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Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 11,27-28)

Naquele tempo, enquanto Jesus falava, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”. Jesus respondeu: “Muito mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”.

Hoje o Evangelho nos fala da Virgem Maria de forma indireta. É um Evangelho que a Igreja sempre usou para venerar a Virgem Santíssima. Por estarmos no sábado, nós então nos colocamos na presença da Virgem Santíssima para honrá-la e venerá-la.

Que Evangelho é esse? É um Evangelho muito breve, dois breves versículos. No primeiro, uma mulher do meio da multidão levanta a voz e diz: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”. Ao fazer isso, essa mulher está expressando aquilo que é a convicção do povo do Antigo Testamento.

Deus, no Antigo Testamento, reservou para si um povo, e esse povo faz parte de uma descendência genealógica, genética, ou seja, de fato, é a descendência de Abraão — aqueles que nasceram de Isaac, de Jacó e de seus doze filhos, depois das doze tribos. Pois bem, aqui essa mulher está dizendo: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”, olhando para a felicidade da Virgem Maria pelo fato de ela ter gerado na carne a Nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus, no entanto, responde aparentemente contradizendo o que a mulher disse; mas, na verdade, não está contradizendo, está aprofundando: “Muito mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. Aqui, Jesus está fazendo o maior elogio à Virgem Maria.

Por quê? Porque, sim, o povo de Deus é o povo da descendência de Abraão, mas Jesus está nos mostrando que existe uma descendência de Abraão muito mais importante. Abraão é nosso pai na fé, e nós somos parte do povo de Deus não porque temos uma descendência genética, mas porque cremos com a fé de Abraão e de todas as pessoas que fazem parte do povo de Deus que estiveram nesse mundo. Não existe nem existirá ninguém com uma fé maior do que a da Virgem Santíssima. Nossa Senhora deixa a fé luminosa e gloriosa do patriarca Abraão para trás, por assim dizer. A fé de Abraão é uma pequena chama diante do farol luminoso da fé de Nossa Senhora.

Para fazer um paralelo, Abraão subiu o monte Moriá com Isaac para sacrificá-lo. Ali houve a grande provação da sua fé. A tradição reconhece que esse monte Moriá era o mesmo monte Sião, onde mais tarde seria construída a cidade de Jerusalém, séculos depois de Abraão. Dois mil anos depois de Abraão, novamente um Filho com a lenha às costas, como Isaac, sobe à montanha para ser oferecido em sacrifício. Esse Filho é Jesus, e o sacrifício da fé de Abraão foi oferecido pela Virgem Maria, Nossa Senhora. Com fé mais luminosa do que a de Abraão, ele oferece o seu Filho bendito.

Ela é a bem-aventurada Virgem Maria porque creu, como disse Santa Isabel: “Bem-aventurada aquela que creu”. Eis o título de nobreza da Virgem Maria, “aquela que creu”. Se Abraão é nosso pai na fé, então a Virgem Santíssima é muito mais ainda nossa mãe na fé, porque muito mais profundo foi o seu ato de fé. “Bem-aventurada aquela que creu”, aquela que foi escolhida por Deus para crer com a fé luminosa e inabalável!

Que a Virgem Santíssima de lá do Céu nos dê um pouco de sua fé para sermos também nós objetos de bem-aventurança, da felicidade de sermos aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a colocam em prática.

* * *

COMENTÁRIO

1. Glorificação da Mãe de Cristo (cf. Lc 11,27s). — O único a mencionar o episódio hoje narrado é São Lucas, que de todos os evangelistas costuma ser o mais diligente em referir as ações do Senhor.

V. 27. Enquanto Ele assim falava, isto é, ao refutar Cristo com tal doutrina e força de argumentos as injúrias dos fariseus, levantou a voz em sinal de admiração uma mulher do meio do povo, isto é, alguma mulher desconhecida, e lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram, isto é, bendita e digna de honra e louvor a mulher que te concebeu, deu à luz e alimentou. — É provável que esta mulher tenha irrompido em tais palavras por um impulso sobrenatural do Espírito Santo; daí o louvor da maternidade divina. “De grande devoção e fé mostra ser esta mulher, que, enquanto os escribas e fariseus tentavam e blasfemavam ao Senhor, com tanta clarividência conheceu ela, melhor do que todos, a Encarnação e com tanta firmeza a confessou que rebateu, a um tempo, a calúnia dos próceres presentes e a perfídia das heresias futuras” (São Beda, Hom. 19).

V. 28. Mas Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a Palavra de Deus, que eu prego, e a observam. Segundo muitos acatólicos, o advérbio μενοῦν (lt. quinimmo; pt. “antes”) implica uma restrição ou correção do que dissera a mulher, de modo que o sentido das palavras de Jesus seria: “Pelo contrário, bem-aventurados os que ouvem” etc. No entanto, de acordo com a maioria dos católicos, além de muitos protestantes, não se trata de uma correção, mas de uma confirmação, já que o significado próprio dessa partícula é “de fato”, “tanto mais”. Ora, “quem diz ‘tanto mais’, afirma o que se disse e também o que se está a dizer, antepondo contudo o segundo ao primeiro. Assim, se alguém dissesse: ‘Como é bela a prata’, e tu respondesses: ‘Tanto mais o ouro’, não estarias negando, senão afirmando que a prata é bela, mas que o ouro o é mais” (Maldonado, Comm. in Luc. 11, 28). O sentido pois deste versículo é: a Virgem Deípara é, de fato, bem-aventurada por ter sido elevada ao fastígio da maternidade divina, mas o é muito mais “por ter feito a vontade do Pai” (Santo Agostinho, In Ioh., tract. 10, 3) [1]. Não seria, com efeito, bem-aventurada ainda que tivesse gerado a Cristo segundo a carne, mas sem ouvir e guardar a Palavra de Deus [2].

2. Doutrina mariana.a) O fato de Cristo estar pregando em público às multidões mostra que Ele, sem se indignar de ser interrompido por aquele súbito elogio, preferiu servir-se dele como pretexto para sublinhar um outro aspecto da dignidade de Maria vinculado tanto à universalidade do Evangelho, dirigido a todos os povos, quanto ao primado da graça sobre a natureza. Ao chamar bem-aventurado a quem ouve a Palavra de Deus e a guarda, Jesus não nega a grandeza de sua Mãe, mas declara que são mais profundos e importantes os laços sobrenaturais que estabelece a graça de Deus naqueles que O ouvem e obedecem do que os que “estabelecem naturalmente os vínculos de sangue” [3]. Contrariando, assim, a tendência “etnocêntrica” típica do judaísmo de seu tempo, Nosso Senhor acrescenta ao louvor baseado na carne e no sangue a glória que provém da alma e do espírito: Maria é digna não só por ter dado ao Salvador a carne pela qual seríamos salvos, mas sobretudo: α) por ter ouvido a Palavra de Deus e cumprido fielmente a sua vontade (cf. Mt 12,46-50) e β) pela fé eminentíssima que sempre teve, a qual lhe valeu aquele elogio de Santa Isabel: Bem-aventurada és tu que creste (Lc 1,45).

b) Além disso, é preciso notar, de um lado, o humilde anonimato no qual se esconde aquela mulher, representação viva do entusiasmo e da piedade com que tantas pessoas, desde os acontecimentos narrados no Evangelho, vêm honrando a Cristo em e por sua Mãe; as palavras daquela judía cheia de espírito de fé podem muito bem ser postas na boca de todos os que, despreocupados do que dirão os inimigos de Jesus, não se envergonham de exaltar com força e ardor o seio que o carregou, o colo que o acolheu, os braços que o estreitaram, os olhos que o contemplaram, o Coração Imaculado que o amou acima de tudo. Também se deve considerar, de outro lado, que a finalidade desse louvor não foi outro senão o de glorificar o Filho por meio da Mãe: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram”. Ao engrandecer a Maria, com efeito, em nada diminuímos a Cristo, de quem, por quem e para quem são todas as coisas (cf. Rm 11,36). Não há caminho mais curto para o Coração do Filho do que recorrer àquela por quem Ele mesmo quis entrar no mundo: Ad Iesum per Mariam, já que por Maria Ele veio a nós.

Referências

  1. Cf. Santo Tomás de Aquino, Catena in Lucam, c. 11, l. 8: “São João Crisóstomo, sobre São Mateus: ‘Não foi esta a resposta de quem repudia a Mãe, mas do que mostra que de nada lhe valeria o parto, se não fora boa e fiel. Ora, se nem a Maria, sem as virtudes da alma, podia ser útil o ter dado Cristo à luz, muito menos a nós nos aproveitará de algum modo ter um pai, irmão ou filho virtuoso, se não nos fizermos imitadores de sua virtude’”.
  2. Tradução levemente adaptada de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 344, n. 235.
  3. A. Royo Marín, La Virgen María. Madrid: BAC, 1968, p. 30, n. 21.
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