Jesus é preso e amarrado
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Surgite, eamus: ecce qui me tradet, prope est — Levantai-vos, vamos: eis que já está perto quem me há de trair (Mc 14, 42). 

Sabendo o Redentor que Judas, os judeus e os soldados que o vinham prender já estavam perto, levanta-se, ainda banhado no suor da morte, e com o rosto pálido mas com o coração tão inflamado em amor, vai ao seu encontro para entregar-se em suas mãos. E, vendo-os reunidos, pergunta-lhes: “A quem buscais?” 

Imagina, minha alma, que do mesmo modo Jesus te pergunta: “Dize-me, a quem buscas?” Ah, meu Senhor, a quem eu procuro senão a vós, que viestes do céu à terra em busca de mim, para não me perder?

Comprehenderunt Iesum et ligaverunt eum — Prenderam a Jesus e o amarraram (Jo 18, 13). 

Ó céus, um Deus amarrado! Que diríamos, se víssemos um rei preso e acorrentado por seus criados? E que devemos dizer então, vendo um Deus entregue às mãos do povo?

Ó cordas felizes, vós que amarrastes o meu Redentor, prendei-me também a ele; mas prendei-me de tal modo que eu não possa separar-me mais de seu amor. Prendei o meu coração à sua vontade santíssima, para que de agora em diante eu não queira nada mais senão o que ele quer.

Contempla, minha alma, como uns o agarram, outros o amarram, outros o injuriam, outros o agridem… e o Cordeiro inocente se deixa amarrar e esbofetear à vontade. Não procura fugir de suas mãos, não pede auxílio, não se queixa de tantas injúrias, não pergunta por que o maltratam assim. Eis realizada a profecia de Isaías: “Foi sacrificado porque ele mesmo quis, e não abriu sua boca. Como ovelha foi conduzido ao matadouro” (Is 53, 7).

Não fala e não se lamenta, porque ele mesmo já se oferecera à justiça para satisfazer e morrer por nós, e assim deixou-se conduzir à morte qual ovelha, sem abrir a boca.

Olha como, preso e cercado por aqueles cães, é arrastado do horto e conduzido às pressas aos pontífices na cidade. E onde estão seus discípulos? Que fazem? Se, não podendo livrá-lo das mãos de seus inimigos, ao menos o acompanhassem para defender sua inocência diante dos juízes, ou então para consolá-lo com sua presença! Mas não. O Evangelho diz: “Então seus discípulos, abandonando-o, fugiram todos” (Mc 14, 50). Que dor não sentiu então Jesus, vendo-se abandonado e deixado até por aqueles que lhe eram caros! Jesus viu então todas aquelas almas que favorecera mais do que outras, e que depois haveriam de abandoná-lo e voltar-se-lhe ingratamente as costas.

Ah, meu Senhor, uma destas almas fui eu, infeliz, que depois de receber tantas graças, luzes e convites vossos, esqueci-me ingratamente de vós e vos abandonei. Recebei-me, por piedade, agora que, contrito e enternecido, a vós retorno para não mais deixar-vos, ó tesouro, ó vida, ó amor de minha alma.

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