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Unidos a Deus como prata ao ouro

“Limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.

Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 11,37-41)

Naquele tempo, enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. O Senhor disse ao fariseu: “Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.

No Evangelho de hoje, Jesus entra em conflito com os fariseus por causa de rituais de purificação. Jesus então conclui o Evangelho, dizendo assim: “Insensatos! Antes, dai esmola do que vós possuís, e tudo ficará puro para vós”. Qual é o significado desta frase de Jesus? Bom, em primeiro lugar, vamos entender o que é a pureza.

Vamos olhar, por exemplo, os metais, como a prata. Quando você diz que a prata é pura? A prata é pura, se ela não estiver misturada com metais inferiores, metais de menor valor. Por exemplo, se houver ferro no meio da prata, ela não é pura; mas e se acontecer, por exemplo, de você misturar a prata com o ouro? Você não diz por isso que ela está impura. Por quê? Porque, é claro, ela está misturada com um metal superior que a tornou ainda mais valiosa. Então, é isso o que acontece com o nosso coração.

Ora, o que torna o homem puro? O que torna o homem puro é exatamente o contato com Deus, com a caridade divina. Quando o Espírito Santo é derramado em nossos corações, ele faz com que nós não sejamos puramente homens — meramente homens, simplesmente humanos —, mas comecemos a ser seres humanos que vivem a vida divina. Você vai dizer: “Mas isso não é pureza”. Sim, não é pureza, no sentido de que é meramente humano; mas é pureza, no sentido de que nós estamos “misturados” com um “metal superior”: nós estamos misturados com a vida divina, então, sim, somos verdadeiramente purificados.

No Evangelho de hoje, nós vemos o esforço infeliz e malsucedido dos fariseus de quererem se purificar com as próprias obras, ou seja, com a própria obediência e observância aos menores preceitos, como se o homem pudesse produzir sua própria salvação e pudesse, assim, se purificar de seus pecados.

Mas isso não é possível. Só existe um caminho: que o Espírito Santo, derramado em nossos corações, nos dê a verdadeira caridade, o verdadeiro amor divino, então o nosso amor humano, “misturado” com o amor divino, será puro, de uma pureza superior, algo verdadeiramente agraciado e sobrenatural. Jesus, vendo que os fariseus cumpriam pequenas normas, mas deixavam de lado a verdadeira caridade divina, lhes chama a atenção, por isso conclui esse Evangelho, dando como exemplo o preceito da esmola. A esmola que os fariseus deveriam dar e “tudo ficará puro” é como dizer: “Desapegai-vos de vós mesmos, enchei-vos da caridade divina”. Então, sim, seremos puros porque poderemos realizar proezas. Deus quer isso de nós.

Deus quer que nós vivamos, já aqui nesta vida, a união com Ele; mas nós, pobres homens miseráveis, precisamos de uma intervenção cirúrgica, precisamos que Deus arranque de nós o nosso coração de pedra e nos dê um coração novo, e esse coração novo vem por meio de Jesus. Jesus é o coração que tinha sido prometido no Antigo Testamento aos profetas: “Dar-vos-ei um novo coração” (cf. Ez 36,26). Jesus é o coração plenamente humano em que Deus habita, e o Espírito Santo faz o coração do Filho de Deus que se fez homem ter chamas de amor divino! Eis aí o coração puro, coração abrasado de amor e de caridade divina.

Que Nosso Senhor nos ilumine para que nós não tenhamos ilusões nem queiramos nos salvar com nossos próprios méritos e nossas próprias ações. É pela caridade recebida de Deus no Espírito Santo que nós realizaremos, sim, méritos e proezas, porque não seremos nós que estaremos agindo, mas Cristo que vive em nós.

* * *

V. 37. Enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. — a) “Enquanto falava”, i.e., enquanto, certa feita, estava a ensinar o povo com discursos e sermões. Assim o interpretam Agostinho (cf. De consen. evangel. II 39) e Beda, para os quais Lucas não guarda neste ponto a ordem cronológica, mas une no tempo coisas ocorridas em momentos diversos. Maldonado, pelo contrário, seguindo a opinião de Eutímio, julga que a cena aqui narrada aconteceu no mesmo lugar e no mesmo tempo que as anteriores, i.e., após a expulsão do demônio mudo (cf. 11,14), do sermão em defesa de sua autoridade divina (cf. 11,15-26) e das críticas à incredulidade de sua geração (cf. 11,26-36). Nesse sentido, teria o evangelista escrito: “Enquanto falava”, a fim de indicar ao leitor em que ocasião Jesus foi convidado e explicitar, por antecipação (cf. v. 53s), com que ânimo o convidara para jantar um dos fariseus. — b) “Convidou-o”, portanto, não com reta intenção, mas por simulação, ou seja, a fim de o observar e buscar algum motivo para o acusar. — c) “Jesus entrou e pôs-se à mesa”, i.e., apenas entrou em casa, sentou-se à mesa sem ter lavado as mãos antes, contrariamente às cerimônias observadas pelos fariseus. É a razão do que se diz no v. seguinte.

V. 38. O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. — a) “O fariseu ficou admirado”, por ver Jesus sentar-se sem lavar as mãos, conforme o costume, ficou escandalizado. Todos os judeus, com efeito, e especialmente os fariseus, costumavam fazer uma série de abluções antes e durante as refeições, como se vê nos evangelhos de Marcos (cf. 7,4) e João (cf. 2 6). Os fariseus, no entanto, punham sua santidade e pureza nesta cerimônias de purificação, embora trouxessem em si mesmos um coração impuro e maculado. — b) “Jesus não tinha lavado as mãos antes da refeição”. Acrescenta Maldonado não ser improvável que Jesus tenha agido assim de indústria, para ter ocasião de ensinar, a partir de um escândalo farisaico, quão vãos e supersticiosos eram a doutrina e o costume dos fariseus, que, negligenciado a pureza da alma, punham toda a religião e santidade em lavar e purificar o corpo.

V. 39. O Senhor disse ao fariseu: Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. — a) “O Senhor”, vendo por sua ciência tanto divina quanto infusa os pensamentos do outro, “disse ao fariseu”, cuja admiração não parece ter-se manifestado exteriormente. — b) “Vós fariseus”, repreende Ele na pessoa de um só o pecado comum a todos, “limpais o copo e o prato por fora”, i.e., o que é visível e exterior, “mas o vosso interior”, onde está a vossa consciência e a vossa real figura, “está cheio de roubos e maldade”. Com a mesma imagem condena o Senhor, em Mt 23,25, a hipocrisia dos fariseus e sinedritas. Nota Maldonado que a partícula ‘nunc’, que encabeça este v. no texto em latim, tem força adversativa, de modo que o sentido da frase seria: “Se vós limpásseis o que é de dentro como limpais o que é de fora, não haveria de repreender-se o vosso costume; mas (lt. nunc) como limpais diligentemente o que é de fora, enquanto o que é de dentro está cheio de rapina e dolo, sois insensatos e hipócritas” (cf. v. 40).

V. 40. Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? — Assim os improba Cristo, comenta o venerável Beda, “como se dissesse: ‘O que fez as duas naturezas do homem”, i.e., o corpo e a alma, “deseja que as duas estejam puras’. Isto é contra os maniqueus, que afirmavam ser a alma criatura de Deus, o corpo porém do diabo. Isto também é contra os que abominam como mais graves os pecados corporais, como a fornicação, o furto e outros, mas desprezam como de pouca monta os espirituais, igualmente condenados pelo Apóstolo” (apud Santo Tomás de Aquino, Catena in Lucam, c. 11, l. 11).

V. 41. Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós. — a) “Do que possuís”. Quanto a essa expressão (lt. ‘quod superest’), os intérpretes latinos se dividem em três posições: 1.ª alguns, como Liriano, pensam que ela se refere à restituição dos roubos mencionados por Cristo no v. precedente; 2.ª outros, como Beda, pensam que se refere aos bens em geral dos fariseus; 3.ª outros enfim, como Boaventura, pensam que a construção em latim significa, na verdade, ‘o que vos resta’, de maneira que o sentido do v. seria: “O único remédio que vos resta é dar esmolas”. No texto grego, observa Maldonado, a expressão ‘τὰ ἐνόντα’ parece fazer as vezes de ‘κατὰ τὰ ἐνόντα’ (lt. pro facultatibus vestris = ‘cada um segundo suas possibilidades’), de maneira que o sentido genuíno da passagem seria: “Antes, dê esmola cada um de vós quanto lhe for possível”. Para uma exposição detalhada destas e de outras interpretações, leia-se h.l. o comentário de Cornélio a Lapide.

b) “Tudo ficará puro para vós”. Repreendeu Cristo aos fariseus por limparem o corpo, mas negligenciaram a alma; por isso ensina que, se derem esmola, tudo (i.e., o corpo e alma, o que é exterior e o interior), ficará puro. — Dubium: Poder-se-ia perguntar como é possível que a esmola purifique a alma, coisa que não pode dar-se senão pela remissão dos pecados. Dizem Beda e Boaventura, comentando este ponto, que a esmola perdoa os pecados no sentido de dispor ao perdão deles. É o que ensina a Escritura, ao falar da esmola: Resgata teu pecado pela justiça (Dn 4,24); Tua caridade para com teu pai não será esquecida (Eclo 3,15); A esmola livra do pecado e da morte (Tb 4,11); A esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna (Tb 12,9) [1].

Nota sobre a purificação do homem.Tudo para vós será puro. “A impureza de cada coisa consiste em estar misturado com coisas mais vis”, i.e., de natureza inferior. “Com efeito, não se diz que a prata é impura por estar misturada com ouro, pelo qual se torna mais nobre, mas por estar misturada com chumbo ou estanho”, por exemplo. “Pois bem, é evidente que a criatura racional é mais digna do que todas as coisas temporais e as criaturas corporais. E por isso torna-se impura ao sujeitar-se a coisas temporais por amor” a elas. “Ora, desta impureza ela é purificada pelo movimento contrário, a saber: enquanto tende àquilo que está acima de si, ou seja, a Deus. Neste movimento, o primeiro princípio é a fé, como se diz em Hb 11,6: Para se achegar a Ele é necessário que se creia primeiro. E por isso o princípio da purificação do coração é a fé, a qual, se for aperfeiçoada pela caridade formada, causa uma perfeita purificação” (Santo Tomás de Aquino, STh II-II 7, 2c.) [2].

Notas

  1. J. de Maldonado, Commentarii in Quattuor Evangelistas. 3.ª ed., Monguntiar, sumptibus F. Kirchhemii, 1863, vol. 2, p. 231B.
  2. Não se perca de vista que é diferente a purificação causada pela fé em função dos diferentes estados em que se pode encontrar a mesma fé. Assim, a) a fé meramente informe, i.e., separada da caridade, purifica a mente ou o intelecto dos erros, já que preserva sua razão formal, pela qual adere à Verdade primeira, mas não dos afetos impuros do pecado; b) a fé formada, por sua vez, causa, em virtude da caridade sobrenatural, a perfeita purificação do coração, como ensinam a Escritura: A caridade, porém, supre todas as faltas (Pr 10,12) e o Magistério da Igreja: “Pois a fé, se a ela não se acrescentam a esperança e a caridade, não une perfeitamente a Cristo nem produz um membro vivo do seu Corpo” (Concílio de Trento, Sessão 6.ª, de 13 jan. 1547, “Decreto sobre a justificação”, cap. 7: DH 1531). — Leia-se a propósito o texto Se a purificação do coração é efeito da fé, na Homilia Dominical de 2 out. 2022.
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