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Quem foge da cruz é o diabo!

Existe algo de satânico em um cristão que pretende viver a sua fé sem o mistério da Cruz. Por isso, Padre Paulo Ricardo nos mostra nesta homilia como podemos acolher com alegria as cruzes que, para a nossa santificação, Deus amorosamente nos envia.

Texto do episódio
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Neste domingo, refletimos sobre a entrada de Jesus em Jerusalém, mas também ouvimos o relato da Paixão segundo São Mateus. Já que domingo que vem iremos refletir sobre a Ressurreição, a mensagem principal de hoje é exatamente a Paixão do Senhor, a vitória de Cristo na Cruz.

É importante lembrar-se disso. Algumas pessoas têm a impressão, aliás equivocada, de que celebrar a Paixão é celebrar uma derrota, como se só depois, na ressurreição, estaria a vitória. Não, isso está errado. Tanto a Paixão quanto a ressurreição são vitórias de Cristo. Por isso cantamos na Sexta-Feira Santa o hino “Vitória, tu reinarás! Ó cruz, tu nos salvarás”. É importante lembrar-se disso.

É quando Cristo morre na Cruz que se dá a vitória maior, apesar de invisível. Que vitória é essa? A vitória sobre Satanás e a morte eterna. Quando, três dias depois, Jesus ressuscitar, a vitória da Sexta-feira Santa irá manifestar-se aos nossos olhos. A Ressurreição é, pois, a manifestação, o sinal, o fulgor de uma vitória já conquistada.

Na Sexta-feira, acontece a vitória, embora só os olhos da fé sejam capazes de a enxergar. No domingo, também há vitória, agora fulgurante: Cristo aparece vitorioso. Nesse sentido, podemos dizer que a vitória de Jesus sobre a morte eterna, ou seja, sobre o inferno, manifesta-se em sua vitória sobre a morte física quando Ele sai do sepulcro no domingo de manhã. A ressurreição é o efeito visível da vitória da Sexta-Feira Santa.

É importante não separar uma verdade da outra. São os dois lados da mesma moeda. Afinal, há algo de satânico em querer viver um cristianismo sem cruz. Não é exagero dizer isso. Jesus mesmo o disse.

Quando ouviu a profissão de fé de São Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, Jesus exultou de alegria e fez-lhe um grande elogio: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne nem sangue que te revelou isso, mas o meu Pai que está no Céu. Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja”.

Logo em seguida, Jesus começa a explicitar a fé que Pedro acabara de professar, movido pelo Espírito Santo e por inspiração do Pai: Ele deverá subir para Jerusalém, a fim de sofrer por parte dos anciãos, dos sumos sacerdotes e escribas, ser morto e ao terceiro dia ressuscitar. Pedro então chamou Jesus de lado e começou a censurá-lo: “Que Deus não permita tal coisa, Senhor. Que isso nunca te aconteça”.

Jesus volta-se para Pedro e dirige-lhe agora um grande “xingamento”: “Vai para trás de mim, Satanás. Tu estás sendo para mim pedra de tropeço”. Antes, Pedro fora a pedra sobre a qual é edificada Igreja; agora, é pedra de tropeço, “pois não tens em mente as coisas de Deus”, ou seja, não ten os φρόνημα (phrónēma), a forma de pensar de Deus, “mas a dos homens”. 

Professar a fé em Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo, mas rejeitar a fé em Cristo crucificado é satânico. Jesus mesmo o diz: “Afasta-te de mim, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus”.

Sim, Jesus disse a Pedro que a fé lhe fora inspirada pelo Pai do Céu, não pela carne nem pelo sangue; mas o mesmo Jesus disse que Pedro, inspirado pela carne e pelo sangue, isto é, por pensamentos humanos, se tornou presa de Satanás, cujos pensamentos são contrários aos de Deus.

Queremos seguir Jesus ressuscitado, mas não queremos segui-lo crucificado. Eis um absurdo tão grande que equivale a negar a vitória de Deus para entregá-la ao Inferno. Ora, o que Satanás mais deseja são cristãos sem cruz, que pensem como pensou por um momento o Apóstolo Pedro: “Que isso não aconteça, não! Que isso! Cruz credo!… Renuncio e renego. Não quero saber de cruz. Não quero saber de sofrimento”.

Ao contrário, iniciemos corajosamente a Semana Santa, vivendo de verdade a Paixão de Nosso Senhor. Não é um convite meu, é uma ordem de Deus Filho: “Quem me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz dia após dia e siga-me”.

Todos somos chamados a viver o que viveu Simão Cirineu. No próprio Evangelho que proclamamos, o da Paixão de Cristo segundo São Mateus, lemos: “Quando saíram, encontraram um homem chamado Simão, da cidade de Cirene, e o obrigaram a carregar a cruz de Jesus”.

O Cirineu foi obrigado a carregar a Cruz, enquanto nós somos chamados a carregá-la espontaneamente. É Jesus quem se volta para nós e diz: “Você vai me ajudar? Você quer carregar a cruz? Quem me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome a cruz e siga-me”. Ora, quando Jesus me convida a carregar a cruz, estou sendo agraciado. Sim, é isso mesmo. A cruz é uma bênção.

Não há Cristo sem cruz; logo, se a cruz nos visita, vem sempre acompanhada de Jesus. Nas cruzes da vida, Ele está sempre presente, manifestando o seu amor por nós.

A cruz nos está visitando? Eis a prova de que Jesus nos ama. Por quê? Porque Ele nos está escolhendo para reproduzir em nós seu próprio rosto. O Jesus a quem amamos estará em nossos corações porque seremos modelados. Por ora, somos como barro nas mãos dele, portanto não murmuremos. Não há vitória sem cruz.

Todos temos uma cruz com que nos purificar. A cruz nos humilha, mas para a nossa salvação e para a dos nossos irmãos. Poderíamos dizer que Jesus carregou a cruz dois mil anos atrás, mas que continua em agonia até o fim dos tempos. Por quê? Porque nós, membros do seu Corpo, continuamos a ser crucificados, de modo que a vitória de Cristo se prolonga pelos séculos.

Quando Deus triunfa em nossos corações, quando permite que sejamos crucificados e o egoísmo, destruído, Jesus torna a vencer. Ele nos prepara para a felicidade eterna, mas sob a condição de que o pecado e morte eterna sejam destruídos dentro de nós.

Quer conhecer a si mesmo? Quer conhecer quem são de verdade as pessoas de sua família, seus colegas de trabalho, seus irmãos de Igreja? Então conheça a cruz que elas estão carregando. É nisso que se manifesta quem nós somos de verdade, desde que possamos dizer, a exemplo de São Paulo: “Vivo, mas não eu; é Cristo quem vive em mim”. Nisso radica a perfeição humana, assim floresce uma personalidade madura.

Nosso pleno desenvolvimento depende do nosso grau de dependência de Deus: quanto mais dependentes dele, mais livres nos tornamos; quanto mais desaparecemos, dando lugar à personalidade de Jesus, mais somos nós mesmos.

Sim, é verdade, a gente esperneia. Todos esperneamos, assim como Pedro, que não aprendeu logo a lição, mesmo depois de Jesus o chamar de Satanás. Vemos na narrativa da Paixão, finda a Última Ceia, Pedro fazer juras ao Senhor: “Senhor, eu irei contigo até a morte”, e todos os outros a repeti-lo.

Aliás, o evangelho de Mateus nota essa peculiaridade. Não foi somente Pedro quem disse: “Senhor, eu irei contigo até a morte”, mas todos os discípulos, portanto nós também. Se Jesus nos perguntasse então se estaríamos dispostos a morrer por Ele, certamente faríamos a mesma bravata de Pedro: “Eu vou contigo até a morte!”

E para quê? Para logo em seguida, diante de uma simples empregada do sumo sacerdote, encher-se de medo? Sim, São Pedro tremeu diante de uma empregada, de avental e com a colher na mão: “Eu não conheço esse homem”!

Neste domingo da Paixão, somos chamados a bater no peito e a reconhecer o nosso pecado, as vezes que negamos Jesus, que rejeitamos a cruz, que nos comportamos como traidores de Cristo e seguidores de uma lógica satânica: “Senhor, perdão”. Imitemos a Pedro, que ao fim e ao cabo saiu do palácio de Caifás e, na escuridão da noite, flevit amare, — “chorou amargamente”.

O Padre Antônio Vieira, comentando a passagem, nota com muita argúcia o seguinte:

Notável filosofia é a dos nossos olhos no chorar e não chorar. Se choramos, o nosso ver foi a causa, e se não choramos, o nosso ver é o impedimento. Como estes nossos olhos são as portas do ver e do chorar, encontram-se nestas portas as lágrimas com as vistas: as vistas para entrar, as lágrimas para sair. E porque as lágrimas são mais grossas, e as vistas mais sutis, entram de tropel as vistas, e não podem sair as lágrimas (Sermão das Lágrimas de S. Pedro [Segunda-feira Santa de 1669], §5).

Os olhos servem para enxergar e para chorar. Quando se enxerga, não se chora, e quando se chora, não se enxerga. Quando se chora, fica a vista embaçada para as coisas de fora, é por isso que, chorando, somos capazes de olhar mais para dentro. Quando choramos os nossos pecados, não vemos bem o que está ao nosso redor, mas vemos com mais clareza o que trazemos dentro de nós.

Peça a Deus a graça de chorar os seus pecados e, como Pedro, de se arrepender das vezes em que se comportou com lógica satânica, rejeitando a Cruz de Jesus. Não se trata de pedir cruzes. Trata-se de pedir a Deus a graça de amar a cruz que Ele mesmo nos quer dar.

Peça isso a Nossa Senhora, que no caminho do Calvário se encontrou com Jesus cambaleante. Dirijamo-nos a ela, dizendo: “Mãe santa e bondosa, assim como correstes ao encontro de Cristo para o ajudar a erguer-se do chão, dai-me a graça e a força de abraçar a cruz que Deus me preparou desde toda a eternidade” .

Assim estaremos caminhando com Cristo para a vitória e para o triunfo porque, se com Ele morremos, com Ele viveremos.

Essa é a fé cristã. Ora, quando se tem fé verdadeiramente católica, tem-se uma fé integral, que não escolhe, mas abraça todo o conteúdo da revelação feita aos Apóstolos e que eles transmitiram. Herege é justamente o que escolhe em que vai crer.

Não escolha! Abrace a Cristo inteiro, antes da cruz, com ela e depois dela — o Christus totus, e isso em vários sentidos, inclusive no sentido de que nós fazemos parte de Cristo. Somos o Corpo dele, e assim como Ele morreu para então ressuscitar, também nós precisamos morrer para ressuscitar com Ele.

Sem cairmos na bravata dos Apóstolos, que disseram: “Vamos também nós morrer com Ele”, e depois fugiram acovardados, peçamos a Nossa Senhora a graça de abraçar a cruz que Deus tem reservada para nós.

Não queiramos inventar novas cruzes; mas quando a cruz enfim nos visitar, saibamo-nos abençoados por Cristo, que quer burilar em nós sua imagem e semelhança. Que beleza ver nos que sofrem com amor o rosto de Cristo, encarnado ainda hoje na história!

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