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Christo Nihil Praeponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
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Vimos na primeira parte desta direção espiritual que a nossa vida interior está estruturada em diversas "camadas" ou graus de profundidade, em cujos níveis mais externos e, por assim dizer, superficiais tendem a predominar aquelas operações mais diretamente vinculadas à nossa dimensão animal, quer dizer, à nossa condição de compostos de corpo e alma; os sentimentos e as imagens evocadas pela imaginação são um exemplo típico de fenômenos internos que, embora pertençam à vida espiritual de todos, não constituem senão a parte mais rasa e periférica do nosso mundo interior. Também a chamada memória sensitiva, responsável por recordar e trazer à tona o passado enquanto passado — ou seja, como algo anteriormente percebido —, é uma faculdade orgânica radicada no cérebro que costuma exercer uma influência significativa no modo como oramos [1].

Ora, apesar de terem sua função própria, as atividades dependentes dos nossos sentidos internos não devem ser consideradas nem como o principal nem como o norte orientativo de nossa vida de oração, como também já foi dito. Esta advertência serve não só para prevenir-nos do risco — aliás, tão comum e tão pouco evitado — de identificarmos santidade e amor a Deus com as sensações ou emoções (choro, alegria, paz etc.) que às vezes experimentamos ao rezar, mas também para lembrar-nos da força dispersiva de tais atividades, isto é, de sua capacidade efetiva de distrair-nos. Aqui vale a pena assinalar outra vez que as chamadas "distrações", uma dificuldade com que todos deparamos, não passam de "pensamentos ou imaginações estranhas que nos impedem de manter a atenção naquilo que estamos fazendo" [2].

As agitações e preocupações corriqueiras são, por exemplo, uma fonte frequente de distrações e exigem, por isso, um esforço de nossa parte para que, procurando mergulhar mais a fundo em nós mesmos, possamos vencer essas primeiras barreiras e pôr-nos com serenidade aos pés de Nosso Senhor. Existe para tanto uma série de recursos como, entre outros, a leitura de um bom livro espiritual, a contemplação sossegada e amorosa do sacrário, o repouso da vista sobre alguma imagem santa, além de todos aqueles cuidados e precauções que constituem a chamada preparação remota para a oração: "silêncio, fuga da vã curiosidade, guarda dos sentidos, da imaginação e do coração", bem como o costume, útil em qualquer âmbito da vida, de "estar no que se está fazendo" [3].

Nisto a imaginação e a memória podem ser, até certo ponto, de grande ajuda. Recordar-se aos poucos, num colóquio íntimo com Cristo, de nossa última comunhão é um meio eficaz de encontrar aquele recolhimento interior de que tanto precisamos e abrir-se, assim, a que o Senhor nos vá amansando e iluminando com a sua graça. A nossa vida ordinária de oração, com efeito, tem de ser um esforço contínuo por reproduzir, na medida do possível, aquela união inefável que ocorre dentro de nós quando recebemos a Jesus Sacramentado, cujo Corpo, sacratíssimo, toca o nosso, repleto de lepra; cuja Alma, santíssima, se une à nossa, pobre e sem méritos; cujo Sangue, preciosíssimo, passa a fluir em nossas veias e alimentar o nosso coração. A consideração discursiva destas e de outras verdades espirituais, meditadas e saboreadas com calma e amor, nos predispõe a que a graça de Cristo mova nossa inteligência, sob o império da vontade, a crer com mais firmeza, ou seja, a ter um ato sobrenatural de fé, que assim vai lançando raízes mais profundas em nossa alma.

A repetição habitual deste santo exercício é um elemento tão indispensável à nossa vida de oração que se pode dizer, sem perigo de exagerar, que é nele e por meio dele que progredimos espiritualmente, pois, como diz São Paulo, a justiça de Deus se obtém pela fé e conduz à fé, pela qual vive cada vez mais intensamente o justo (cf. Rm 1, 17). "Temos de ver a Deus", concluamos com as palavras de um autor espiritual, "através do prisma da fé, sem levar em conta os vai-e-vens do nosso sentimento ou de nossas idéias caprichosas", porque só Ele "é sempre o mesmo, infinitamente bom e misericordioso, sem que alterem sua natureza as consolações ou a aridez que experimentamos na oração, os elogios ou as perseguições dos que nos rodeiam, os sucessos prósperos ou adversos de que se componha nossa vida" [4].

Referências

  1. Cf. A. Royo Marín, Teología de la Perfección Cristiana. 2.ª ed., Madrid: BAC, 1955, p. 351s, n. 185.
  2. Id., p. 596, n. 373.
  3. Id., p. 567, n. 373.
  4. Id., p. 441, n. 238.
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