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A legislação atual para o Ocidente com relação ao sinal da cruz está contida no Cerimonial dos Bispos. Na nota n. 81 ao §108, lê-se uma citação do antigo ritual romano para a celebração da Santa Missa, que diz: 

Ao benzer-se, [o sacerdote] volta para si a palma da mão direita com todos os dedos juntos e estendidos, faz o sinal da cruz da fronte ao peito e do ombro esquerdo ao direito. Quando abençoa os outros ou benze outras coisas, volta o dedo mínimo para aquilo que abençoa e, ao abençoar, estende a mão direita mantendo os dedos juntos e unidos.

Mas nem sempre foi assim. É evidente que a legislação atual deve ser seguida, principalmente quando se trata de matéria litúrgica. Não se pode negar, contudo, que existam outras práticas devocionais oriundas de ritos diversos. Convém, portanto, ir às origens do tema.

Há grande probabilidade de o sinal da cruz ser de origem apostólica. S. Basílio de Cesareia diz, no seu tratado sobre o Espírito Santo, que existem várias tradições recebidas dos Apóstolos que não estão consignadas na S. Escritura, e conclui: “Para relembrar o que vem primeiro e é mais comum: quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal da cruz aqueles que esperam em Nosso Senhor Jesus Cristo?” Em outras palavras, já no séc. IV se considerava o sinal da cruz como de origem apostólica. 

O primeiro testemunho claro da prática devocional do sinal da cruz está registrado no De corona militis, de Tertuliano. Diz ele:

Em cada caminhada e movimento, em cada entrada e saída, no vestir, no calçar, no banho, no estar à mesa, no acender as luzes, no deitar, no sentar, no lidar com qualquer ocupação, marcamos a testa com o sinal [da cruz].

Tertuliano se refere nessa passagem a uma tradição, isto é, a uma prática que, entre os sécs. II-III, já era costume entre os fiéis havia muito. O sinal por ele mencionado, no entanto, se há de identificar, provavelmente, com o pequeno sinal da cruz que até hoje traçamos sobre a fronte ao nos persignarmos. O gesto, aliás, tem um sólido fundamento bíblico, como se vê em Ez 9, 4, onde lemos: “Passa no meio da cidade, no meio de Jerusalém e marca com um tau (Τ) na testa dos homens que gemem por tantas abominações que nela praticam”. Trata-se de um sinal presente em uma profecia do Antigo Testamento, e não demoraria muito para que a Igreja nele reconhecesse uma prefiguração da cruz salvadora de Jesus Cristo.

Também S. Gaudêncio de Bréscia, em pleno séc. V, afirmou: “Esteja a Palavra de Deus e o sinal da cruz no coração, na boca e na fronte. Em meio à comida, em meio à bebida, em meio às conversas, nas abluções, nos leitos, nas entradas, nas saídas, na alegria, na tristeza”. O sinal de que falava o santo era, na época, traçado em ordem inversa à de hoje, ou seja, do ombro direito ao esquerdo. Apesar dessa diferença acidental, o texto ilustra que, para os cristãos dos primeiros séculos, havia entre a Palavra de Deus e o sinal da cruz uma inegável relação.

Não é de estranhar, pois, que o pequeno sinal da cruz se tenha ido estendendo pouco a pouco. Sabemos também que, quando das primeiras controvérsias cristológicas, muitos fiéis passaram a traçar um sinal da cruz maior, unindo dois dedos — o polegar e o índice —, para atestar de maneira mais visível a fé na dualidade de naturezas, divina e humana, na única pessoa do Verbo de Deus.

Com o passar do tempo, naturalmente, surgiu o desejo de expressar pelo gesto não só a união hipostática, mas todo o mistério trinitário. Assim nasceu o costume (observado até hoje pelos católicos de rito oriental e também pelos cismáticos ortodoxos) de benzer-se da cabeça ao peito e do ombro direito ao esquerdo, unindo três dedos — polegar, índice e médio —, para simbolizar a unidade de essência entre as três pessoas da Trindade, e mantendo recolhidos sobre o músculo do polegar os dedos anular e médio, para simbolizar a união das duas naturezas em Cristo.

Por sua grande riqueza simbólica e teológica, o sinal “veio para ficar”. Ele foi amplamente assimilado pela cristandade medieval, que lhe deu feição própria. Ensina o Papa Inocêncio III, referindo-se a duas maneiras distintas de benzer-se:

O sinal da cruz deve, então, ser feito com três dedos, pois ele assinala sob a invocação da Trindade; a respeito da qual disse o profeta: “Quem pendurou com três dedos a massa da terra?” (Is 40, 12). É assim que se desce do alto para baixo, e da direita se passa à esquerda, pois Cristo desceu do céu à terra e dos Judeus passou para os gentios. Alguns [sacerdotes], porém, fazem o sinal da cruz da esquerda para a direita, pois devemos passar da miséria para a glória, assim como Cristo passou da morte para a vida e do inferno para o paraíso, para que eles assinalem a si mesmos e os outros em uma só direção. Se olhares com atenção, também sobre os outros, faremos o sinal da cruz da direita para a esquerda, já que não os assinalamos como que dando-lhes as costas, mas apresentando-nos de frente.

Ao lado da simbologia dos três dedos unidos, surgiu também o costume de traçar o sinal da cruz com os cinco estendidos, como é prática hoje universal no Ocidente. Se os três dedos unidos simbolizam a Trindade e os dois recolhidos, a união hipostática, os cinco estendidos são imagem das cinco chagas de Cristo, por meio das quais aprouve a Deus curar-nos de nossos pecados. E como a cruz redentora implica a restauração do gênero humano à ordem da graça e a devolução dos dons e auxílios sobrenaturais perdidos por Adão, o sinal traça-se da esquerda para a direita, representando a passagem do estado de condenação para o de justiça. 

Vale a pena recordar ainda o costume, de origem ibérica, de traçar o pequeno sinal da cruz sobre a fronte, os lábios e o coração antes de benzer-se, enquanto se recita a famosa oração: “Pelo sinal da santa cruz, livrai-nos, Deus, nosso Senhor, dos nossos inimigos”. É um modo de pedir a Deus o livramento de todos os males.

O sinal da cruz, além de uma maneira de professar a fé cristã e alimentar a devoção à santa Cruz, é também um sacramental, pelo qual a Igreja nos concede, se feito com piedade, uma remissão parcial das penas temporais devidas aos nossos pecados: “Concede-se indulgência parcial ao fiel que faça devotamente o sinal da cruz, proferindo as palavras costumeiras: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém” (Manual das Indulgências, n. 55). Não se trata de “crendice” nem de superstição, mas de uma expressão visível da nossa fé sobrenatural e uma protestação da esperança que temos de receber um dia, pelos méritos do Filho crucificado em sua carne adorável, a glória de eterna bem-aventurança.

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