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Conheça os sacramentos da Igreja com o Padre Paulo Ricardo

Texto do episódio
1654

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 4, 35-41)

Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele. Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” 



No Evangelho deste 12º Domingo do Tempo Comum, São Marcos relata um grande milagre operado por Nosso Senhor. Jesus convidou os seus Apóstolos para, com Ele, atravessarem de barco o lago da Galileia; e, durante a viagem, Cristo decidiu dormir, apoiado sobre um travesseiro na popa da embarcação. Porém, desencadeou-se uma grande tempestade, que quase fez o barco naufragar. Desesperados, os Apóstolos acordaram Jesus; e então o milagre aconteceu: Nosso Senhor ordenou que a tempestade cessasse. Mas agora, com a calmaria, os Apóstolos tiveram medo do próprio Jesus, porque eles ainda não haviam entendido quem era Ele. 

É necessário contextualizar essa passagem primeiramente em relação ao sentido literal, que é a base para todas as nossas reflexões. Jesus está tentando responder à pergunta que está no coração dos seus discípulos: “Quem é este?”. No Evangelho, essa indagação só será respondida — e mesmo assim de forma incompleta — na profissão de fé de São Pedro, quando ele diz: “Tu és o Cristo” (Mt 16, 16). 

Mas essa é uma profissão de fé incipiente, por assim dizer; porque nós vemos que São Pedro não sabe o que diz. E a prova disso é o fato de que, quando Nosso Senhor diz que irá a Jerusalém para morrer na Cruz, São Pedro, ignorante quanto ao mistério do sacrifício de Cristo, repreende Nosso Senhor. A declaração completa sobre quem é Jesus vem somente aos pés da Cruz, depois da morte de Cristo, quando o centurião romano declara: “Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus” (Mc 15, 39). 

Assim, São Marcos apresenta-nos uma pequena saga até a revelação integral da natureza de Jesus. E no final, descobrimos que Ele não é somente um homem; mas o próprio Deus que se fez homem. A verdade é que até o capítulo 4 do Evangelho de São Marcos, nós ainda não sabemos plenamente quem é Jesus. Tudo o que nos é mostrado é que Ele é um homem extraordinário; inclusive chamado de “Mestre” pelos seus discípulos. Contudo, Ele é um mestre misterioso, cuja natureza ainda não foi compreendida plenamente por seus seguidores. Estes o seguem, sabem que Ele é alguém especial; mas Jesus ainda é visto como um mestre, um rabi que apenas ensina.

Não nos cabe aqui o mérito da discussão a fim de descobrir se, de fato, esse episódio da calmaria miraculosa da tempestade aconteceu, ou se ele é meramente uma construção simbólica de São Marcos — inspirado pelo Espírito Santo, obviamente — com o propósito de nos ensinar algo de mais profundo. Contudo, para nós que temos fé, dispensamos as provas científicas, pois sabemos que Ele tinha — e tem — poder para acalmar quaisquer tempestades. 

Atualmente, há muitos cientistas e exegetas — especialistas em interpretação de textos — que estudam a Bíblia com o objetivo de provar que Nosso Senhor, por exemplo, não teria acalmado a tempestade. Mas esses estudiosos só provam o quanto é difícil para o homem do século XXI crer em milagres, crer que Deus interfere nos elementos do cosmos. Porém, para nós cristãos, essa é uma dificuldade inconsistente. Isso porque, se Jesus não tivesse poder para fazer a tempestade cessar, Ele também não tinha poder para ressuscitar dentre os mortos. Ora, se Ele podia o mais, Ele podia o menos: se Nosso Senhor pôde ressuscitar no terceiro dia depois da sua morte na Cruz, por que não poderia acalmar uma tempestade? 

Nós cremos que o episódio narrado no Evangelho de hoje aconteceu de fato, mas sabemos que a Igreja não se detém somente no significado literal das Sagradas Escrituras. Em sua sabedoria, a Igreja sempre quer ler também um significado espiritual. Ainda que o verdadeiro sentido das palavras contidas na Bíblia esteja baseado na literalidade, ele deve transcendê-la, deve falar muito mais, deve ser muito mais — mostrando-nos as entrelinhas na própria realidade. 

Desse modo, para fazer uma leitura espiritual do Evangelho de hoje, nós tomamos como guia uma passagem de São Beda, o Venerável, contida na Catena Áurea. São Beda comenta essa passagem de forma bastante rica, vendo claramente no barco uma figura da Cruz de Cristo. Beda explica que o barco, “navicula”, é a árvore da Paixão, “passionis arbor”, a própria Cruz na qual Nosso Senhor foi sacrificado [1]. 

E tal interpretação é bastante coerente. Tradicionalmente, os Santos Padres, por exemplo, interpretam a Arca de Noé também como a Cruz de Cristo, a frágil peça de madeira sobre a qual nós subimos a fim de atravessar o tempestuoso mar desta vida. Desse modo, nós que temos fé na Cruz, subimos nesta barca. Isso significa que, apesar de tantas tribulações, temos de subir com Cristo, possuindo esta fé. E quanto a Nosso Senhor? Ora, Ele está na popa do barco — símbolo da Igreja —, no lugar do timoneiro, daquele que controla e conduz a embarcação. 

E nesse ponto chegamos ao grande mistério: por que Cristo parece dormir? Nós entramos no barco, pois cremos na Cruz e na vitória de Nosso Senhor sobre a morte; assim começamos a fazer parte da Igreja, a barca de São Pedro. Na imagem apresentada no Evangelho, Cristo dorme tendo a cabeça repousada sobre um travesseiro. Aqui, os Santos Padres vêem o símbolo da divindade de Nosso Senhor, o Verbo eterno que repousa sobre a humanidade de Cristo — simbolizada pelo travesseiro. Assim, ao ver Jesus dormir, contemplamos a morte de sua humanidade, na Cruz. E é essa a imagem que nos é apresentada: Nosso Senhor morto e os Apóstolos sendo atacados. E o que os ataca? Como nós, dentro da Igreja, podemos ser atacados? A resposta é dada por São Beda: 

[Nós] marcados com o sinal da Cruz do Senhor, dispusemo-nos a deixar o mundo, enquanto, na barca com Cristo, esforçamo-nos para atravessar o mar. Mas, enquanto navegamos, no meio do rugido do mar, Jesus dorme. Quando, em meio aos esforços de nossas virtudes, a chama do amor arrefece [2]. 

Ou seja, nosso amor por Nosso Senhor diminui, o que nos deixa vulneráveis aos ataques dos inimigos da fé. Quando nos convertemos, entramos na Igreja com entusiasmo; estamos sempre com grande fé, com grande amor. No entanto, o fato é que Ele quer ver nosso amor crescer. E isso só acontece por meio da prática das virtudes. Eis o motivo pelo qual Jesus permite que passemos por dificuldades: Ele quer que cresçamos nas virtudes. 

Porém, frequentemente a tribulação faz com que essa chama do amor diminua, isto é, arrefeça. E quais são as tribulações, os ataques que sofremos por amor a Jesus no transcurso da viagem? São Beda explica que são três: “A chama do amor arrefece, seja pelo ataque dos espíritos maus, seja dos homens depravados, seja de nossos próprios pensamentos” [3]. 

São os três inimigos que nós já conhecemos. O primeiro dos nossos inimigos é o diabo, com suas sugestões. Diante das dificuldades que surgem em nossa vida, Satanás nos afronta, lançando-nos a pergunta: “Onde está teu Deus?”. Atualmente, ao ver os desafios próprios da crise da Igreja, podemos nos perguntar o porquê de Nosso Senhor simplesmente não aparecer e ordenar à tempestade atual que cesse? Satanás nos tenta com o mesmo questionamento outrora feito ao salmista: “Ubi est Deus tuus”, “Onde está o teu Deus?”.

Mas nós somos atacados também pelos homens depravados, que representam o mundo, grande sedutor da Igreja, daqueles que estão na barca. É verdade que o cristão, em algum momento de sua vida, tem de decidir: seguirá o mundo ou obedecerá a Deus? Ele será aplaudido pelo mundo ou agradará a Deus? Ao observarmos a vida dos santos, vemos que estavam constantemente preocupados em agradar a Deus. Ademais, quando a Igreja começa a ser exageradamente aplaudida pelo mundo, é sinal claro de que ela pode ter cedido às tentações e seduções do mundo. Sabemos que a verdadeira Igreja de Cristo não cede jamais, mas, sim, os membros da Igreja, que são frágeis. Afinal, os próprios Apóstolos cederam. 

Voltando à narrativa de São Marcos, vemos que Nosso Senhor tem os Doze Apóstolos consigo no barco. São João Crisóstomo, um dos Santos Padres comentaristas, diz que Nosso Senhor pediu para que eles fossem para alto-mar a fim de provar a fé deles. Jesus quis que tudo aquilo acontecesse longe da praia, de modo que as pessoas não fossem testemunhas da vergonha que os Apóstolos viveriam. A verdade é que eles ainda não estavam prontos — e Cristo sabia disso. 

No entanto, Nosso Senhor queria provar a fé daqueles homens que estavam com Ele no barco. Vemos que o demônio e o mundo atacam os Apóstolos. Simbolicamente, o demônio é representado pelo vento, porque é um elemento invisível, espiritual; e o mundo é representado pelo mar, com suas ondas encapeladas. Temos aqui dois elementos que nos atacam desde fora. Porém, o mundo e o diabo não são os nossos maiores inimigos. 

De fato, o maior dos inimigos que nós, cristãos, temos de enfrentar somos nós mesmos. São Beda diz, claramente, que “a chama do amor arrefece também por causa dos nossos próprios pensamentos”, isto é, nosso maior inimigo é a carne. E o que é a carne? Não tem nada a ver com o nosso corpo, mas refere-se ao homem marcado pela fragilidade do pecado, pela falta de virtude e, em suma, pela pouca fé. É uma fé fraca e vacilante, pois ainda não confiou inteiramente nas palavras de Cristo. 

Assim, o maior inimigo da Igreja também é a nossa maior tragédia. Satanás não nos tenta acima de nossas forças; o mundo pode nos matar, como matou tantos santos mártires ao longo da história da Igreja; mas a nossa pouca fé pode nos levar para a perdição. E essa é também a nossa miséria de não crermos na promessa de Cristo: “O mundo, como odiou a mim, vai odiar também a vós” (Jo 15, 18); “Mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Esta é a promessa na qual a Igreja crê. 

Mas, à nossa volta nós não vemos isso, não vemos a vitória de Cristo. É evidente que, dada a conjuntura do mundo em que vivemos, não haveríamos mesmo de ver sinais da vitória de Nosso Senhor. O que vemos é o naufrágio, a água entrando no barco da Igreja. Porém, é precisamente nesse momento de angústia que temos de crer naquilo que ouvimos dele, na promessa “fides ex auditu”. É a fé que vem pelo ouvir. Vemos no Evangelho, os Apóstolos surpresos, porque até o vento e o mar ouviram Jesus. Assim, se até as forças da natureza ouvem Nosso Senhor, por que nós não o ouvimos também? Temos aqui a grande tragédia do Evangelho deste domingo. Cristo levanta-se no meio do barco e ordena à tempestade que se cale; assim, para que haja silêncio verdadeiro em nossas vidas, é preciso que a Palavra do Senhor seja ouvida.

Se nós queremos silenciar o mundo que nos seduz, levando-nos às coisas erradas, devemos ouvir a Palavra de Cristo. Mas como podemos silenciar o mundo, se ouvimos constantemente toda sorte de misérias? A verdade é que temos de calar essas misérias que gritam dentro de nós, que são os nossos pensamentos. Temos de remar, temos de cultivar uma vida virtuosa e confiar no Senhor. Ele nunca nos abandona. 

Desse modo, depois de apresentar os três inimigos que açoitam o barquinho, São Beda conclui: “Mas, se no meio destas tempestades nós nos apressarmos a acordá-lo, Ele logo acalmará a tempestade, restaurará a tranquilidade e nos concederá o porto da salvação” [4]. Então, em meio à tempestade, nós temos de rezar, temos de pedir misericórdia a Deus — mas não de forma incrédula, como os Apóstolos fizeram. Eles estavam no início da fé, no início da história da Igreja; e nós, que temos dois mil anos do Magistério da Igreja a nos indicar o caminho? Por que ainda ficamos tão agitados quando vemos escândalos e tribulações na Igreja de Cristo? 

Não devemos nos desesperar quando vemos a água entrando no barquinho da Igreja, pois essa embarcação pertence a Ele. Nosso maior inimigo não é o vento de Satanás ou as ondas do mundo, mas sim a nossa falta de fé, é a carne que grita dentro de nós. A verdade é que nós gostaríamos de ensinar a Deus como conduzir a Igreja, porque não temos fé. Essa é a nossa miséria. Porém sabemos que a Igreja é dele, e Ele prova a nossa fé. 

Por fim, aprendemos com os grandes místicos da Igreja que passamos por provações porque Deus quer nos fazer desenvolver uma fé pura; Ele quer purificar a nossa fé. E é essa fé por meio da qual nós podemos chegar à salvação, como diz São Paulo na Carta aos Romanos: “O justo viverá pela fé” (Rm 1, 17). São João da Cruz, por exemplo, insistiu para que não ficássemos escorados em consolações externas, em provas externas; nós só precisamos crer. Isso porque Nosso Senhor está conosco na barca, e Ele já venceu essa tempestade que nos assola.

Notas

  1. Tomás de Aquino, Catena in Marc., c. 4, l. 5: “Beda.—Vel navicula quam ascendit passionis arbor intelligitur, per quam fideles ad securitatem securi littoris perveniunt”.
  2. Ibidem, c. 4, l. 5: “Et nos quoque [...] cum signo dominicae passionis crucis imbuti saeculum relinquere disponimus, navim profecto cum Iesu conscendimus, mare transire conamur. Sed [...] nobis saepe navigantibus quasi inter aequoris gremitus [Iesus] obdormit quando, crebrescente inter medios virtutum nisus, vel immundorum spirituum vel hominum pravorum vel cogitationum nostrarum impetu, [...] amoris flamma refrigescit”.  
  3. Ibidem, c. 4, l. 5[...] vel immundorum spirituum vel hominum pravorum vel cogitationum nostrarum impetu, [...] amoris flamma refrigescit.”
  4. Ibidem, c. 4, l. 5: “Verum inter huiusmodi procellas ad illum necesse est [...] curramus, illum sedulo excitemus qui [...] imperet ventis. Mox tempestates compescet, refundet tranquillitatem, portum salutis indulgebit”.

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