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Homilia Dominical
24 Out 2015 - 28:06

Deixando as obras da carne

Sair de Jericó, diz um Santo Padre da Igreja, significa abandonar os pecados da carne e purificar o próprio coração. Foi o que fez o cego Bartimeu quando “jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Mas o que quer dizer espiritualmente esse “manto” de que fala o Evangelho? Por que certos pecados tornam as pessoas “pesadas” e até mesmo incapazes de pensar e de crer? Como deixar de praticar certas condutas pode nos ajudar a elevar a alma até Deus?
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Homilia Dominical - 24 Out 2015 - 28:06

Deixando as obras da carne

Sair de Jericó, diz um Santo Padre da Igreja, significa abandonar os pecados da carne e purificar o próprio coração. Foi o que fez o cego Bartimeu quando “jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Mas o que quer dizer espiritualmente esse “manto” de que fala o Evangelho? Por que certos pecados tornam as pessoas “pesadas” e até mesmo incapazes de pensar e de crer? Como deixar de praticar certas condutas pode nos ajudar a elevar a alma até Deus?
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 

(Mc 10, 46-52)

Naquele tempo, Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos e uma grande multidão. O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à beira do caminho. Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando, começou a gritar: "Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!" Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda: "Filho de Davi, tem piedade de mim!" Então Jesus parou e disse: "Chamai-o". Eles o chamaram e disseram: "Coragem, levanta-te, Jesus te chama!" O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus. Então Jesus lhe perguntou: "O que queres que eu te faça?" O cego respondeu: "Mestre, que eu veja!" Jesus disse: "Vai, a tua fé te curou". No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.

*

“Jesus saiu de Jericó” (v. 46) e começou a subida à Jerusalém, para ser crucificado. A esse respeito, comenta São Jerônimo: “O nome da cidade de Jericó corresponde à paixão do Senhor que se aproxima. Esse nome significa, de fato, lua ou anátema, indicando que o fracasso da carne de Cristo é preparação para a Jerusalém celeste” [1]. Para nós, a saída de Jericó também adquire um sentido moral, pois aponta para a íngreme subida que todos têm que trilhar para deixar a vida de “anátema” na carne e no pecado.

“Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando...” (v. 47). Primeiro, então, Bartimeu “ouve dizer”. Nele, de fato, assim como em todos os que começam a crer, a audição precede a fé – fides ex auditu (Rm 10, 17). O que acontece, porém, é que a palavra que os ouvidos escutam (revelação externa) junta-se a uma outra, que já toca todos os corações humanos desde dentro (revelação interna), de modo que, quando alguém acolhe a pregação do Evangelho, é como se recebesse aquilo por que já esperava silenciosamente durante toda a sua vida. Quando essas duas revelações entram em sintonia, quando o ser humano, assistido pela graça de Deus, dá com a sua vontade o passo da fé, a primeira coisa a fazer é rezar, ainda que rude e simploriamente, como fez o cego Bartimeu: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” (v. 47).

Quando Nosso Senhor o chamou, diz o Evangelho, “o cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus” (v. 50). Essa atitude alude a um dos primeiros efeitos da virtude da fé, que é a purificação do coração – de que fala não só Santo Tomás de Aquino [2], mas o próprio Cristo, no Sermão da Montanha (cf. Mt 5, 8). O manto aqui jogado por Bartimeu consiste, portanto, nos vícios da carne, que cegam a mente e embotam o sentido, como ensina o mesmo Aquinate:

“Os vícios carnais, isto é, a gula e a luxúria, consistem nos prazeres do tato, isto é, nos da mesa e dos atos sexuais; estes são os prazeres mais violentos entre todos os prazeres do corpo. Por isso, por esses vícios, a intenção do homem aplica-se principalmente às coisas corporais e consequentemente sua atividade intelectual se debilita, mais pela luxúria do que pela gula, pois os prazeres sexuais são mais veementes do que os da mesa. Portanto, da luxúria nasce a cegueira da mente que exclui quase totalmente o conhecimento dos bens espirituais; e da gula nasce o embotamento do sentido, que torna o homem débil com respeito às realidades inteligíveis. Ao contrário, as virtudes opostas, isto é, a abstinência e a castidade, dispõem muito bem o homem para a perfeição da atividade intelectual, de onde a palavra de Dn 1, 17: ‘Deus deu a estes meninos – isto é, aos que particam a abstinência e a castidade – a ciência e conhecimentos de todas as letras e da sabedoria’.” [3]

Quando se fala de pureza, porém, é preciso considerar a radicalidade do que ensina Jesus: “Todo aquele que olhar para uma mulher com o desejo de possui-la, já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5, 28). Como ensina a moral tradicional da Igreja, não há parvidade de matéria no que diz respeito ao sexto mandamento [4]. Também os pecados aparentemente pequenos são graves e precisam ser extirpados através de um combate ferrenho e perseverante: não deve haver trégua para o mínimo pensamento impuro ou olhar curioso. Sem essa luta interior e exterior, sem esse “jogar o manto”, torna-se praticamente impossível dar o pulo de Bartimeu e correr em direção a Cristo.

“Então Jesus lhe perguntou: ‘O que queres que eu te faça?’ O cego respondeu: ‘Mestre, que eu veja!’” (v. 51). Domine, ut videam!: o pedido de Bartimeu éo mesmo pedido que fazia São Josemaría Escrivá, em seus anos de seminário, antes de fundar o Opus Dei. Trata-se de uma oração importante para crescer na vida interior, cujo cume consiste justamente em ver, em conhecer a Deus pela fé. Nesse processo, é possível distinguir alguns graus:

  1. primeiro, vem o sensível – quando a alma ainda está apegada a certas consolações interiores;
  2. depois, começa a usar-se com mais frequência os sentidos internos, i.e., a imaginação e a memória;
  3. mais adiante, reina a vontade de fazer o que Deus quer, mesmo à custa de contrariedades (que foi o que fez Bartimeu, seguindo Jesus pelo caminho, depois da cura);
  4. por fim, chega-se ao degrau da inteligência, no qual a alma passa a viver puramente de fé – e desabrocha nela, de modo maravilhoso, o dom do entendimento.

Nessa caminhada, é importante atentar para o fato de que uma etapa não necessariamente exclui a anterior. Afinal, Deus deu-nos a sensibilidade, bem como a fantasia, para que O servíssemos também com essas potências. O que não se pode fazer é ficar preso aos estágios inferiores, quando Deus nos chama a ir para águas mais profundas (cf. Lc 5, 4).

Que o itinerário de conversão do cego do Evangelho, portanto, seja também o nosso: primeiro, acolhamos a Palavra; depois, deixemos as obras da carne; e, por fim, cresçamos na fé, até atingirmos a estatura de Cristo (cf. Ef 4, 13).

Referências

  1. Catena Aurea in Marcum, 10, 8.
  2. Cf. Suma Teológica, II-II, q. 7, a. 2.
  3. Suma Teológica, II-II, q. 15, a. 3.
  4. Cf., v.g., MARIN, Antonio Royo. Teología moral para Seglares. Biblioteca de Autores Cristianos: Madrid, 2012, p. 529s.

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