11. Teologia da Libertação e o pobre como lugar teológico

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Nesta aula, Padre Paulo Ricardo nos coloca diante de um dilema: É possível fazer teologia partindo da realidade dos pobres como propõem algumas correntes teológicas da América Latina? Dando continuidade à aula anterior sobre os "Lugares Teológicos", Padre Paulo Ricardo explica os príncipios errôneos da Teologia da Libertação, ensinando que a correta teologia deve partir primeiramente do "Auditus Fidei", ou seja, da Revelação de Deus, e não de realidades materiais.

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Referência

  1. Conferência do Cardeal Ratzinger - A Fé e Teologia nos nossos dias | Arquivo Word

Teologia da Libertação e o pobre como lugar teológico

Na aula anterior estudamos os dez lugares teológicos elencados por Melchior Cano. Na América Latina, a Teologia da Libertação apresenta um outro lugar teológico: o pobre. Seria possível considerá-lo também? O próprio Jesus afirma no Evangelho de Mateus que está presente no pobre, no oprimido, sendo assim, como agir diante desse lugar teológico?

O problema desse tipo de abordagem é que não se parte de uma revelação. O método teológico adequado, conforme já foi visto, é partir do que Deus falou, revelou (auditus fidei) e, nesse caso, qual é o conteúdo revelado por Deus? O que deve ser refletido a partir disso (intellectus fidei)? Diante desse dilema, o teólogo João Sobrino sugeriu uma solução metodológica: para se fazer a Teologia da Libertação não se deve usar mais o intellectus fidei, mas sim o intellectus amoris, ou seja, a intelecção do ato de amor que é a opção preferencial pelos pobres.

É necessário, contudo, permanecer com a identidade tradicional daquilo que é a Teologia. O frei Clodovis Boff, em sua obra Teoria do Método Teológico, faz uma excelente reflexão sobre o tema. Ele apresenta um esforço admirável para permanecer dentro do método tradicional e ao mesmo tempo acrescentar algo da forma típica de se fazer teologia na América Latina.

Diante de outros teólogos da libertação, Clodovis Boff faz uma crítica bastante pertinente à epistemologia do amor (proposta de João Sobrino), dizendo que o amor referido por ele, que pode ser traduzido pela expressão opção preferencial pelos pobres, reflete somente um amor humano.

"pois, o 'amor' de que se fala há que ser discernido, corresponde ao agápe do Novo Testamento, é animado por ele? Ora, essa pergunta não é tão óbvia assim, se fosse claro para todos em que consiste o amor, Jesus não precisaria ter insistido tanto nele a ponto de selar essa lição com o seu próprio sangue (derramamento de sangue na cruz), portanto, para conhecermos o conteúdo do amor, para ele ser verdadeiramente libertador no espírito de Jesus somos obrigados a recorrer à luz da fé e aos Evangelhos e sem isso pode-se produzir qualquer teoria humanitária, marxista ou liberal que seja, mas nunca teologia realmente cristã."

Na raiz do problema o que existe, na verdade, é uma viragem antropocêntrica: Deus que era o centro da teologia clássica já não o é mais. Agora o ponto de partida é o homem. Alegam os teólogos da libertação que é Deus no homem, pois ele se encarnou, porém, o que realmente pregam é a gnose, ou seja, uma filosofia pagã que de alguma forma tomou posse da linguagem cristã. Na Antiguidade, ela quase parasitou a Igreja Católica, tendo sido necessário medidas drásticas para coibi-la. Foi um dos primeiros desafios que a Igreja teve de enfrentar.

Atualmente, estas novas filosofias tem sido constantemente denunciadas pelo Magistério da Igreja, seja com Pio X condenando o modernismo, seja com João Paulo II que tantos alertas emitiu acerca de doutrinas incompatíveis com a fé católica. Joseph Ratzinger, enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé prestou um grande serviço para a Igreja ao desmascarar diversas filosofias errôneas.

Todas essas filosofias têm um ponto em comum: elas perdem a transcendência e, assim, Deus acaba se dissolvendo na história da Humanidade. Para quem estuda filosofia é mais fácil enxergar que como o homem tem caído de abismo em abismo nas questões filosóficas. A partir de Kant que nega o acesso ao transcendente, passando por Hegel com seu único plano monista desde mundo imanente, onde o absoluto agora evolve na História. Partindo deles não é difícil enxergar Nietzsche, Heidegger, as teorias críticas da Escola de Frankfurt, as várias tentativas línguísticas e relativistas do tempo moderno, todas elas são o homem 'fechado', sem transcendência.

Apoderar-se dessas filosofias imanentistas e querer aplicá-las na teologia gera uma teologia neo-pagã. Uma filosofia onde não há o transcendente pode até se apropriar da linguagem cristã e fazer de conta que está, de fato, fazendo teologia, mas não é realmente teologia. Não é difícil abrir um livro de um teólogo da libertação e perceber que ali está faltando transcendência. Por exemplo, quando um João Sobrino diz que não se pode predicar a divindade de Jesus, ou seja, que não se pode dizer que Jesus é Deus, o que ele está dizendo realmente é que não se pode colocar Jesus na transcendência, pois ele está neste mundo. Sendo assim, quem é Jesus? O que Ele fez? Quando se vêem teológos que não crêem nos milagres de Jesus Cristo, que se apropriam deles e os dissolvem (p.ex.: não houve multiplicação dos pães, mas sim, uma partilha; não houve a cura do leproso, mas sim, a inclusão social; não houve a cura do cego, mas foram as escamas da ideologia que caíram;), percebe-se claramente que isso é um esforço hercúleo para eliminar totalmente o transcendente. O homem tornou-se o lugar porque ele é o ponto de partida destas teologias.

A crítica de Clodovis Boff é bastante pertinente, mas é preciso dar um passo a mais, já que ela não foi suficiente. O então Cardeal Joseph Ratzinger, na década de 90, proferiu uma Conferência aos presidentes das Comissões Episcopais da América Latina para a Doutrina da Fé e começa falando sobre a crise da Teologia da Libertação, contudo, de forma clarividente, enxerga que embora seja uma grande crise, ela não acaba com a TL, apenas faz com que passe por uma espécie de metamorfose.

De forma resumida, o Cardeal disse no artigo que houve uma crise e uma desilusão com a TL. Se antes acreditava-se numa libertação, num projeto marxista para o mundo, qual foi o resultado? Apenas um rastro de destruição que originou, por sua vez, o relativismo, pois já não se acreditava mais em nada.

O relativismo teológico e religioso significou concretamente uma abolição da cristologia, ou seja, naquela lista dos dez lugares teológicos é possível enxergar claramente que Cristo é o ponto de partida de todos. Entretanto, quando se entra no processo de relativização, Ele não pode mais ser o centro, e o que se faz então é falar de 'Deus', de forma geral, pois Cristo começa a 'atrapalhar'.

Novamente se delineia a viragem. De uma Teologia que antes pregava o Cristo Libertador, que era uma espécie de Che Guevara com uma coroa de espinhos, tem-se agora uma religião mundial. Essa nova religião não possui uma doutrina, ela relativiza Cristo, afirmando que Ele nada mais é do que uma das muitas formas de encarnação do espírito de Deus na história, ela também aceita todas as outras religiões como sendo válidas e importantes. Ora, não é difícil perceber que quando se junta todos os deuses o que resulta é o renascimento do paganismo, que encontra seu ápice na MÃE TERRA, um feminismo pagão ou um paganismo feminista.

A Mãe Terra com os seus ecologismos, com as forças da natureza e o neo-paganismo está por aí. Tanto é verdade que Leonardo Boff (irmão de Clodovis B.) não teve medo de deixar Jesus para trás e de adotar a nova religião mundial.

O Cardeal Ratzinger, de forma muito profunda, mostra que as raízes filosóficas de tudo isto está no kantismo e, evidentemente, na ortopráxis que é o que resta. Ora, a Teologia da Libertação estava em ruínas, disse o Cardeal, dessas ruínas surgiu o relativismo, porém, como este é completamente vazio de sentido, o relativismo religioso precisava de alguma substância - de um osso para roer - e apoderou-se da prática transformadora, da engenharia social da TL.

Desta forma, em vez de se ter uma ortodoxia o que se tem é uma ortopráxis que leva em direção à uma transformação, a um projeto social moderno. Partindo, então, do cristocentrismo para o antropocentrismo, chega-se ao paganismo total, na destruição do homem, onde Leonardo Boff não tem medo e nem pudor de dizer em seus livros ecológicos em dizer que o homem é o câncer que está fazendo mal à terra e que precisa ser extirpado. Portanto, de abismo em abismo chegou-se ao anti-humanismo.

Lembrando que tudo começou com uma vontade ingênua de valorizar o homem. Mas, valorizar o homem sem Cristo e sem Deus é desvalorizá-lo, é colocá-lo abaixo da própria natureza. Nunca a humanidade chegou tão baixo e, incrivelmente, é este o projeto libertador. Se isso é 'libertação', mil vezes é preferível as 'cadeias opressoras de uma teologia romana'.

AulaTítuloDuraçãoData
1Introdução ao Método Teológico28:22Setembro 10, 2012
2O Gnosticismo e o Arianismo24:52Setembro 10, 2012
3Santo Agostinho27:04Setembro 17, 2012
4São Tomás de Aquino24:54Setembro 24, 2012
5Duns Escoto e Guilherme de Ockham27:46Outubro 01, 2012
6Martinho Lutero28:30Outubro 08, 2012
7Conclusão da Parte Histórica29:12Outubro 16, 2012
8Definição e natureza da teologia36:43Outubro 29, 2012
9Auditus Fidei e Intellectus Fidei28:52Novembro 12, 2012
10Lugares teológicos23:25Novembro 19, 2012
11Teologia da Libertação e o pobre como lugar teológico24:38Dezembro 04, 2012
12A vocação eclesial do teólogo25:32Janeiro 14, 2013
13O relacionamento do teólogo com o Magistério28:41Março 04, 2013
14Conclusão do Curso29:33Maio 06, 2013
15Método de Estudo de Hugo de São Vitor23:53Maio 10, 2013