15. O ato de fé (I)

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Um dos erros mais recorrentes em nossa vida de oração é tomar como parâmetros do amor de Deus os sentimentos que experimentamos ao rezar ou ao ouvir, por exemplo, uma pregação bem feita.

O essencial de uma vida interior fecunda e verdadeira, no entanto, reside não nas consolações que às vezes sentimos, mas naquilo que denominamos "ato de fé": uma iluminação interior que, à margem de qualquer sensação física, nos impulsiona a responder efetivamente ao amor que Deus manifestou por nós em seu Filho bem-amado.

É sobre isto que falaremos neste novo capítulo do programa "Direção Espiritual".


A virtude teologal da fé, infundida livremente (cf. Ef 2, 8) por Deus em nossas almas no dia do nosso Batismo, opera em nós como princípio de vida eterna, que está reservada aos que, tendo perseverado até o fim, forem admitidos à glória do Céu; a fé, nesse sentido, é um dom semeado em nossos corações como uma pequena semente de vida que, como tal, precisa ser continuamente cultivada, a fim de tornar-se aquele arbusto, maior do que todas as hortaliças, em cujos ramos as aves do céu podem vir aninhar-se (cf. Mt 13, 31s; Mc 4, 30ss). Tomada da parábola do grão de mostarda, esta singela imagem evangélica põe de manifesto que, para vivermos em plenitude nossa vocação de filhos de Deus, membros de Cristo e da Igreja (cf. Ef 3, 17; 4, 4s), não nos basta ter fé, senão que é imprescindível vivermos de fé [1], como diz o Apóstolo (cf. Rm 1, 17; Hab 2, 4); daí, pois, a necessidade de integrarmos em nossa vida espiritual a prática constante do chamado ato de fé.

A importância deste ponto talvez fique mais clara se tivermos em mente as seguintes palavras dirigidas a Pedro, depois de ele ter confessado que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus vivo: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas o meu Pai, que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16, 17s). Além de dirigir-se especificamente ao príncipe dos Apóstolos enquanto fundamento visível da Igreja, aqui Jesus também nos declara a todos que é pelo ato de fé que a mesma Igreja se vai edificando, pois é por meio dele que nos incorporamos a Cristo e ao seu Corpo Místico cada vez mais intimamente. Princípio de justificação e raiz de toda santidade, a fé nos é concedida como virtude e, por essa razão, só poderá desenvolver-se, amadurecer e alimentar nosso espírito se for efetivamente exercitada numa vida de oração e de meditação das verdades reveladas.

O ato de fé, no entanto, ao contrário do que talvez se possa pensar, não é algo raro, reservado a certas almas já muito adiantadas, mas uma experiência de certa maneira comum e, poderíamos dizer, acessível a todos os fiéis que participam assiduamente dos sacramentos e vivem de acordo com o Evangelho e os ensinamentos da Igreja. O ato de fé a que nos referimos consiste, de modo sumário, numa atuação da graça divina que (a) ilumina nossa inteligência a respeito de uma verdade sobrenatural em que já cremos e (b) move nossa vontade a amar mais a Deus, que "não se conforma com uma fé inoperante" [2]: "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus" (Mt 7, 21); trata-se, portanto, de um conhecimento que, firmando-nos ainda mais na fé que já possuímos, nos convida a um amor mais intenso e generoso.

A dificuldade de nos darmos conta de que Deus, por sua bondade e misericórdia, nos ajudou a ter um ato deste tipo e a crescer espiritualmente se deve a que tal fenômeno costuma vir acompanhado de uma série de outras experiências marginais — como, por exemplo, as consolações — que muitas vezes se "sobrepõem" ao essencial e podem, inclusive, induzir-nos a pensar que são elas, e não o ato de fé, o que torna proveitosa e eficaz nossa vida de oração. É como se alguém julgasse que a alimentação consiste não nos processos nutritivos que, à margem de qualquer controle e percepção, ocorrem dentro do nosso sistema digestivo, mas na sensação de prazer e saciedade que, de modo geral, costuma estar vinculada ao ato de comer. Por isso, no nosso trato com Deus por meio da oração e meditação diárias, temos de buscar não as emoções, a consolação sensível, as considerações poéticas ou cultas, mas antes ser iluminados por Ele num ato de fé, a fim de nos dispormos a amá-lO com mais perfeição, numa vida de pleno cumprimento dos Mandamentos, de sacrifício e, sobretudo, de verdadeira caridade fraterna.

Os nossos sentimentos e sensações, embora sejam parte constitutiva do nosso modo humano de ser e não possam ser simplesmente "extirpadas" de nossa vida — o que seria, ademais, contrário à natureza —, não pertencem à nossa dimensão propriamente espiritual, senão que se encontram vinculadas de modo mais estreito ao corpo e às reações orgânicas que Deus pode, quando assim o quiser, associar a certas moções da sua graça; não devem, por conseguinte, ser tomados nem como sinais nem tampouco como critérios determinantes de uma oração bem feita ou bem aproveitada, ou mesmo de uma vida interior verdadeira. Viver de fé e com espírito de fé, com efeito, não significa ter tal ou qual experiência ou sentimento, mas viver habitualmente com Deus, como quem convive com um amigo, quer sejam áridos e amargos, quer sejam doces e consoladores os momentos em nos pomos a seus pés. Temos de procurar a intimidade com Cristo ressuscitado para que Ele nos alimente não com pão material, que sacia os sentidos, mas com o pão de sua graça e palavra, que alimenta nossa alma sobretudo no silêncio.

Referências

  1. Cf. A. Royo Marín. Espiritualidad de los Seglares. Madrid: BAC, 1967, pp. 285-286, n 182.
  2. Id., p. 288, n. 183.

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