Como Cristo é gerado em nós?
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®

Como Cristo é gerado em nós?

“Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”.

Texto do episódio

Texto do episódio

imprimir

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1,26-38)

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”

Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo então disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”.

Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível”. Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.

Comentário exegético

Argumento. — O anjo Gabriel é enviado por Deus à bem-aventurada Virgem Maria para lhe anunciar a natividade, a glória e o reino de Cristo. Interrogado pela bem-aventurada Virgem, o anjo lhe declara a concepção virginal e a natividade de Jesus.

§1. Saudação do anjo (v. 26ss). — V. 26s. Estando Isabel no sexto mês, foi enviado por Deus (ἀπὸ τοῦ θεοῦ, como do lugar a quo) o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, que, mais do que cidade, era um vilarejo desconhecido (cf. Jo 1,46), chamada Nazaré, ao norte da planície de Esdrelão, à qual não se faz menção alguma no AT. — A uma virgem em sentido próprio (o que se deduz do v. 34) desposada com um varão: ‘deposada’ (gr. ἐμνηστευμένην) significa aqui o mesmo que ‘unida em matrimônio’, pois os esponsais dos hebreus supunham não só a promessa de casamento, como no caso do noivado moderno, mas constituíam já um verdadeiro matrimônio, com todos os direitos e deveres conjugais. Por isso a infidelidade da esposa era punida pela Lei com a mesma pena do adultério (cf. Dt 22,23ss). Um ano após os esponsais, a esposa era finalmente levada à casa do esposo, e então se celebravam solenemente as núpcias. — Chamado José (יוֹםֵף = lit. ‘acresça!’ i.e. dê [Deus] mais, ou maiores [bens]).

V. 28. Entrando o anjo onde ela estava, disse-Ihe: Ave (χαῖρε = lit. ‘alegra-te!’, o que provavelmente corresponde à saudação usual entre os judeus: לָךְשָלוֹם ou שָׁלוֹם עָלֶךָ = ‘paz para ti’, ou ‘contigo’). — Cheia de graça (κεχαριτωμένη): verbos terminadas em -οω, como e.g. αἱματόω, exprimem abundância, ação intensa; por isso é correta a versão da Vg (gratia plena), com a qual as versões síria, copta e gótica, além da maioria dos intérpretes, estão de acordo. Nos LXX e em gr. moderno, o vocábulo κεχαριτωμένος significa ‘belo’, ‘gracioso’, ‘venusto’, por isso alguns protestantes preferem esse sentido, antes físico que espiritual; mas a interpretação tradicional não deve ser preterida sem argumentos sólidos. Entenda-se essa plenitude de graça não só como imunidade ao pecado, seja original, seja atual, mas como cúmulo de todas as virtudes e dons que nos fazem gratos a Deus: ‘. . . o qual gênero de plenitude compreende absolutamente toda graça que devia ter aquela que em breve se tornaria Mãe de Deus’ (Jansênio). Não à toa o anjo, omitindo-lhe o nome próprio, a chama com nome apelativo, cheia de graça, como se fora próprio, o que só se costuma fazer quando certo nome compete de tal modo a alguém, que somente a ele pode atribuir-se com toda a propriedade (denominação κατ’ ἐξοχήν); assim e.g. diz-se simplesmente sábio, no lugar de Salomão, justo, em vez Cristo; Apóstolo, no lugar de Paulo (cf. Brugense).

O Senhor é contigo. — Outro modo de saudar, familiar aos hebreus (cf. Jt 6,12, Rt 2,4) como fórmula deprecatória: ‘Que o Senhor esteja contigo [ou: te guarde, te seja propício, te ponha sob a sua proteção etc.]’. Aqui, porém, é mais provável ter sentido afirmativo: ‘Deus está contigo de modo singular’, i.e. ‘habita em ti pela plenitude de graça’; logo, esta locução explica a precedente. Alguns aa. antigos a interpretam também como referência à encarnação do Verbo, ou já realizada, ou a realizar-se dali a pouco: ‘O Senhor, diz-lhe [o anjo], é contigo, porém mais do que comigo . . . Embora em mim esteja o Senhor, a mim criou-me o Senhor; mas por ti ele há de nascer. De tal modo, Maria, é o Senhor contigo, que está ele em teu coração e está em teu útero, que te enche ele a alma e te enche o ventre’ (Ps.-Agostinho, serm. xviii, de tempore: ML 39,2108). — Bendita és tu entre as mulheres, i.e. mais do que todas as mulheres, por ser a única delas escolhida por Deus para a suma dignidade da maternidade divina, cumulada portanto de dons celestes, a fim de destruíres a antiga maldição dos protoparentes. — Desta preclara saudação, comentada pelos Santos Padres com os maiores louvores e encômios, se pode inferir qual e quão grande fosse a santidade de Maria; o quão absoluta, a sua imunidade a qualquer mancha de pecado; o quão alto, o conceito que dela sempre teve a inteira tradição cristã.

§2. Anúncio do anjo (vv. 29-38). — V. 29. Ela, ao ouvir estas palavras, perturbou-se, i.e. por causa do que acabara de ouvir, e discorria pensativa (διελογίζετο = considerava, poderava consigo mesma) que saudação seria esta, i.e. o que quereriam dizer e que fim teriam tão magníficos louvores, pois a humílima Virgem não via em si nenhum fundamento para tamanha exaltação. O que alguns aa. propõem, a saber: que a bem-aventurada Virgem se teria perturbado à entrada do anjo, sob a aparência de jovem, como se visse nisso um perigo para a castidade, deve ser rejeitado como indigno da suma pureza de Maria e da santidade do próprio anjo, além de ser pouco conforme às palavras mesmas da narração, pois Maria perturbou-se não pelo que viu, mas pelo que ouviu de Gabriel. Eis por que discorria pensativa que saudação seria esta. É igualmente improvável que a Virgem bendita tenha temido uma possível ilusão demoníaca. Com efeito, é absurdo pensar que Deus permitiria ao diabo iludir a quem não lhe permitira nunca subjugar; além do que, é persuasão comum dos fiéis que Nossa Senhora, entre outros dons carismáticos, possuía o da discrição de espíritos.

V. 30s. Benigno, o anjo tranquiliza a Virgem santíssima: Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus, locução hebr. (cf. Gn 6,8; Ex 33,12; Jt 6,17) equivalente a: ‘Alcançaste o favor de Deus’, ou: ‘És grata aos olhos de Deus’. — Eis que conceberás no teu ventre (pleonasmo hebr.) e darás à luz um filho, alusão evidente a Is 7,14 (Eis que a virgem conceberá e dará á luz um filho), a quem porás o nome de Jesus, i.e. lhe imporás este nome por seres Mãe dele (cf. Gn 4,1; 19,37 etc.). — ‘Jesus’ (Jeshua‘, antes Jehoshua‘, composto de duas palavras: יהוה (da forma apocopada יה = Jahweh, e שוע = salvar, i.e. Jahweh salva), é o mesmo que ‘Salvador’; por isso as palavras que se lhe seguem em Mt 1,21 (Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados) não são mais do que uma explicação do nome.

V. 32s. Será grande, será chamado Filho do Altíssimo, i.e. será (cf. Is 7,14; 8,10; 4,3) o Filho de Deus, não por adoção, mas por natureza; e o Senhor Deus lhe dará a sede (τὸν θρόνον = o trono) de seu pai Davi etc., no que se evidencia que o Filho de Maria será o rei prometido ao povo hebreu e prenunciado em todo o AT.

§3. Resposta de Maria (vv. 34-38). — V. 34. Maria disse ao anjo: Como se fará isso, pois eu não conheço varão? Desta pergunta se depreende com toda a clareza que a Virgem bendita se obrigara a voto de castidade perpétua, e que o fez por especial inspiração de Deus; do contrário, não teria sentido ver qualquer dificuldade na promessa do anjo: ‘[Maria] decerto não o teria dito, se antes não se houvesse consagrado virgem a Deus’ (Santo Agostinho, de sancta virg. iv: ML 40,398). Esta opinião, ao menos na Igreja latina, tornou-se comum: ‘Entre os católico, não se discute que Maria tenha consagrado sua virgindade’ (Suárez, In STh III 28, 4, d. 4, §6 n. 1). Há no entanto católicos que divergem dessa opinião. O cardeal Caetano e, depois dele, os protestantes em geral referem as palavras não conheço varão não ao presente ou ao futuro, mas ao passado, como se fora dito: ‘Até agora não conheci’, interpretação que, além de forçada, é absurda.

Os intérpretes católicos são unânimes em ensinar que a pergunta de Maria se deve à incredulidade nem à curiosidade, mas à vontade de conhecer devidamente o beneplácito divino. ‘Quando diz: Como se fará isso? Não duvidou do fato, mas perguntou por sua qualidade [i.e. pelo modo como se daria] . . . Com efeito, é ímpio pensar que a escolhida para gerar o Filho unigênito de Deus fora alguma vez incrédula’ (Santo Ambrósio).

Dubium: Acaso entendeu a Virgem santíssima que o anjo lhe falava do Messias? E, se o entendeu, sabia pela leitura de Is 7,14 que o Messias havia de nascer de uma virgem? — Resp.: Quanto ao primeiro, é difícil pensar que Maria não tenha compreendido o sentido messiânico da promessa, já que a alusão é mais do que clara. Quanto ao segundo, parece estar com a razão o cardeal Lépicier, ao dizer que ela não conhecia distintamente (i.e. de forma explícita, em termos próprios e expressos) a concepção e o parto virginais da Mãe do Messias. A isso não se opõe o vaticínio de Isaías: Eis que a virgem etc.; com efeito, embora o termo hebr. hā-‘almā (הָעַלְמָ֗ה) em sentido estrito possa significar e de fato signifique ‘virgem’, é cabível aqui o que escreve Santo Ambrósio: ‘Lera isto [Is 7,14] Maria, por isso acreditou que sucederia; mas como se daria, não o tinha lido antes, nem como fora revelado a tão grande profeta’.

V. 35. O anjo respondeu-lhe: O Espírito Santo sobrevirá, i.e. virá do alto sobre ti para realizar algo novo e sobrenatural em ti; e a virtude do Altíssimo (δύναμις ὑψίστου), i.e. a divina onipotência (por metonímia, o atributo pelo sujeito) te cobrirá com a sua sombra, i.e. te protegerá, guardará, para que possas conceber sem varão. Esta castíssima metáfora é tomada da nuvem, sinal da presença divina, que no Tabernáculo da Aliança repousava ou ‘inumbrava’ (hebr. sakhan, gr. LXX σκιάζειν; cf. Ex 40, 35;Nm 9,2). — E por isso o que nascerá (γεννώμενον = o que é gerado ou concebido; presente pelo futuro) de ti santo, i.e. o santo que de ti há de nascer será chamado (e o será de fato) Filho de Deus. Alguns aa., com base em versões antigas (exceptuando a gótica e a Vg, que são ambíguas), deduzem outro sentido: ‘O que de ti nascerá é santo e será chamado’ etc. A primeira interpretação é provável, mas dá lugar a certa ambiguidade, pois, embora não afirme que algo não santo nascerá da Virgem, não o nega claramente, deixando-o implicitamente em aberto. Já a segunda interpretação exclui toda ambiguidade e é hoje adotada por muitas traduções católicas.

NBE por isso será chamado (será realmente) Filho de Deus. Esta sentença, entendida com todo o rigor literal, é falsa. Com efeito, não é verdade que Cristo é Filho de Deus por ter sido concebido de modo sobrenatural, mas porque é gerado ab æterno por Deus Pai.

V. 36s. Para dar mais credibilidade ao mistério proposto à Virgem santíssima, o anjo refere-lhe o exemplo de uma sua parenta (com que grau de parentesco, não se sabe ao certo), Isabel, que, sendo embora estéril e de idade avançada, finalmente concebeu um filho e já dá sinais claros de gravidez, pois se passaram seis meses desde concepção. — Porque a Deus nada é impossível. Na Vg, ao pé da letra: Porque não haverá impossível para Deus toda [i.e. nenhuma] palavra. ‘Palavra’ (gr. ῥῆμα) é o mesmo que ‘coisa’ (hebr. dabhar); e não . . . toda (οὐκ . . . πᾶν) = ‘nenhuma’, como indicado. O sentido é o das traduções correntes: ‘Não há nada impossível para Deus’.

V. 38. Então Maria disse: Eis a serva do Senhor etc. São palavras não de quem deseja, como afirmam muitos aa., mas de quem consente: ‘Bela mistura de virgindade e humildade’ (São Bernardo, hom. ii). ‘Vê a humildade, vê a devoção! Chama-se serva a escolhida para Mãe, nem se exalta com a repentina promessa’ (Santo Ambrósio). E, terminada a legação, afastou-se dela o anjo.

Texto do episódioComentários dos alunos

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.