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Muitas pessoas ficaram desconcertadas ao saber que o bem-aventurado João Paulo II, mesmo depois de Papa, continuava usando o cilício. Uma propaganda anticristã tem tentado – com sucesso, diga-se de passagem – transformar este tradicional método de penitência em um "bicho de sete cabeças", como se o uso do cilício fosse uma prática masoquista e desordenada. No filme "O Código da Vinci", o objeto figura como um instrumento de automutilação. Sobre o Opus Dei cairia a pecha de ressuscitar em nosso tempo uma prática de tortura "supersticiosa" e "medieval".

O uso do cilício, porém, não é uma exclusividade da prelazia fundada por São Josemaría Escrivá. Trata-se de uma prática simples e comum, de uso antiquíssimo na Igreja. Antes mesmo da Idade Média, tem-se notícia de cristãos seculares que utilizavam o cilício, de acordo com o testemunho de São Jerônimo, Santo Atanásio e São João Damasceno. Se esta prática tem sido descuidada, não é por desaprovação da Igreja, mas por uma soberba característica deste século, tão inclinado aos prazeres da carne e pouco dado às preocupações espirituais.

O cilício é um objeto que se utiliza para incomodar a pele, podendo ser constituído por tecidos ásperos, sacos de estopa ou mesmo pequenos ferros que, longe de perfurar a pele, causam certo incômodo, sendo eficazes na mortificação do sentido do tato. Este é o sentido do seu uso: a mortificação, isto é, buscar ordenar as coisas dentro de nós mesmos, já que, pelo pecado original, nossa carne corrompida quer governar a nossa alma.

São João da Cruz, em sua obra "A Subida do Monte Carmelo" (cf. livro III, capítulo XXV), indica os principais perigos que residem no gozo "encontrado pelo tato nas coisas suaves e agradáveis":

"Do gozo encontrado pelo tato nas coisas suaves e agradáveis, nascem muitos outros danos ainda mais funestos, que, em pouco tempo, pervertem sensivelmente o espírito, roubando-lhe a força e o vigor. Daqui nasce o abominável vício da volúpia ou incentivos para ela, na proporção desse prazer. Este gozo nutre a luxúria, torna o espírito efeminado e tímido, o sentido lânguido e melífluo, disposto ao pecado e ao mal. Infunde vã alegria e prazer no coração, desenfreia a língua, dá muita liberdade aos olhos; embota e entorpece os outros sentidos segundo o grau do tal apetite. Tira ao juízo a sua retidão, mergulha-o na ignorância e na incapacidade espirituais, tornando-o moralmente pusilânime e inconstante; as trevas obscurecem a alma; a fraqueza se apodera do coração, fazendo-o recear mesmo onde não há que temer. Outras vezes, o espírito de confusão, a insensibilidade de consciência e de espírito são os frutos deste gozo, porquanto debilita de tal modo a razão, que fica incapaz de dar ou tomar um bom conselho, de receber os bens de ordem espiritual e moral, enfim inútil como um vaso quebrado."

A descrição do Doctor Mysticus é bastante dura e mostra a necessidade que se tem de mortificar os sentidos, a fim de que se ame mais perfeitamente a Deus. É através desta lente que deve ser vista a penitência corporal, seja com o uso do cilício, seja com o uso de outras formas que a alma apaixonada por Jesus encontra para se unir ao seu Amado. De fato, o cilício não é o único modo de mortificar o sentido do tato. O rezar de joelhos, bem como o uso da disciplina – uma espécie de chicote – são espécies proveitosas de penitência. São aconselhadas também formas "negativas" de mortificação, como dormir no chão, preferir uma cadeira simples a uma estofada, deixar de usar um ventilador em um dia quente etc.

É preciso ter moderação e prudência na hora de realizar estas mortificações. Alguns santos receberam de Deus a missão de fazer penitências extraordinárias, que chegavam ao derramamento do próprio sangue. Mas essas são vocações especiais. Neste caso especialíssimo, a pessoa deve estar muito segura do seu chamado divino e ser aconselhada diretamente por seu diretor espiritual, que deve ser um homem sábio, prudente e santo.

Nunca se deve perder de vista que a finalidade última de todas estas mortificações é tornar o coração dos fiéis mais próximo do Sagrado Coração de Jesus. O Papa João Paulo II, em carta enviada aos sacerdotes, no dia 16 de março de 1986, enfatizava:

"O Evangelho insiste especialmente na renúncia a si mesmo, na aceitação da cruz... Quantas cruzes se apresentaram ao Cura de Ars em seu ministério: calúnias das pessoas, incompreensões de um vigário coadjutor ou de outros sacerdotes, contradições, uma luta misteriosa contra os poderes do inferno e, às vezes, inclusive a tentação do desespero na noite espiritual da alma. Não obstante, ele não se contentou em aceitar essas provas sem se queixar; saía ao encontro da notificação impondo a si mesmo jejuns contínuos, assim como outras rigorosas maneiras de 'reduzir seu corpo à servidão', como diz São Paulo. Mas, o que se deve ver nestas formas de penitência as quais, por desgraça, nosso tempo não está acostumado, são suas motivações: o amor a Deus e a conversão dos pecadores."

Com efeito, como seremos capazes de amar, se não estivermos dispostos a pagar o preço do amor? Este não é um sentimento; é, ao contrário, entrega, sacrifício. É preciso morrer para si mesmo para viver para Deus.

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