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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 20, 19-23)

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes, eles lhes serão retidos”. 


Meditação. — 1. Ao celebrar neste domingo a solenidade de Pentecostes, recordamos o mistério do derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja. Da direita do Pai, Jesus Cristo, o Ungido de Deus, derrama sobre nós seu amor divino, a fim de que, estando também ungidos, sejamos membros do seu Corpo Místico. É essa ação do Espírito Santo Paráclito que move a Igreja ao longo dos séculos, assim como também opera em nós uma transformação interior.

Para meditarmos sobre esse mistério, vamos tomar como ponto de partida a vida de um santo, São Filipe Néri, que coincidentemente no dia de hoje, 31 de maio, do ano de 1544, passou por um pentecostes pessoal e extraordinário. Nessa data, Filipe estava rezando nas catacumbas de São Sebastião em Roma, quando recebeu a efusão do Espírito Santo que entrou por sua boca, na forma de uma bola de fogo, e fez com que o seu coração se dilatasse fisicamente, como descreve seu biógrafo Pietro Giacomo Bacci:

Quando ele estava com o maior empenho pedindo os dons do Espírito Santo, apareceu-lhe um globo de fogo que entrou por sua boca e se alojou em seu peito; em seguida, ele ficou tomado por tal fogo de amor que, incapaz de suportá-lo, atirou-se ao solo; como alguém que tenta se refrescar, despiu seu peito para de algum modo moderar a chama que sentia. Após permanecer assim por algum tempo e recuperar-se um pouco, levantou-se cheio de inusitada alegria, e imediatamente todo seu corpo começou a tremer violentamente; pondo a mão no peito, sentiu no lado do coração um inchaço grande como o punho de um homem; mas, nem então nem depois, isso provocou a mais leve dor ou ferida [1].

Essa dilatação milagrosa do coração de São Filipe Néri permaneceu por mais de 50 anos, até o fim de sua vida, conforme atestou o médico Andrea Cesalpino que, ao fazer a autópsia do corpo, constatou inclusive o deslocamento das costelas causado pelo aumento do coração: 

Percebi que as costelas estavam rompidas naquele ponto, isto é, separadas da cartilagem. Só dessa maneira era possível que o coração tivesse espaço suficiente para levantar e abaixar. Cheguei à conclusão de que se tratava de algo sobrenatural, de uma providência de Deus para que o coração, batendo tão fortemente como batia, não se ferisse contra as duras costelas [2].

Esses feitos extraordinários e sobrenaturais, embora nos causem certo espanto e pareçam ser tão distantes da nossa realidade, são compreensíveis se observarmos a história de vida de São Filipe Néri, cujo coração foi sendo pouco a pouco preparado, através da ação e da oração, para receber a efusão do amor de Deus.

2. Nascido em 21 de julho de 1515, em Florença, Filipe Néri foi batizado e crismado como todos nós, com a diferença, porém, que desde cedo havia nele uma correspondência ao amor de Deus que se refletia na bondade de suas ações. Essa distinção nas virtudes fez com que seus familiares não o chamassem pelo nome, mas sim de Pippo, il Buono.

Na juventude, embora seus pais planejassem um futuro promissor para ele nos negócios da família, Filipe decide abrir mão de tudo e partir como peregrino para Roma, a fim de conhecer os túmulos de São Pedro e São Paulo, porque, no fundo, queria se entregar a Deus como fizeram esses dois apóstolos.

Vivendo despojadamente na casa de uma família romana, Filipe inicia um caminho de busca pela santidade dedicando-se à oração, confessando-se com frequência e sendo aconselhado espiritualmente por seu confessor, padre Persiano Rosa. Porque almejava um progresso na vida interior, Filipe Néri passa a cultivar o hábito de visitar as catacumbas dos mártires — numa época em que ninguém o fazia — e permanecia diante delas em oração, pedindo a Nosso Senhor que também lhe desse a graça de unir-se a Ele.

Num contexto em que Roma estava tomada pelo renascimento do paganismo, a atitude daquele jovem visitando tão frequentemente os mortos era considerada um ato de loucura. Mas São Filipe Néri sabia que não visitava as catacumbas por causa da morte e sim pela vida sobrenatural que um dia palpitou no coração daqueles homens e mulheres, a ponto de eles renunciarem a si próprios por amor a Deus.

Assim, as catacumbas tornaram-se o local de peregrinação daquele jovem leigo de 29 anos. Até que, na Vigília de Pentecostes de 1544, o Espírito Santo desceu sobre ele, e seu coração ficou abrasado de tal modo que aumentou de tamanho. Nesse dia, Filipe selou seu matrimônio espiritual com Deus, que lhe deixou um sinal visível dessa união.

É isso que Deus também deseja fazer conosco: constituir uma união íntima por meio do Espírito Santo. Foi isso que ocorreu com os Apóstolos em Pentecostes, quando o divino Paráclito fez com que aqueles homens, antes tímidos e medrosos, estivessem dispostos a ir pelo mundo testemunhar o amor com que foram amados e retribuir esse amor dando suas vidas por Jesus. Esse amor por Nosso Senhor constitui o sinal mais claro de que o Espírito Santo age em nós, pois, como afirma São Paulo, caritas Christi urget nos, “o amor de Cristo nos impele” (2Cor 5, 14).

Esse mesmo amor levou Filipe Néri a deixar tudo e entregar-se a Deus e ao próximo. Inicialmente, ele não aspirava ao sacerdócio, pois se considerava indigno de tão grandioso ministério. Porém, obediente ao seu confessor, Filipe seguiu esse caminho e, em 1551, foi ordenado sacerdote. Em seu ministério, buscou conduzir todos a Deus, por meio da Confissão, da Eucaristia e dos retiros de pregação, que deram origem aos seus primeiros Oratórios.

Tal exemplo real e palpável da ação de Deus na vida de São Filipe Néri mostra-nos a transformação interior que o Espírito Santo opera em nossas almas, quando cooperamos com a graça divina. Por isso, esforcemo-nos para permanecer em estado de graça, a fim de experimentarmos a ação transformadora que o divino Consolador quer realizar em nós e, tomados por um fogo abrasador, querermos unir-nos a Jesus como a mais amorosa das esposas quer se unir ao seu esposo. São Filipe Néri deixou tudo para se unir a Cristo e, uma vez consumada essa união, fez de tudo para que os outros vivessem a mesma experiência.

A exemplo do “santo da alegria”, preparemos nosso interior e abramo-nos ao Espírito Santo, que é derramado em nossos corações para nos levar à felicidade eterna, na qual veremos, face a face, Aquele que amamos, conheceremos como somos conhecidos e amaremos como somos amados.

Referências

  1. Ritchie, Charles Sebastian. Philip Néri, The Catholic Encyclopedia.
  2. Cesalpino, Andrea apud Plínio Mario Solimeo e Henrique Sebastião. São Filipe Néri, o apóstolo da santa alegria.
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