9. A luta contra a vaidade

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Ao rezarmos, quem de nós nunca foi visitado por aquele "observador incômodo", louvando nossas supostas virtudes e tentando-nos à armadilha da vanglória? Qual é, afinal, a doença por trás de tentação tão comum? Como lutar contra essa voz teimosa e insistente incitando ao pecado da vaidade?

Descubra a resposta, assistindo a este episódio de nosso programa "Direção Espiritual".


Quando se tem um encontro pessoal com Deus, surge no coração a necessidade urgente de endireitar a própria vida. Na luta contra os próprios pecados e início da vida de oração, porém, pode acontecer que se comece a fazer as coisas certas pelos motivos errados. Quem nunca foi acometido, por exemplo, por aquele "observador incômodo", tentando ao pecado da vaidade quando se reza ou se faz uma boa obra? – Nossa, como você é virtuoso! – sussurra o próprio ego.

No afã de uma glória vazia, o indivíduo desatento pode cair facilmente na armadilha do demônio, construindo uma personagem piedosa diferente de si e transformando a sua vida espiritual em uma hipocrisia farisaica. Esse constitui o triste fenômeno da vida dupla, quando a pessoa passa para os outros uma imagem falsa de si próprio, fazendo-se de santo e virtuoso quando, no fundo, sequer abandonou a sua vida passada de pecado.

Outras pessoas, no entanto, mesmo que sejam sinceras, não sabem o que fazer com a tal "voz inconveniente". Como se livrar do próprio "eu" incitando à vanglória a todo momento?

Importa, antes de tudo, identificar a doença por trás dessa tentação. O indivíduo vaidoso se sente amado apenas no seu fazer, enquanto o seu ser é tido como algo negativo. Para compensar a sua baixa estima e falta de amor próprio, então, ele realiza várias atividades, tentando redimir de alguma forma o seu vazio e empreendendo uma busca desiludida por louvor e aprovação. Como castigo por seu pecado, Deus retira a Sua mão da pessoa e, fatalmente, ela cai no pecado. A reação de tais almas à sua queda é a pior possível, como indica o autor espiritual Lorenzo Scúpoli:

"O soldado presunçoso facilmente se engana, julgando ter-se habituado a desconfiar de si mesmo e a confiar em Deus.

Você notará o seu engano quando sofrer a primeira queda.

Observe, com atenção, o sentimento que nascer na sua alma após a queda: se você sentir uma inquietação, como que uma tristeza e um desapontamento que leva ao desânimo e pode chegar à desesperança, é sinal certo de que você estava confiando na sua pessoa, e não em Deus.

Porque quem desconfia de si mesmo quase que totalmente e confia em Deus inteiramente, não se espanta nem se entristece com a queda. Sabe que o que ocorreu foi devido à sua fraqueza e pouca confiança em Deus. Mais desconfiado de si, mais e mais confie, humildemente, em Deus." [1]

A solução para esse problema é colocar-se realmente diante de Deus, o qual, do Céu, olha diretamente para aquele que ora, sondando as profundezas mais íntimas do seu ser. Diante do Senhor, então – e não de um observador maluco e malicioso –, ele sabe que, embora o seu fazer seja fraco e ele seja realmente pecador – como confessou com sinceridade o publicano da parábola do Evangelho (cf. Lc 18, 9-14) –, o Criador o aprova e o ama no seu ser: antes mesmo que ele nascesse ou pudesse chorar no regaço de sua mãe, Deus o criou e deu-lhe a existência.

De fato, diz São João, "nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados" (1 Jo 4, 10). Só por isso, "porque ele nos amou primeiro", "nós amamos" (1 Jo 4, 19). Na fé cristã, o amor não é um moralismo ou uma tentativa insana de alcançar o Céu pelas próprias forças, mas uma singela resposta de gratidão Àquele que nos amou até o despojamento de Si próprio.

É diante d'Ele que deve se colocar todo aquele que quer fazer a Sua vontade. Afastem-se, pois, todos os observadores incômodos e sedutores da vaidade. Aproxime-se das almas Nosso Senhor, com o Seu olhar único – o mesmo que fez mudar de vida Maria Madalena; o mesmo que fez entrar a salvação na casa de Zaqueu (cf. Lc 19, 1-10); o mesmo que fez arrepender-se o Apóstolo São Pedro... Que o Seu olhar penetre o fundo dos corações e, como um fogo, queime a palha da vaidade, enraizando o ser dos homens no Seu ser – Ele que ama o ser de todos os homens e redime o seu fazer.

Referências

  1. SCÚPOLI, Lorenzo. O combate espiritual. Rio de Janeiro: Edições Louva de Deus, 1996. p. 18

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