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Homilia Dominical
3 Mar 2016 - 26:22

O filho pródigo somos nós

Quando Cristo conta a parábola do filho pródigo, é a nós que Ele se dirige. Somos nós o pecador que gastou os próprios bens com prostitutas e terminou invejando a comida dos porcos. Assim como o filho mais novo "caiu em si" e voltou para a casa de seu pai, no entanto, também nós somos chamados, nesta pregação, a ouvir a voz de Deus e recorrer à sua infinita misericórdia.
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Homilia Dominical - 3 Mar 2016 - 26:22

O filho pródigo somos nós

Quando Cristo conta a parábola do filho pródigo, é a nós que Ele se dirige. Somos nós o pecador que gastou os próprios bens com prostitutas e terminou invejando a comida dos porcos. Assim como o filho mais novo "caiu em si" e voltou para a casa de seu pai, no entanto, também nós somos chamados, nesta pregação, a ouvir a voz de Deus e recorrer à sua infinita misericórdia.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc
15, 1-3.11-32)

Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus. 'Este homem acolhe os pecadores e faz refeição com eles.'

Então Jesus contou-lhes esta parábola: 'Um homem tinha dois filhos. O filho mais novo disse ao pai: 'Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E ali esbanjou tudo numa vida desenfreada. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome naquela região, e ele começou a passar necessidade. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para seu campo cuidar dos porcos. O rapaz queria matar a fome com a comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam.

Então caiu em si e disse: 'Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus empregados'.

Então ele partiu e voltou para seu pai. Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos. O filho, então, lhe disse: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho'. Mas o pai disse aos empregados: 'Trazei depressa a melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado'. E começaram a festa.

O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. O criado respondeu: 'É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde'. Mas ele ficou com raiva e não queria entrar. O pai, saindo, insistia com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: 'Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado'. Então o pai lhe disse: 'Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado'.

*

Ao pedir ao pai que lhe dê a sua parte da herança, o filho mais novo manifesta que quer ser independente de Deus. A Vulgata Latina usa a expressão portionem substantiae, e é quase inevitável lembrar a petição do Pai Nosso a que Deus nos dê hoje o pão nosso supersubstancial (cf. Mt 6, 11: "Panem nostrum supersubstantialem da nobis hodie"). De fato, Ele nos criou para que fôssemos dependentes d'Ele, para que recebêssemos d'Ele a substância necessária para a nossa vida. Essa é a correta relação entre Criador e criatura.

Mas o filho da parábola quer tomar o lugar do pai e prover o seu próprio sustento. O pai, então, divide a herança, dá ao seu filho a porção que lhe cabe e, dias depois, este parte "para um lugar distante", onde dissipa os seus bens, é visitado pela fome e termina trabalhando para um patrão cruel, que o encarrega do cuidado dos porcos.

Santo Agostinho, comentando essa passagem das Escrituras, escreve que:

"O que se diz que ele fez depois de não muitos dias, quando reuniu tudo e partiu para uma região longínqua, é porque não muito tempo depois da instituição do gênero humano aprouve à alma, pelo livre arbítrio, carregar consigo certo poder da sua natureza e desertar de Deus, confiando em suas próprias forças — as quais ele consumia tanto mais rápido quanto mais se afastava de quem lhas tinha dado. Eis porque se chama essa vida de pródiga, uma vida que ama gastar e exibir pompas exteriores enquanto o seu interior se vai esvaziando. [...] A região longínqua é o esquecimento de Deus. A fome naquela região é a indigência da palavra da verdade; o habitante daquela cidade é algum príncipe aéreo pertencente à milícia do diabo; o seu campo é como a sua potestade; os porcos imundos são os espíritos que estão submetidos a ele; as lavagens com que cuidava dos porcos são as doutrinas estéreis do mundo, nas quais ressoam vaidosamente vários discursos e poemas em louvor dos ídolos e das fábulas dos deuses dos gentios, para deleite dos demônios. Ele desejava saciar-se dessa lavagem, queria encontrar nela algo sólido e reto, pertencente à vida bem-aventurada, mas não o podia, pelo que diz o evangelista: 'E ninguém lhe dava'." [1]

É quando já se encontra submisso a um principado dos demônios, alimentando o prazer do inferno, que o filho pródigo cai em si e se lembra de seu pai. Deus está sempre movendo interiormente o pecador a Si e chamando-o à conversão, mas sem que se encontre consigo mesma, nenhuma alma é capaz de responder-Lhe. Muitos pecadores não voltam para Deus porque estão hipnotizados por suas paixões desordenadas, que os impedem de perceber a divina brisa suave que os visita.

— Mas eu sou incapaz de sair dessa situação! — alguém pode indagar. É bem verdade que, por si mesmos, todos são incapazes de sair da miséria do pecado. Daí a necessidade da redenção e da salvação, que Cristo opera ativamente em nós. Na parábola do filho pródigo, essa intercessão acontece de modo invisível, mas, nas parábolas anteriores contadas pelo Senhor, há o pastor que sai à procura da ovelha perdida e a dona de casa que procura a moeda que perdeu. As duas figuras são imagens de Cristo e da Igreja, que correm atrás do pecador para trazer-lhe de volta à comunhão com Deus.

Em nossa vida, isso acontece de forma bem clara através do verbo interior que ecoa em nossa consciência, chamando-nos à conversão e à mudança de vida. Esse verbo, que fala aos corações dos maiores pecadores da face da terra, só pode ser ouvido por quem reduz os seus sentimentos ao silêncio. Ao falarmos com Deus, é preciso que abandonemos as vozes enganadoras da nossa carne e ouçamos a voz da fé: aquelas dizem que não prestamos, que não temos mais jeito, que seremos sempre escravos; esta, todavia, nos diz que Cristo morreu por nós, que podemos sim ser santos, que a Sua cruz nos libertou do mal de uma vez para sempre.

Se caímos na desgraça do pecado, levantemo-nos, pois, e procuremos o tribunal da reconciliação e da misericórdia de Deus. Embora estejamos chorando interiormente, há grande alegria no Céu por voltarmos definitivamente à Sua casa.

Referências

  1. Libri Quæstionum Evangeliorum, II, 33 (PL 35, 1344-1345). Cf. Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Lucam, XV, 3.
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