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Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 1, 39-47)

Naqueles dias Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou em seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Então Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”.

Explicação do texto (cf. Lc 1, 39-56). — A Virgem bendita, visitada pelo núncio celeste e levando no útero o Filho de Deus, vai à casa de sua parenta a fim de a ajudar em suas necessidades e congratulá-la pela gravidez (v. 39-41). Recebida por Isabel com grandes elogios (v. 42-45), Maria prorrompe em ação de graças e entoa a Deus um magnífico cântico de louvor (v. 46-56).

1. A visitação (v. 39-41). — V. 39. “Naqueles dias (expressão hebraica para dar início a uma narração), Maria partiu para a região montanhosa (gr. ‘εἰς τὴν ὀρεινὴν’), dirigindo-se, apressadamente”, devido à alegria que lhe transbordava do coração, e não por duvidar das palavras do anjo, “a uma cidade da Judéia” (gr. ‘εἰς πόλιν Ἰούδα’). Quanto ao lugar em que viviam Zacarias e Isabel, há diversidade de opiniões: alguns pensam que se trata de Jerusalém; outros, de Hebrom, que estava nas montanhas de Judá; outros, em vez de Judá, leem Jota ou Jeta (talvez a atual Yatta, perto de Hebrom), mencionadas em Jos 15, 48-60; 21, 16, cidades de Judá situadas na montanha. Uma antiga tradição, que goza hoje de ampla aceitação entre os estudiosos, situa a casa de Zacarias em Ain Karim, a sudoeste de Jerusalém. — V. 40-41. Maria “entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou em seu ventre”, por um movimento não natural, próprio da gestação, mas sobrenatural: ainda no ventre materno, João, movido pelo Espírito Santo, encheu-se de alegria celeste ao sentir a presença do Redentor e de sua Mãe virginal. Essa moção extraordinária do Espírito Santo se estendeu à alma não só do Precursor, mas também de sua mãe: “e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”, isto é, iluminada com luz sobrenatural para conhecer os mistérios divinos que se haviam realizado há pouco em Maria SS.

2. A saudação de Isabel (v. 42-45). — V. 42. Isabel, “com um grande grito, exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre’”, isto é, a) isento de toda maldição e pecado, b) cumulado de todos os dons da natureza e da graça. Alguns intérpretes opinam que a conjunção “e” tem o valor explicativo de um “porque”, de forma que a razão pela qual Maria é chamada neste versículo “bendita entre as mulheres” é a dignidade e santidade de seu Filho: com efeito, assim como “a glória dos filhos são os pais” (Pr 17, 6), assim também a honra daqueles redunda nestes. — V. 43. “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” A pergunta, provavelmente retórica, é sinal de um espírito humilde, admirado ante a dignidade quase infinita da Mãe de Deus (cf. S. Tomás de Aquino, STh I, q. 25, a. 6, ad 4) e ciente, ao mesmo tempo, da própria indignidade, como se dissesse: “Como poderia eu merecer tamanha honra?” — Do v. 44  se pode concluir que a voz de Maria SS. foi como o veículo por meio do qual a graça do Espírito Santo foi concedida a João e a Isabel, de sorte que aqui parece estar contida, de modo mais ou menos implícito, a função mediadora de Nossa Senhora na distribuição das graças de Cristo. — V. 45. “Bem-aventurada aquela que acreditou (gr. ‘ἡ πιστεύσασα’), porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. A construção é algo ambígua, pois não deixa claro como se deve interpretar a conjunção “porque” (gr. ‘ὅτι’), ou seja: se a conexão é “Bem-aventurada […], porque será cumprido” ou “acreditaste, porque será cumprido”. A primeira leitura parece ser a mais óbvia: “Saibas que Maria não duvidou” ao dizer: “Como se fará isso?” (Lc 1, 34), “mas acreditou e, por isso, recebeu o prêmio de sua fé” (S. Ambrósio, Expos. in Luc., II, 26).

3. Início do Magnificat (v. 46-47). — A bem-aventurada Virgem não responde aos louvores e elogios de sua parenta, senão que, movida pelo Espírito divino, entoa um hino admirável no qual a) exprime seus sentimentos de gratidão pelo benefício recebido (v. 46-50), b) bendiz a providência divina, que desconcerta os soberbos e exalta os humildes (v. 51-53), e c) louva a inquebrantável fidelidade de Deus às suas promessas (v. 54-56). No Evangelho de hoje, lemos apenas os primeiros dois versos do Magnificat (v. 46-47), que dizem: “A minha alma engrandece (gr. ‘μεγαλύνει’, ou seja, enaltece, exalta) o Senhor”. “Vede o quão contrário é este cântico ao do anjo caído: este começou elevado, mas caiu ou, antes, ruiu até o fundo do abismo; Maria, porém, começou humilhada, e foi por isso elevada às alturas. Ela engrandece o Senhor, e não a si mesma, embora tenha sido sobremaneira exaltada, segundo o que está escrito: ‘Quanto mais fores elevado, mais te humilharás em tudo’ (Eclo 3, 20), de tal modo que mereceu ser elevada acima de todos os coros angélicos. O demônio, ao contrário, engrandeceu a si mesmo, e por isso mereceu ser precipitado abaixo de todas as coisas” (S. Boaventura, Vitis mystica, c. 26). — “E o meu espírito se alegra (gr. ‘ἠγαλλίασεν’) em Deus, meu Salvador”, isto é, no meu Redentor, no qual se encontra a minha salvação: “Esta exultação não foi um ato pontual e transitório, senão que perdurou na Virgem, à maneira de hábito, por toda a sua vida” (atribuído a S. Alberto Magno). Ambos os versículos significam, como se vê, a mesma coisa, o que é muitíssimo comum na poesia hebraica e nos outros cânticos bíblicos.

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