como Deus nos ama.
  3. Um exemplo de o quanto isso foi elevado ao grau máximo são os casos de eutanásia na Bélgica.
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