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Não é possível trilhar o caminho da santidade sem tomar de assalto a vida espiritual. Hoje, porém, as pessoas não sabem mais como crescer espiritualmente. Tornam-se, então, como que "anões espirituais", na expressão do Padre Reginald Garrigou-Lagrange [1].

Por isto, Nosso Senhor recorda que "o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam" (Mt 11, 12). Essa "violência" de que fala o Evangelho é um ato de esperança. A Regra de São Bento, ao falar sobre os monges obedientes, ensina: "Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: 'Estreito é o caminho que conduz à vida'" [2].

Antes, porém, de partir para a esperança, tudo começa pela virtude da . A pessoa inicia o seu caminho crendo, sobretudo, no amor de Deus por ela. Não se tratam de conceitos abstratos a serem aprendidos, mas, principalmente, de um acontecimento histórico, que é a encarnação, vida, paixão e morte do próprio Verbo divino. Ele, enquanto Deus, permanecia impassível, desde toda a eternidade, no Céu. Mas, para revelar a grandeza do Seu amor, fez-Se carne e sofreu pela humanidade.

Olhando, com o auxílio do Espírito Santo, para essa grande caridade com que foi amado, o ser humano procura amar a Deus de volta. Fazê-lo por conta própria, contudo, seria grande presunção, posto que há um abismo infinito entre a Divindade e as criaturas. Entra no conjunto, então, a virtude da esperança, cujo objeto é o Deus que ajuda o homem, dando-lhe os meios para manifestar a sua gratidão e chegar ao Céu. Não se trata – atente-se bem – de uma "certeza da salvação", como entendem os protestantes, mas de confiar que o Senhor dará a Sua graça ao homem para a sua salvação.

O amor que o homem devolve a Deus, por sua vez, não é um amor qualquer, mas a caridade, que é, na definição de Santo Tomás, uma "uma amizade do homem para com Deus" [3]. Não se trata simplesmente de amá-Lo – ainda que seja com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças (cf. Dt 6, 5) – mas de retribuir o Seu amor, que "dá a vida por seus amigos" (Jo 15, 13). A esperança é, pois, a atitude de quem "toma de assalto" a vontade de ser amigo de Deus e estar um dia na plenitude dessa amizade no Céu.

São Josemaría Escrivá, ao comentar o trecho de Mt 11, 12, escreve:

"Alguns comportam-se, ao longo da vida, como se o Senhor tivesse falado de entrega e de conduta reta somente àqueles a quem não custasse – não existem! – ou aos que não precisassem lutar. Esquecem que, para todos, Jesus disse: o Reino dos Céus arrebata-se com violência, com a luta santa de cada instante." [4]

Eis o santo do quotidiano a repetir as palavras de Cristo: é preciso fazer violência consigo mesmo. Ainda que não se queira suficientemente, importa querer querer. De forma bem prática, existem dois caminhos principais para tanto.

primeiro é a Confissão, entendida não como um "complexo de culpa", mas como um ato de amor. À semelhança do filho pródigo, o primeiro arrependimento do penitente é por atrição: vendo que passara a desejar a comida dos porcos, ele decide voltar para casa, disposto a ser tratado como um dos empregados de seu pai (cf. Lc 15, 17-19). No correr do caminho, porém, contemplando o grande amor com que foi amado, o penitente passa a ver os seus pecados como uma grande ingratidão a Deus; arrependendo-se, então, por amor, não mais por temor, chega à verdadeira contrição.

segundo é a Comunhão, aqui entendida como um entreter-se com Deus. Na Eucaristia, Ele quis dar-se como alimento a nós, para unir a Sua humanidade à nossa e dar-nos as graças atuais necessárias para crescermos espiritualmente. O que os místicos têm o tempo todo na própria alma, os demais fiéis podem experimentar quando recebem Jesus no Santíssimo Sacramento. Trata-se de uma oportunidade única de fazer aumentar a própria amizade com Deus.

É por essa amizade que os mártires cristãos preferem perder tudo. Os vinte e um cristãos coptas decapitados pelo Estado Islâmico há pouco mais de um mês, no norte da África, são um exemplo luminoso de caridade. Foi-lhes dada, por seus algozes, a escolha: bastava que negassem a Cristo e traíssem a sua fé, que poderiam voltar para casa, para as suas famílias, para o abraço dos seus filhos e o carinho de suas esposas. No entanto, eles permaneceram firmes, resistiram bravamente. Tendo o nome de Jesus nos lábios, foram todos mortos, um a um, até que as águas do Mediterrâneo ficassem vermelhas de sangue. Gloriosos mártires! Perderam tudo para não perder a amizade de Cristo.

O Reino dos céus é destes mártires cristãos, é dos que arrebatam a Pátria Celeste com violência – não a violência dos encapuzados que assassinam os outros, senão a dos que amam com fortaleza e amor sobrenatural.

Referências

  1. Cf. Las Tres Edades de la Vida Interior, I, 1, 15
  2. Regra de São Bento, V, 10-12
  3. Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1
  4. Sulco, n. 130

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