O divórcio e a cultura do descarte
CNP
Christo Nihil Præponere"A nada dar mais valor do que a Cristo"
Todos os direitos reservados a padrepauloricardo.org®

O divórcio e a cultura do descarte

A graça sacramental recebida no matrimônio cristão confere aos esposos a força necessária para cumprirem seu compromisso de fidelidade e mostrarem ao mundo a beleza das uniões castas e santas dos discípulos de Cristo.

Texto do episódio

Texto do episódio

imprimir

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 10,2-16)

Naquele tempo, alguns fariseus se aproximaram de Jesus. Para pô-lo à prova, perguntaram se era permitido ao homem divorciar-se de sua mulher.

Jesus perguntou: “O que Moisés vos ordenou?”

Os fariseus responderam: “Moisés permitiu escrever uma certidão de divórcio e despedi-la”.

Jesus então disse: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos escreveu este mandamento. No entanto, desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe!”

Em casa, os discípulos fizeram, novamente, perguntas sobre o mesmo assunto. Jesus respondeu: “Quem se divorciar de sua mulher e casar com outra, cometerá adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar de seu marido e se casar com outro, cometerá adultério”.

Depois disso, traziam crianças para que Jesus as tocasse. Mas os discípulos as repreendiam. Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: “Deixai vir a mim as crianças. Não as proibais, porque o Reino de Deus é dos que são como elas. Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. Ele abraçava as crianças e as abençoava, impondo-lhes as mãos.

I. Reflexão

Neste 27.º Domingo do Tempo Comum, a Igreja nos propõe o evangelho de São Marcos, c. 10, versículos 2–16, no qual Jesus fala a respeito do divórcio. Entendamos o contexto alargando um pouco o horizonte a partir da passagem paralela de São Mateus, c. 19.

Jesus foi para o outro lado do Jordão; de repente, apareceu uma multidão à sua procura. Os fariseus não estavam contentes com tal popularidade, por isso prepararam contra ele uma armadilha. É assim que começa o Evangelho: Os fariseus aproximaram-se de Jesus para o tentar, isto é, para o pôr à prova, e a tentação consiste numa pergunta sobre o divórcio.

Ora, por que os fariseus escolhem esse tema, e não outro? Por uma razão simples: eles eram a favor do divórcio e sabiam perfeitamente que a multidão também o era, enquanto Jesus se opunha à prática. A pergunta pretende forçá-lo a ensinar algo desagradável aos ouvidos populares, o que implicaria a ruína de sua pregação. 

Dito e feito. Foi o que aconteceu. Os fariseus perguntam-lhe se é permitido divorciar-se da mulher. Jesus é claro: não o é, e se Moisés o permitiu, foi a título de dispensa, por causa da dureza de vossos corações; mas, no princípio, não foi assim. E explica em seguida: Deus os fez homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e os dois serão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe. Só há, portanto, uma única causa de dissolução do casamento. Chama-se morte. Quem é viúvo pode casar-se novamente; mas, enquanto vive o cônjuge, a fidelidade às promessas estende-se até a morte.

Qual foi a reação do povo, ou — pior ainda — qual foi a reação dos discípulos ao receber essa notícia? O evangelho de São Marcos não o diz, mas o de São Mateus atesta que ficaram escandalizados e começaram a perguntar-se entre si: Se é essa a situação do homem e da mulher, então não vale a pena casar, e muitos começaram a abandoná-lo.

A estratégia funcionou. Os fariseus sabiam que Jesus era contra o divórcio; mas como o Senhor, Verdade encarnada, não podia mentir, preferiu ensinar o que é certo a contemporizar com o mundo para não perder adeptos. Suas palavras, no fundo, significam: “Vós quereis divorciar-vos porque sois duros de coração”, isto é, egoístas; “no princípio, porém, não era esse o desígnio de Deus”.

Essas palavras, ditas há cerca de dois mil anos, foram extremamente impopulares, e é importante tomar nota disso. Hoje em dia, há quem pense, inclusive dentro da Igreja, que vivemos em outros tempos, mais adiantados em relação às limitações e preconceitos do passado; logo, o catolicismo tem de adaptar-se o quanto antes às novas formas de pensar e viver. Se antigamente o divórcio era pecado, hoje não pode sê-lo mais; afinal, os tempos são outros… 

Nada disso. O divórcio sempre foi popular. Não é novidade do século XXI. E a razão é também muito simples: o casamento, cedo ou tarde, aperta, e aperta o quê? Aperta o egoísmo. Somos egoístas e duros de coração devido ao pecado original, ao passo que o casamento é como um banquinho estreito em que devem caber os dois, marido e mulher; se um for demasiado espaçoso, o outro cai no chão. O “problema” do casamento é que, para ele dar certo, nenhum dos dois pode ser espaçoso, senão que ambos devem acomodar-se pensando que o espaço não é de um só. O casamento é um desafio a vencer o egoísmo a que estamos quase naturalmente inclinados.

Que o divórcio seja ilícito em razão da perpetuidade do vínculo conjugal sempre foi uma ideia exigente e impopular; de fato, se tudo dependesse do egoísmo humano, sempre acharíamos um pretexto para “roer a corda” e adaptar a Lei natural à lei de pecado que há em nossos membros. Mas Jesus não cedeu jamais. Ele sempre ensinou a verdade porque é da verdade que vem a salvação.

Vejamos o resto da história. O que aconteceu depois de Jesus ter dito aquelas palavras tão exigentes? Ele morreu na Cruz, ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e enviou o Espírito Santo para dar aos casados a graça de viverem sua vocação. O sacramento do matrimônio está, pois, fundamentado no dom do Espírito Santo, na graça de estado que Deus põe à disposição dos casados para serem fiéis às suas promessas.

Isso não é pura teologia. É um fato histórico. Com efeito, a difusão do cristianismo nos primeiros séculos representou uma verdadeira revolução na vida familiar. O sociólogo Rodney Stark, por exemplo, constatou que um dos fatores que tornaram o cristianismo atrativo e contribuíram para a sua difusão no Império Romano foi justamente o bom trato que recebiam as mulheres nas famílias católicas.

Era portanto natural que as mulheres fossem as primeiras interessadas em evangelizar os maridos. Na família pagã, o paterfamilias tinha poder de vida e morte sobre mulher, filhos e escravos; os maus-tratos eram frequentes e o divórcio, sobretudo nas épocas de decadência, uma constante. Na família cristã, pelo contrário, o homem não se julgava “proprietário” da mulher; apesar das fraquezas humanas, a regra era a fidelidade, o carinho, o amor e o respeito mútuos.

A lenta e gradual cristianização da família desencadeou um processo orgânico e quase espontâneo — na verdade, promovido e guiado pelo Espírito Santo — de cristianização de toda a sociedade romana. Para usar a linguagem em voga, embora seja pouco adequada, poderíamos dizer que a Igreja foi criando aos poucos uma “massa crítica” de pessoas conscientes da natureza, do valor e dos deveres da família humana, sobrenaturalizada agora pela graça sacramental, e por consequência das relações sociais entre as famílias.

Afinal, a primeira experiência de família cristã, que depois se reproduziria nos lares, era a da vida comunitária: os fiéis, leigos e presbíteros, sabiam e sentiam-se filhos espirituais de seu bispo, de quem recebiam o pasto da doutrina e dos sacramentos. Os lares tornaram-se cristãos porque foi a Igreja, família divino-humana, a que primeiro mostrou o que significa ser família — fidelidade e sujeição por amor a Jesus Cristo. Eis por que, com o passar dos séculos, o divórcio tornou-se inconcebível; se o matrimônio é como certa imagem da união entre Cristo e a Igreja, admitir o divórcio é admitir que Cristo pode separar-se da Igreja, ou a Igreja de Cristo.

A situação só mudou de figura com uma desgraça chamada renascimento. Mas renascimento de quê? Do paganismo. Por uma série de circunstâncias que não convém explicar aqui, foi-se difundido pela Europa um interesse crescente pelo mundo antigo, pela sociedade e a cultura pagãs; numa palavra, pelos gregos e romanos antes da vinda de Cristo.

Esse interesse, porém, não ficou confinado na esfera teórica de humanistas e eruditos, mas expandiu-se — como, de resto, não poderia deixar de acontecer — também aos costumes, até finalmente substituir, como uma “nova” cultura, o ethos cristão construído pela Igreja ao longo de catorze séculos.

Resultado? O adultério virou moda; o divórcio, apesar das naturais resistências, foi-se normalizando a conta-gotas; e até o homossexualismo passou a tolerar-se, ao menos entre os magnates. A sociedade, antes cristã, precipitou-se de abismo em abismo, até chegar ao ponto em que a vemos hoje, pouco ou nada distinta de uma Roma moralmente decadente.

No fundo, foi a repaganização da sociedade, e não sua cristianização e subordinação ao poder espiritual da Igreja, a responsável pelo machismo que muitos querem pôr na conta dos católicos. O que a Igreja conseguira, com esforço continuado, arrancar dos lares — o desprezo à mulher e às crianças, os direitos plenipotenciários do paterfamilias, a imoralidade sexual etc. — voltou a entrar pela janela em pouco tempo graças ao renascimento do espírito pagão.

Mas as coisas não param por aí. Desde há uns trezentos anos, com a revolução industrial, estamos atravessando uma nova fase, talvez a mais terrível, do processo de destruição da família. Hoje, tudo é descartável, inclusive as pessoas. Não se dá mais valor algum ao compromisso, às promessas, ao juramento; se algo ou alguém não vale a pena em termos econômicos, vai para o lixo! 

O cristiansimo conseguira dar alma de família até mesmo às empresas, isto é, às antigas corporações de ofício e aos pequenos empreendimentos pré-revolução industrial. Era comum que os empregados trabalhassem a vida toda em uma só empresa e contassem com a ajuda do patrão, ainda que ficassem aleijados por algum acidente. O empregado era um alguém, não uma Carteira de Trabalho. O mesmo se diga dos criados, como o próprio nome o indica. O criado não era um “escravo doméstico”, ou um agregado de segunda categoria; mas alguém que, por motivos vários, era assumido pela família para ser criado, isto é, acolhido e educado.

A partir da revolução industrial, no que se converteu o empregado? Em força de trabalho descartável segundo as conveniências do mercado. Você trabalha numa empresa? Ótimo. E quem é você? Ali, você não é membro de uma família, mas um CPF entre muitos. Não estão satisfeitos com o seu trabalho? Rua!

Essa mentalidade do descarte, que hoje impera nas empresas, invadiu outras instituições, inclusive a família. Por isso a moda do momento é dizer: “A Igreja Católica, fossilizada em tradições obsoletas, só aceita um modelo de família, patriarcal e impositivo; mas eu sou mente aberta: quero que todos tenham família, independentemente do arranjo. O importante é o amor”.

Ora, o problema é que os novos e pretensos “modelos” de família não são família. Por quê? Porque se há uma nota que os define é justamente a prescindibilidade da pessoa. Afinal de contas, entre os defensores das “novas famílias” não se ouvem muitas vozes (se é que há alguma) defendendo também a indissolubilidade desses vínculos; na verdade, o que caracteriza tais vínculos é que eles não vinculam ninguém a nada. As “novas famílias” só são “novas” porque, em última análise, não são família. Como se pode chamar família a um agrupamento de pessoas que se define pela ausência de papéis estáveis e pela possibilidade de excluir à vontade qualquer um de seus membros?

Mas se existe uma característica fundamental da família é que eu não sou descartável, não sou um elemento quase acessório, com o qual ou sem o qual tudo fica igual. Meu pai será meu pai para sempre, mesmo depois de morto; isso não é descartável. Minha mãe será minha mãe para sempre, mesmo depois de morta; isso não é descartável. Minha falecida irmã será minha irmã para sempre, mesmo já tendo morrido; isso não é descartável. Esses laços, uma vez estabelecidos, não serão desfeitos nunca e, entre os esposos, duram enquanto viverem os dois. Isso é família

No entanto, nas “novas famílias”, sem excluir as que ainda preservam a estrutura familiar natural, nada é para sempre, mas dura enquanto durar… a vontade de que dure! Os cônjuges são descartáveis, e por isso se divorciam; os filhos são descartáveis, e por isso são evitados, abortados ou “terceirizados” à escola e à TV. Não há aliança. O outro pode ser jogado no lixo a qualquer momento, porque todos têm o “direito” de buscar a felicidade (inclusive deixando à margem os deveres assumidos). O casamento deixou faz tempo de ser dois amores que se unem, para se tornar dois egoísmos que se usam. Como diz o malfadado poema: “O amor é eterno enquanto dura”. Mas não é amor, se tem prazo de validade!

Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus de amor, sim, mas de um amor exigente porque verdadeiro. E a exigência do amor é a de uma aliança firmada entre pessoas que se comprometem a amar-se incondicionalmente. Opor-se ao divórcio é opor-se à cultura do descarte, a uma cultura de coração duro. Família é coisa boa, o que não quer dizer que não doa. Sim, família dói. Por quê? Porque família é compromisso. 

Em palestras para jovens, costumo ver muitos namorados sentados juntos, de mãozinhas dadas etc., então faço com eles uma pequena experiência: “Pensem naquela pessoa por quem, com certeza, vocês sabem que foram amados”. É curioso, mas ninguém nunca pensa no namorado. Na verdade, em 99% dos casos as pessoas pensam na própria mãe. “Sabem por que vocês pensaram na mãe?”, prossigo. “Porque sabem o quanto ela já sofreu por vocês”. Pode ser que alguém seja órfão de mãe, vá lá; uma coisa, porém, é certa: se essa pessoa foi amada, é porque alguém não se negou a sofrer pelo bem dela. A certeza de que sou amado está em saber que o outro pagou por mim o preço do amor.

É isso. Temos de estar dispostos a pagar o preço do amor. Jesus Cristo, Deus Filho feito carne, foi o primeiro a pagá-lo morrendo por nós na Cruz, sem jamais romper a fidelidade à Igreja que nasceria de seu lado aberto. Ora, como temos nós a pretensão de ser filhos de um Deus assim, se fazemos o contrário do que Ele mesmo fez? Será possível ter uma aliança com Deus, e não tê-la com ninguém mais porque não se querer derramar pelo outro, não digo já o sangue, mas nem uma gota sequer de suor?

Ninguém nasceu para ser descartado. Fomos criados para ser um dia familiares de Deus no céu, concidadãos dos santos, membros da grande família que é a Jerusalém celeste. Exorcizemos de nós o espírito de descarte e assumamos nossas alianças de amor, biológicas e espirituais. A doutrina de Cristo nunca, de fato, foi popular. E o cristão — perguntamos enfim — deve buscar os aplausos do mundo ou a Verdade que salva e liberta do egoísmo?

II. Comentário exegético

A indissolubilidade do matrimônio (cf. Mt 19,3-9; Mc 10,2-12). — V. 3-6. Os fariseus, como se lê em todo o Evangelho, aproveitavam qualquer ocasião para acusar Jesus. Movidos assim por esta má disposição, vêm até Ele para lhe propor uma questão discutida naquele tempo: É permitido ao homem despedir sua esposa por qualquer motivo (κατὰ πᾶσαν αἰτίαν)? — Cristo se cala sobre as causas de divórcio discutidas pelos rabinos, mas reconduz o problema às origens do matrimônio, para iluminá-lo à luz que emana deste princípio: O Criador, desde o início, os fez varão e mulher (cf. Gn 1,27), i.e. se Deus quisesse que um varão tivesse várias mulheres, de modo que, despedida uma, pudesse escolher outra, não teria criado no início só uma, mas várias mulheres. — E disse o Espírito Santo por boca de Adão (cf. Gn 2,24): Por isso, o varão deixará pai e mãe, e se unirá (κολληθήσεται = se aglutinará) à sua mulher, e os dois (οἱ δύο) serão uma só carne (εἰς σάρκα μίαν), i.e. um só homem perfeito [1] ou, simplesmente, uma única carne, um único corpo (ἓν σῶμά, cf. 1Cor 6,16); para alguns, a carne em que o varão e a mulher se unem é o filho por eles gerado. — Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe [2]. Maldonado observa que o Senhor não diz “os que (quos) Deus uniu”, mas “o que (quod) Deus uniu”, como se quisesse ressaltar que se trata não já de dois, mas de um só corpo.

V. 7s. Objetam-lhe os fariseus a licença de divórcio sancionada por Moisés (cf. Dt 24,1); mas Cristo responde: Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração (πρὸς τὴν σκληροκαρδίαν ὑμῶν), mas não foi assim desde o início, i.e. essa permissão não corresponde à instituição originária do casamento. Donde se pode concluir que Deus, na Antiga Aliança, fora indulgente com a debilidade dos judeus, tendo-lhes dado uma dispensa relativa do preceito natural de indissolubilidade do matrimônio, que na Nova volta a ter pleno valor e, portanto, a excluir toda e qualquer exceção. De que modo e em que circunstâncias era lícito aos judeus escrever um libelo de repúdio, consultem-se os teólogos (e.g. Santo Tomás de Aquino, Suppl. 67).

A excelência da virgindade (cf. Mt 19,10ss).Os discípulos disseram a Jesus: Se a situação (ἡ αἰτία) do homem com a mulher é assim, i.e. se é sob tais condições que o homem deve tomar a mulher em casamento, de forma que, mesmo em caso de adultério, não possa nunca rejeitá-la para unir-se a outra (cf. v. 9), então não vale a pena casar-se (γαμῆσαι). Note-se que esta fala dos discípulos confirma a interpretação católica: com efeito, se o Mestre tivesse permitido o divórcio em caso de adultério, os discípulos não teriam por que se admirar, pois esta era a doutrina da escola Shammai; cf. abaixo Excurso sobre o divórcio.

V. 11. O que Cristo parece responder é que os discípulos disseram mais do que talvez tenham compreendido de fato, por isso começa a falar da virgindade de modo um tanto velado. Nem todos são capazes de entender isso, i.e. nem todos conseguem compreender e viver o que acabastes de dizer: Não vale a pena casar-se (ou, talvez, a doutrina enunciada no v. 9, ou a que se dirá logo em seguida no v. 12), mas apenas aqueles a quem é concedido (δέδοται) por Deus, i.e. os que foram chamados por Deus à virgindade.

V. 12. Com um sermão parabólico louva a virgindade. Os eunucos, quer por natureza, quer por violência própria ou alheia, não podem contrair matrimônio; assim, também são eunucos os que se fizeram incapazes (metaforicamente = os que se castram, não fisicamente, mas na raiz mesma da concupiscência) disso por causa do reino dos céus, i.e. que se abstêm do matrimônio tanto quanto os outros, mas para agradar a Deus (cf. 1Cor 7,32-36). Os autores católicos afirmam unanimemente que o sermão se refere à castidade cristã e, mais ainda, ao estado de virgindade perpétua selado por voto. — Que nestas palavras haja uma doutrina escondida e de máxima importância, também se pode inferi-lo da advertência final: Quem puder entender, entenda, i.e. deixo estas palavras à consideração de cada qual. Com semelhante expressão costumava Cristo concluir suas parábolas: Quem tem ouvidos, ouça (cf. Mt 11,15; 13,9.43 etc.). — “É como a voz de um senhor a exortar e conclamar os soldados ao prêmio da castidade… quem puder lutar, que lute, vença e triunfe” (São Jerônimo).

III. Excurso sobre o divórcio

A Antiga Lei (cf. Dt 24,1) permitia aos judeus despedir a esposa sem qualquer processo, mas somente com causa e sob condição; à mulher, sem embargo, nunca era permitido despedir o marido. — A causa era: Não a achar agradável diante de seus olhos por qualquer coisa inconveniente (lt. propter aliquam fœditatem). A interpretação desta cláusula variou entre os judeus, pois a locução em hebr. (‘erwat dābhār) é indeterminada e significa ao pé da letra “por causa da nudez de alguma coisa”, i.e. em razão de alguma indecência ou indignidade, que poderia ser moral (e.g. impudicícia) ou física (e.g. um defeito corporal). No tempo de Cristo, a escola rabínica Shammai, interpretando essas palavras em sentido moral estrito, ensinava que somente em caso de adultério seria lícito o repúdio; a escola Hillel, por outro lado, pervertendo o sentido da Lei, opinava que a mulher poderia ser despedida por qualquer motivo.

A condição era: Escreverá (o marido) um libelo, i.e. uma escritura oficial de repúdio, lho dará na mão e a despedirá da sua casa. O Senhor afirma que este costume é contrário à legislação do princípio, i.e. à instituição originária do matrimônio, e só foi permitido ao judeus por causa da dureza de seus corações. Agora, Cristo não só restitui o casamento à sua antiga dignidade como também o aperfeiçoa, dando-lhe a condição de sacramento da Nova Lei.

Em Mt 5,31s (cf. Mc 10,11s; Lc 16,18), o Senhor proíbe três coisas: a) despedir a esposa sem justa causa, i.e. por outro motivo que não seja adultério; b) atentar um novo matrimônio enquanto ainda vive a legítima esposa (Mc. e Lc.); c) tomar em casamento a esposa de outro, despedida pelo legítimo marido. Todo aquele que repudiar sua mulher, expõe-na ao adultério, i.e. a faz objeto de adultério (gr. ποιεῖ αὐτὴν μοιχευθῆναι), e o que desposar a repudiada comete adultério (gr. μοιχᾶται). Logo, a palavra que se lê no Evangelho (lt. dimittere; gr. ἀπολύειν; pt. despedir, rejeitar etc.) não significa a dissolução do vínculo conjugal, mas a separação de cama e mesa (tori et mensæ), também chamada separação de corpos.

São motivo de certa dificuldade as palavras παρεκτὸς λόγου πορνείας em Mt 5,31: exceto por causa de fornicação, que em Mt 19,9 têm como equivalentes: μὴ ἐπὶ πορνείᾳ (lt. nisi ob fornicationem, que na Vg supõe em gr. εἰ μὴ ἐπὶ π., leitura hoje rejeitada pela crítica). Ora, isso parece abrir uma exceção à lei, como se a fornicação da esposa fosse causa para a despedir e, além disso, casar-se com outra, o que é manifestamente contrário à doutrina católica sobre a indissolubilidade do matrimônio (cf. Concílio de Trento, Sess. 24, cân. 7: DH 1807 = D 977).

N.B. — Pouco importa que se interprete πορνεία como “adultério” ou “fornicação”, já que a palavra significa, em sentido amplo, qualquer imoralidade sexual e, nesse contexto, qualquer ato contra a fidelidade conjugal: de fato, não é possível a uma pessoa legitimamente casada cometer pecado de fornicação sem incorrer eo ipso em adultério.

a) Não poucos autores pensam que a expressão πορνεία, aqui como em outros lugares (cf. 1Cor 5,1), significa não a simples fornicação, mas a união ilegítima ou mesmo incestuosa. O sentido, portanto, seria: Todo aquele que repudiar sua esposa, menos em caso de união concubinária, ou incestuosa, comete adultério etc. O princípio está correto, mas a interpretação não concorda com o texto: em Mt 5,32 e 19,9, com efeito, o Senhor fala dos que estão unidos por verdadeiro matrimônio. 

b) Outros, como Santo Agostinho (cf. de coniu. adult. i 9: M 40,456), interpretam παρεκτός não como “exceto”, “a não ser” ou “menos em”, mas “à parte”, “excluso”, “posto de lado”, como se Cristo dissesse: Omitindo o caso de fornicação, sobre o qual penso que nada se deve dizer agora, todo aquele que repudiar sua esposa e desposar outra comete adultério. Logo, aquelas palavras deveriam ser interpretadas em sentido negativo, e não exceptivo. O mesmo vale para Mt 19,9: Todo aquele que repudiar sua esposa, não por causa de fornicação, e desposar outra comete adultério. Logo, como diz Caetano, “este texto não contém toda a lei do Novo Testamento” sobre o matrimônio, senão que devem consultar-se trechos complementares (cf. Mc 19,2-12; Lc 16,18; 1Cor 7, 10s.39).

c) A maioria dos autores, com São Jerônimo (cf. in Matt. 19,9) e Santo Tomás de Aquino [3], interpreta aquelas palavras em sentido óbvio e natural, referindo a restrição: exceto em caso de fornicação, somente ao primeiro membro da oração (i.e. ao ato de despedir ou rejeitar), e não ao segundo (i.e. ao ato de desposar), de modo que o sentido pretendido por Cristo é: Todo aquele que repudia sua mulher (posto a salvo o vínculo matrimonial), o que não é lícito a menos que ela cometa adultério, e desposa uma outra, comete adultério. E aquele que desposa uma rejeitada (gr. ἀπολελυμένην, i.e. uma despedida por qualquer razão, inclusive em caso de fornicação), comete também adultério.

Em outras palavras: Não é lícito despedir o cônjuge, exceto no caso de ele cometer adultério; mas, mesmo nesta hipótese, não é lícito contrair novas núpcias. Se, portanto, alguém contrair outro matrimônio enquanto ainda vive a parte adúltera, também comete adultério.

Referências

  1. Embora tanto no varão quanto na mulher se dê perfeitamente a mesma natureza humana, os dons e virtualidades nela contidos se distribuem parcialmente entre eles, razão por que a unidade moral e quasi-física constituída pelo casal se pode comparar a um “homem perfeito” (homo perfectus), no qual se unem as perfeições peculiares de ambos os sexos.
  2. Nestas citações de Cristo pode ver-se uma confirmação indireta, fundada no testemunho do próprio Senhor, a) do caráter histórico do Gênesis (e, portanto, da unicidade da linhagem humana a partir de um primeiro casal), b) além da autoridade e inspiração divinas de pelo menos esse livro do Pentateuco.
  3. Cf. in IV Sent. dist. 35, q. 1, a. 5 ad 4: “Aquela exceção [exceto no caso de…, que está nas palavras do Senhor, se refere à demissão [lt. dimissio, i.e. ao ato de despedir ou afastar do convívio doméstico] da esposa”.
Material para Download
Texto do episódioMaterial para downloadComentários dos alunos

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie. Leia as perguntas mais frequentes para saber o que é impróprio ou ilegal.