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Homilia Dominical
8 Abr 2016 - 25:36

Jesus nos espera do outro lado

Ressuscitado, Jesus Cristo realizou diante de seus discípulos, à beira do mar, uma segunda pesca milagrosa. Depois de uma noite trabalhando sem pescar nada, imagem do cansaço da labuta desta vida, Jesus também nos espera do outro lado, pronto para se dar a nós em alimento. Ouça a esta pregação do Padre Paulo Ricardo e medite sobre esse milagre, a partir das considerações do grande Santo Tomás de Aquino!
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Homilia Dominical - 8 Abr 2016 - 25:36

Jesus nos espera do outro lado

Ressuscitado, Jesus Cristo realizou diante de seus discípulos, à beira do mar, uma segunda pesca milagrosa. Depois de uma noite trabalhando sem pescar nada, imagem do cansaço da labuta desta vida, Jesus também nos espera do outro lado, pronto para se dar a nós em alimento. Ouça a esta pregação do Padre Paulo Ricardo e medite sobre esse milagre, a partir das considerações do grande Santo Tomás de Aquino!
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 21, 1-19)

Naquele tempo, Jesus apareceu de novo aos discípulos, à beira do mar de Tiberíades. A aparição foi assim: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos de Jesus.
Simão Pedro disse a eles: “Eu vou pescar”. Eles disseram: “Também vamos contigo”.
Saíram e entraram na barca, mas não pescaram nada naquela noite. Já tinha amanhecido, e Jesus estava de pé na margem. Mas os discípulos não sabiam que era Jesus. Então Jesus disse: “Moços, tendes alguma coisa para comer?” Responderam: “Não”.
Jesus disse-lhes: “Lançai a rede à direita da barca, e achareis”. Lançaram pois a rede e não conseguiam puxá-la para fora, por causa da quantidade de peixes. Então, o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: “É o Senhor!” Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca, arrastando a rede com os peixes. Na verdade, não estavam longe da terra, mas somente a cerca de cem metros. Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão. Jesus disse-lhes: “Trazei alguns dos peixes que apanhastes”.
Então Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra. Estava cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e apesar de tantos peixes, a rede não se rompeu.
Jesus disse-lhes: “Vinde comer”. Nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar quem era ele, pois sabiam que era o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e distribuiu-o por eles. E fez a mesma coisa com o peixe.
Esta foi a terceira vez que Jesus, ressuscitado dos mortos, apareceu aos discípulos. Depois de comerem, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”
Pedro respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus disse: “Apascenta os meus cordeiros”. E disse de novo a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?” Pedro disse: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas”. Pela terceira vez, perguntou a Pedro: “Simão, filho de João, tu me amas?”
Pedro ficou triste, porque Jesus perguntou três vezes se ele o amava. Respondeu: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo: quando eras jovem, tu cingias e ias para onde querias. Quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres ir”. Jesus disse isso, significando com que morte Pedro iria glorificar a Deus. E acrescentou: “Segue-me”.

Santo Tomás de Aquino, comentando essa terceira aparição de Cristo Ressuscitado aos Apóstolos, contrapõe-na àquela aparição em que acontece a primeira pesca milagrosa (cf. Lc 5, 1-11). Antes, Ele estava no barco para, agora, aparecer de manhã e na margem. Que sentido místico trazem consigo essas diferenças?

Mane autem iam facto, diz o Evangelho. ‘Já ia a amanhecer’. Misticamente, pela manhã se entende a glória da ressurreição: ‘De tarde sobrevem o pranto e, de manhã, a alegria’ (Sl 29, 6), e também o estado da vida eterna: ‘Pela manhã vos invoco e espero’ (Sl 5, 5).
Todavia, quando realizou antes da paixão o mesmo milagre, Ele não ficou no litoral, mas dentro do barco. Por que depois da paixão Ele fica de pé na margem? A razão disso é que o mar significa a agitação do século presente, enquanto o litoral é o término do mar: ‘Está posta a areia como término do mar, preceito sempiterno, que ele não ultrapassará’ (Jr 5, 22). Assim, antes da paixão, Cristo ficou no mar, porque possuía um corpo mortal, mas, depois da ressurreição, já tinha vencido a corrupção da carne, pelo que ficou na margem.” [1]

Essa leitura mística é importante para dar à nossa fé um impulso de esperança: Cristo está na barca de nossa vida em meio aos ventos e tempestades deste mundo e, ao mesmo tempo, Ele nos aguarda no litoral e tem preparado para nós um banquete, assim como preparou um para os Seus discípulos.

Antes disso, porém, Jesus pergunta aos discípulos se eles têm algo para comer. O significado místico desse gesto é indicado novamente por Santo Tomás: o Senhor pede de comer porque quer ser consolado por Seus discípulos [2] — consolação que acontece de fato por meio da nossa obediência aos mandamentos de Deus, que é justamente o motor dessa segunda pesca milagrosa. Depois de uma noite inteira lançando por sua própria iniciativa as redes, os discípulos só têm sucesso quando, assistidos pelo Senhor, lançam as redes impulsionados por Sua palavra.  

Já em terra firme, o Evangelho diz que Jesus prepara três coisas para os Apóstolos: “Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão” (v. 9). É o Doutor Angélico, novamente, quem nos dá o significado dessas realidades:

“Por isso nos é dado a entender, de certo modo, o que é preparado por Cristo para o banquete espiritual. E se tomamos alegoricamente esse banquete como aquele da Igreja, Cristo também prepara estas três coisas.
Primeiro, as brasas acesas da caridade: ‘Agindo deste modo, brasas de fogo amontoarás sobre a sua cabeça’ (Pr 25, 21); ‘Enche a mão com brasas de fogo’ (Ez 10, 2). Tais brasas Cristo trouxe do Céu à terra, como Ele mesmo diz: ‘Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros’ (Jo 13, 34), e ainda: ‘Fogo vim trazer à terra’ (Lc 12, 49).
Segundo, prepara sobre as brasas um peixe, que é Ele mesmo: porque o peixe assado é Cristo padecente (piscis assus Christus passus), que é posto sobre a brasa quando, em um incêndio de caridade, por nós é imolado na cruz, como diz S. Paulo: ‘Sede imitadores de Deus como filhos caríssimos, e andai no amor, assim como Cristo nos amou e se entregou por nós a Deus como oblação e hóstia em odor de suavidade’ (Ef 5, 1-2).
Prepara, por fim, os pães que nos refazem, pães que são Ele próprio. De fato, enquanto está escondido por Sua divindade, é chamado de peixe, cuja propriedade é esconder-se sob as águas: ‘És verdadeiramente um Deus escondido’ (Is 45, 15), mas, enquanto nos refaz por Sua doutrina e também nos dá o Seu corpo como alimento, Ele é verdadeiro pão: ‘Eu sou o pão da vida descido do céu’ (Jo 6, 51); ‘O pão dos frutos da tua terra será farto e abundante’ (Is 30, 23).” [3]

Este é, pois, como que o quadro geral deste Evangelho: depois de uma noite trabalhando sem pescar nada, imagem do cansaço da labuta desta vida, Jesus espera-nos do outro lado, na margem, pronto para dar-nos a Si mesmo em alimento: o peixe, representando a Sua divindade, e o pão, a Sua humanidade — o Cristo todo, em suma.

Lancemos um olhar, agora, às diferentes reações dos Apóstolos, ainda sob a direção do Aquinate:

“João, perspicaz em conhecer, de imediato reconhece o Cristo e diz a Pedro, que ele amava mais do que os outros e que também era o primeiro entre todos: ‘É o Senhor’. Fê-lo movido pela pesca milagrosa, pois está escrito: ‘Tu dominas os mares com poder’ (Sl 88, 10), e ainda: ‘O Senhor faz tudo aquilo que quer, no céu e na terra, no mar e em todos os abismos’ (Sl 134, 6). Disse ainda, ‘É o Senhor’, porque com esse nome estavam acostumados a chamá-Lo, como atesta o próprio Jesus: ‘Vós me chamais mestre e senhor’ (Jo 13, 13).
Pedro, porém, é retratado fervoroso no agir, fervor que aparece,
(1.º) em sua prontidão: ‘Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca’. Tão logo ouve, Simão Pedro não hesita e corre de imediato em direção ao Senhor: ‘Não demores nem adies dia após dia em converter-te ao Senhor’ (Eclo 5, 8).
(2.º) em sua reverência em relação a Cristo: por pudor ele vestiu a sua túnica, porque estava nu, tanto por causa do calor daquele lugar, quanto para facilitar o seu ofício. Isso dá a entender que aqueles que se aproximam de Cristo devem despir-se do homem velho e vestir-se com o novo, que é criado segundo Deus na fé: ‘O vencedor será revestido com as vestes da salvação, e não apagarei o seu nome do livro da vida’ (Ap 3, 5).
(3.º) em sua segurança: porque, cheio de amor e não querendo seguir com o barco, que demorava, lançou-se ao mar, a fim de alcançar prontamente o Cristo.
Em um sentido místico, o mar indica a tribulação do tempo presente. De onde aqueles que desejam alcançar o Cristo deverem lançar-se ao mar, sem se refugiarem das tribulações deste mundo, como está escrito: ‘Por muitas tribulações entraremos no reino de Deus’ (At 14, 21), e ainda: ‘Filho, se queres entrar para o serviço do Senhor, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação’ (Eclo 2, 1). Pedro, porém, se lançou ao mar e saiu ileso ao encontro de Cristo, mostrando que os servos de Cristo saem ilesos e seguros do meio das tribulações: ‘Abriste no mar uma via e um caminho firmíssimo entre as ondas’ (Sb 14, 3).
Aqui é posta, como diz São João Crisóstomo, a ótima condição de João e Pedro: aquele superior quanto ao intelecto, e este mais fervoroso quanto ao afeto.” [4]

As reações dos discípulos também podem ser medidas pela régua das três virtudes teologais, na ordem mesma em que são apresentadas por São Paulo (cf. 1 Cor 13, 13): primeiro, manifesta-se a de São João, que reconhece o Senhor a partir de Seu poder; segundo, manifesta-se a esperança de São Pedro, que se lança devotamente ao mar para chegar depressa à Sua presença; por fim, resplandece a caridade dos discípulos, que levam a Cristo os peixes que apanharam, imagem das almas que a Sua Igreja deve apresentar-lhe no fim dos tempos.

Essa mesma virtude da caridade fica patente na profissão de São Pedro, que reitera três vezes amar o Senhor — virtude que o próprio príncipe dos Apóstolos procura inculcar em seus irmãos presbíteros (também de três modos!), quando escreve a sua Primeira Carta canônica:

“Aos anciãos entre vós, exorto eu, ancião como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, participante da glória que está para se revelar: sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele, (i) não por coação, mas de coração generoso; (ii) não por torpe ganância, mas livremente; (iii) não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho. Assim, quando aparecer o pastor supremo, recebereis a coroa imperecível da glória.” (1 Pd 5, 1-4)

A meta final da Igreja é encontrar o Cristo na margem do além, na glória do Céu. Ainda estamos na barca da Igreja, mas, quando nos pomos a escutar com fé a Palavra de Deus e a colocamos em prática, já entramos em contato com o Senhor Ressuscitado que nos espera. Lancemo-nos com devoção ao mar conturbado deste mundo, certos de que “os servos de Cristo saem ilesos e seguros do meio das tribulações”.

Referências

  1. Comentário ao Evangelho de São João, XXI, 1, n. 2584-2585.
  2. Ibid., n. 2588.
  3. Id., 2, n. 2599.
  4. Id., 2, n. 2593-2594.

Bibliografia

Suma Teológica, II-II, q. 82, sobre a virtude da devoção.

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