96. Ordenar homens casados: solução ou problema?

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Uma das características mais marcantes da Igreja Católica é que, geralmente, os seus sacerdotes são escolhidos apenas dentre "os candidatos que estão prontos a abraçar livremente o celibato". Mas o número insuficiente de sacerdotes tem levado muitos a propor a ordenação de homens casados como solução.

Neste programa, Padre Paulo Ricardo reflete sobre o tema do celibato clerical. O que podemos dizer desta disciplina da Igreja desde os pontos de vista teológico, espiritual, histórico e pastoral?


O celibato sacerdotal é uma realidade de origem apostólica. O Catecismo da Igreja Católica, ao falar dessa disciplina adotada pela Igreja latina, explica que “nas Igrejas orientais vigora, desde há séculos, uma disciplina diferente: enquanto os bispos são escolhidos unicamente entre os celibatários, homens casados podem ser ordenados diáconos e presbíteros" [1]. Ou seja, é a prática do celibato o que vem desde os tempos primitivos; as Igrejas orientais, depois, adotaram uma opção diferente.

Para um estudo histórico aprofundado dessa questão, as obras do Padre Christian Cochini e do Cardeal Alfons Stickler são muito importantes. Tratam-se de pesquisas cujas conclusões foram assumidas recentemente pelo Magistério da Igreja, de modo particular pelo “Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros", da Congregação para o Clero. A nova edição do documento, de 11 de fevereiro de 2013, dedica um longo e elaborado texto para a questão do celibato sacerdotal, fornecendo uma extensa bibliografia para a fundamentação histórica de sua origem apostólica [2].

De fato, foi o próprio Senhor quem instituiu o celibato dos padres. Quando ele diz que “todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna" [3], a quem ele refere, senão aos Apóstolos? São Pedro, por exemplo, era casado. Mas, após o seguimento de Cristo, ele confessa: “Olha! Nós deixamos tudo e te seguimos" [4]. No começo, realmente, a Igreja não ordenava apenas celibatários, como o apóstolo João; admitia à Ordem também homens casados, mas, depois que recebiam o sacramento, era costume que vivessem em continência.

Em uma resposta ao texto do jornalista Eugenio Scalfari, do jornal La Reppublica, que atribuiu ao Papa uma declaração inexata sobre a origem histórica do celibato, o cardeal alemão Walter Brandmüller, Presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, escreveu um ótimo texto, publicado no Instituto Humanitas [5], no qual confirma o fundamento antiquíssimo dessa disciplina da Igreja.

De lado a questão histórica, é importante propor respostas à campanha ensurdecedora que se têm feito contra o celibato dos padres, como se o relaxamento dessa disciplina fosse capaz de resolver todos os problemas hoje presentes no clero.

Reclama-se, por exemplo, da falta de vocações. Mas, será que a admissão de casados à Ordem resolveria essa questão? No Sínodo dos Bispos de 1990 – do qual saiu a exortação Pastores dabo vobis, do Papa João Paulo II –, quando se começou a debater o celibato, os prelados do Oriente, que têm entre si homens casados ordenados, foram os primeiros a manifestar-se contrários à sua abolição. Isso porque essa aparente solução só transfere os problemas para outro terreno. Na Igreja oriental, por exemplo, as dificuldades em prover o sustento à própria família obrigavam os padres casados a ter outra ocupação, o que os impossibilitava de se dedicarem plenamente ao sacerdócio. Isso sem falar dos problemas matrimoniais a ser resolvidos porque, se é verdade que a vivência do celibato é difícil, a da castidade matrimonial também o é.

Vale lembrar também que, hoje, não só faltam vocações para o sacerdócio, como também para o casamento, tal como foi concebido por Deus. Como bem notou o Papa Bento XVI:

“Num certo sentido, esta crítica permanente contra o celibato pode surpreender, num tempo em que está cada vez mais na moda não casar. Mas este não-casar é uma coisa total, fundamentalmente diversa do celibato, porque o não-casar se baseia na vontade de viver só para si mesmo, de não aceitar qualquer vínculo definitivo, de ter a vida em todos os momentos em plena autonomia, decidir em qualquer momento como fazer, o que tirar da vida; e portanto um 'não' ao vínculo, um 'não' à definitividade, um ter a vida só para si mesmos. Enquanto o celibato é precisamente o contrário: é um 'sim' definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, no seu 'eu', e portanto é um ato de fidelidade e de confiança, um ato que supõe também a fidelidade do matrimônio; é precisamente o contrário deste 'não', desta autonomia que não se quer comprometer, que não quer entrar num vínculo." [6]

É importante ressaltar, nesse sentido, a contribuição de São João Paulo II, com as suas catequeses sobre a Teologia do Corpo [7]. Antes de entrar no quinto ciclo de catequeses, sobre o sacramento do Matrimônio, o Santo Padre, no quarto ciclo, apresenta o celibato. Fá-lo cônscio de que a virgindade cristã lança uma luz extraordinária na realidade do casamento e que não se pode entender a união entre o homem e a mulher, de acordo com o projeto de Deus, se não se entende a entrega sacrifical da vida celibatária. É que a continência está intimamente associada à autodoação a Deus e ao próximo, realidade visível no Matrimônio.

Quem critica o celibato e pede o seu fim como solução para os problemas da Igreja não percebe que está contaminado por uma visão protestante de sacerdócio, na qual o pastor nada mais é que um “funcionário". Ora, quem é apenas um “empregado da comunidade" não precisa mesmo de celibato. Agora, se se está disposto a doar a própria vida, vivendo em função de Cristo, toda a existência da pessoa deve estar voltada para o sacrifício. Por isso, na Missa, quando um padre pronuncia as palavras da consagração: Hoc est enim Corpus meum, quod pro vobis tradetur, ele não só age in persona Christi, como mostra a sua configuração existencial a Nosso Senhor, que também era celibatário e se entregou pelos homens de modo admirável na Cruz.

Outro problema a que muito se faz referência é a pedofilia. Mas, é preciso entender que o celibato não é a sua causa. O número desses casos terríveis entre padres católicos é – infelizmente, deve-se dizer – estatisticamente igual ao de ministros protestantes casados. O grande defeito está na má formação sacerdotal que é recebida hoje em nossos seminários. A esse propósito, consta, no “Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros", uma lista de coisas que se deve ensinar nos seminários, para que o celibato seja vivido com fidelidade:

“Para guardar com amor o dom recebido, em um clima de exasperado permissivismo sexual, os sacerdotes recorram a todos aqueles meios naturais e sobrenaturais, dos quais a tradição da Igreja é rica. Por um lado, a fraternidade sacerdotal, o cuidado de ter bons relacionamentos com as pessoas, a ascese e o domínio de si mesmo, a mortificação; é também útil incentivar uma cultura da beleza nos vários campos da vida, que auxilie na luta diante de tudo aquilo que é degradante e nocivo, nutrir certa paixão pelo próprio ministério apostólico, aceitar serenamente certo tipo de solidão, uma sapiente e profícua gestão do tempo livre para que não se torne um tempo vazio. Por outro lado, são essenciais a comunhão com Cristo, uma forte piedade eucarística, a confissão frequente, a direção espiritual, os exercícios e os retiros espirituais, um espírito de aceitação das cruzes da vida cotidiana, a confiança e o amor à Igreja, a filial devoção à Bem-aventurada Virgem Maria e a consideração dos exemplos dos sacerdotes santos de todos os tempos." [8]

Alguns argumentam que, por causa dos escândalos, “o mundo já não compreende mais o celibato". Mas, na verdade, o mundo nunca entendeu essa disciplina da Igreja. O documento da Congregação para o Clero cita o exemplo do próprio Senhor, “o qual, indo contra aquela que se pode considerar a cultura dominante do seu tempo, escolheu livremente viver celibatário. Na sua sequela, os discípulos deixaram 'tudo' para realizar a missão que lhes foi confiada" [9]. De fato, eram muitas as acusações que os romanos pagãos faziam aos cristãos porque eles viviam a castidade.

Os padres do Concílio Vaticano II defenderam com veemência a manutenção do celibato sacerdotal – mesmo dizendo que não é exigido “pela própria natureza do sacerdócio", reconheceram que “o celibato harmoniza-se por muitos títulos" com ele [10]. E o Papa Paulo VI escreveu ainda a encíclica Sacerdotalis Caelibatus, reafirmando o valor dessa disciplina apostólica. Sim, é verdade, a questão do celibato continua sendo uma disciplina e, enquanto tal, pode ser mudada. Mas, sem dúvida, seria uma lastimável perda para a Igreja latina.

Recomendações

Referências bibliográficas

  1. Catecismo da Igreja Católica, 1580
  2. Cf. Congregação para o Clero, Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, 81, nota de rodapé 369
  3. Mt 19, 29; cf. Mc 10, 29; Lc 18, 29-30
  4. Mt 19, 27
  5. Francisco fala, Scalfari transcreve, Brandmüller suspende
  6. Vigília por ocasião da conclusão do Ano Sacerdotal, 10 de junho de 2010
  7. Teologia do Corpo – O amor humano no plano divino | Ecclesiae
  8. Diretório para o ministério e a vida dos presbíteros, 82
  9. Ibidem, 81
  10. Presbyterorum Ordinis, 16

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