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Nós, católicos, cremos na existência do Purgatório. Essa verdade de fé foi definida expressamente pelo Concílio de Trento [1], em resposta à controvérsia com Lutero e os protestantes. Antes disso, porém, tal doutrina já era crida pelos primeiros cristãos, que tinham em comum a prática de rezar pelos mortos [2].

O que devemos esclarecer agora é o que a Igreja pretende orando pelos fiéis defuntos, uma vez que a sentença do juízo particular já é emitida por Deus logo após a morte da pessoa, e nenhuma oração pode alterá-la: ou a alma é salva, ou ela é condenada. 

Para compreender tal realidade, é necessário recordar que a alma em pecado mortal possui dentro de si uma inimizade contra Deus, um ódio contra seu Criador, de tal modo que, morrendo nessa condição, ela está destinada à condenação eterna. Já a alma que morre em estado de graça, justamente porque ama a Deus, recebe a salvação eterna. Porém, entre as almas que já estão salvas eternamente, são raras aquelas que vão direto para o Céu; a maior parte precisa ainda ser purificada no fogo santificador, como nos mostram também diversas revelações privadas [3].

Quando, então, rezamos pelas almas dos fiéis defuntos, não buscamos a salvação delas, pois já estão salvas, mas a supressão de suas penas no Purgatório, uma vez que estas almas não fizeram a devida reparação de seus pecados no tempo desta vida.

Ora, essa realidade escatológica pode também ser inferida por dedução teológica. Consideremos que o pecado gera desordens espirituais, que precisam ser sanadas, a fim de que a alma se apresente de forma íntegra e irrepreensível diante de Deus. No caso de um pecado mortal, por exemplo, ocorre na alma uma dupla desordem: i) a revolta, ou desprezo, contra Deus; e ii) o apego desordenado às criaturas, que são colocadas no lugar de Deus.

Essas desordens são objeto tanto de uma punição, ou pena, quanto de uma reparação. No caso da primeira desordem, da revolta contra Deus, sua pena é a condenação eterna e sua reparação foi realizada pela morte de Cristo na cruz. O perdão dessa pena é concedido por meio do Batismo ou da Confissão. Já o apego desordenado às criaturas possui uma pena temporal, que, se não for paga nesta vida terrena, deve sê-lo no Purgatório, onde também se realiza a reparação da referida desordem. Em outras palavras, as almas padecem no Purgatório a fim de pagar a pena temporal devida por seu apego desordenado às criaturas, bem como para reordenar as desordens geradas pelo pecado.

Nessa perspectiva, quem não acredita no Purgatório — além de abandonar a fé católica e incorrer em heresia — é, na verdade, alguém que não crê na santidade, como fez Lutero. Acerca disso, o frei Reginald Garrigou-Lagrange relata, na obra O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma, um diálogo bastante esclarecedor que teve com um luterano, o qual estava prestes a se tornar católico:

“Como Lutero pôde chegar a esta conclusão que só a fé nos méritos de Cristo basta para a salvação e que não é necessário observar os preceitos, nem mesmo os preceitos do amor a Deus e ao próximo?” — Ele me respondeu: “É muito simples.” — “Como muito simples?” — “Sim, é diabólico”, acrescentou. — “Eu não teria ousado vos dizer, lhe respondi, mas como vós sois luterano?”. — “Na minha família, me disse, nós o somos de pai para filho, mas em breve entrarei na Igreja Católica” [4].

Evidentemente, presumir que o amor é inalcançável; que a santidade é impossível; e que a fé por si mesma é suficiente para a salvação; enfim, essas atitudes todas constituem uma síntese de distorções diabólicas que, historicamente, foram defendidas pelos protestantes. Tais ideias são tão absurdas quanto incongruentes, pois, afinal, como poderia o cristianismo ser a religião do amor se os cristãos mesmos não precisassem amar a Deus e ao próximo? 

Do mesmo modo, é absurdo pensar que nossos pecados cometidos não necessitam de reparação, e que, ao contrário, são facilmente sanados por uma “fé” — ou aquilo que os protestantes consideram como fé — que seja mais intensa que os pecados, como afirmou Lutero em carta a Melanchthon: “Esto peccator et pecca fortiter, sed fortius fide et gaude in Christo — Seja pecador e peque fortemente, mas creia e se alegre mais fortemente ainda em Cristo” [5].

Diferentemente dos protestantes, nós, católicos, cremos que nossos pecados, mesmo tendo sido perdoados, precisam ter suas desordens reparadas. Tal reparação, ou satisfação, já pode iniciar-se nesta vida terrena, por meio das penitências (jejuar, orar, fazer atos de caridade e aceitar os sofrimentos por amor); da participação e Comunhão na Santa Missa; do sacramento da Confissão recebido com profunda contrição; e da satisfação realizada na comunhão dos santos, por aqueles que, ainda em vida, ofereceram sacrifícios pela nossa conversão.

Se, em vida, uma pessoa não fizer a reparação necessária pelas consequências dos seus pecados, ela precisará fazê-la, depois da morte, por meio dos padecimentos do Purgatório, que são infinitamente maiores do que qualquer pena deste mundo. Santa Catarina de Gênova afirma, em seu Tratado do Purgatório, que não há palavras para descrever as penas desse lugar, que, em termos de sofrimento, assemelham-se às penas do Inferno, exceto pelo fato de que, no Purgatório, as almas já estão salvas. Justamente por isso, as almas padecentes nutrem profundamente a fé, a esperança e a caridade, na expectativa de ver a Deus face a face; e o fato de não poderem vê-lo, de imediato, aumenta ainda mais os seus sofrimentos. Além desse adiamento da visão beatífica, no Purgatório, também ocorre a pena dos sentidos, enquanto fogo purificador que atua como um instrumento da justiça divina.

Nesse contexto, é necessário destacar que — além de suportar os sofrimentos — as almas do Purgatório não podem fazer mais nada para sair desta situação. Nós, porém, podemos colaborar para sua libertação e entrada no Céu, por meio de nossas obras, orações e indulgências. Desse modo — ao realizar esse caridoso ato de sufragar as almas do Purgatório — estamos também, de forma indireta, reparando os nossos pecados pessoais.

São obras que podemos realizar em prol dessas almas sofredoras: jejum, penitência, esmola, aceitação resignada das contrariedades da vida e outros sacrifícios. Além desses atos, também podemos oferecer nossa participação nos sacramentos, por exemplo, pedindo pelas almas do Purgatório nas intenções da Santa Missa e recebendo a Comunhão Eucarística em sufrágio dos fiéis defuntos. Igualmente, podemos oferecer sacramentais e orações nessa intenção. Temos enfim as indulgências, especialmente as que podem ser oferecidas nestes oito dias iniciais do mês de novembro, que constituem o tesouro da satisfação que Nosso Senhor Jesus Cristo ofereceu na Cruz, juntamente com os santos que se uniram a Ele, e que a Igreja possibilita que ofereçamos pela libertação das almas do Purgatório.  

Esses são os instrumentos que Deus nos deixou, na sua infinita sabedoria, a fim de que participássemos da satisfação dos pecados e do sufrágio das almas dos fiéis defuntos. Tal necessidade de participação é ratificada por Nossa Senhora em Fátima, ao ensinar os três pastorinhos a rezarem pela conversão dos pecadores e pelas almas: “Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o Céu e socorrei principalmente aquelas que mais precisarem”. Nesse sentido, é relevante que rezemos também pelas almas que foram esquecidas e pelas quais ninguém reza. Desta forma, estaremos nos unindo a Deus na sua obra de salvação, participando do seu amor, da sua misericórdia e da sua justiça.

Cabe esclarecer, ainda, àqueles que se consagraram a Nossa Senhora pelo método de São Luís Maria Grignion de Montfort, que os méritos e as satisfações são oferecidos a fim de que ela disponha deles conforme a sua vontade [6]. Todas as ações que os consagrados realizamos para satisfazer as penas das almas dos fiéis defuntos, nós as já as entregamos a Maria, pois ela sabe, melhor do que nós, a quem aplicá-las. Ainda assim, os consagrados podem rezar e oferecer-se pela alma de uma pessoa específica, em dois casos: i) quando é sua obrigação de ofício, no caso de um padre, por exemplo; ii) ou sugerindo a Nossa Senhora que aplique as satisfações à alma de alguém em particular, deixando a ela, contudo, o encargo da decisão.

Recomendações

Notas

  1. Cf. Concílio de Trento, s. XXV (DH 1820).
  2. Como atesta o Catecismo da Igreja: “Este ensinamento baseia-se também sobre a prática da oração pelos defuntos de que já fala a Escritura Sagrada: ‘Eis porque Judas Macabeu mandou oferecer este sacrifício expiatório em prol dos mortos, a fim de que fossem purificados de seu pecado’ (2Mac 12,46). Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em favor dos mesmos, particularmente o sacrifício eucarístico (DH 856), a fim de que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos” (§1032).
  3. Entre essas revelações, podemos destacar os relatos de Santa Teresa d’Ávila, no Livro da Vida: “Como tenho dito, não há porquê (continuar os relatos de almas que passaram pelo purgatório), embora sejam muitas as que o Senhor me tem feito mercê que veja. Mas, de todas as que tenho visto, não tenho entendido deixar nenhuma alma de entrar no Purgatório se não a deste Padre e a de santo Frei Pedro de Alcântara e a do Padre Dominicano de que falei” (c. 38, n. 32).
  4. Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, O homem e a eternidade: a vida eterna e a profundidade da alma, Campinas: Ecclesiae, 2018, p. 186.
  5. Carta de Martinho Lutero a Felipe Melanchthon, 1521.
  6. Cf. São Luís M.ª G. de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 39.ª ed., Petrópolis: Vozes, 2009, n. 121-124.
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