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Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 9,1-8)

Naquele tempo, entrando em um barco, Jesus atravessou para a outra margem do lago e foi para a sua cidade. Apresentaram-lhe, então, um paralítico deitado numa cama. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Coragem, filho, os teus pecados estão perdoados!”

Então alguns mestres da Lei pensaram: “Esse homem está blasfemando!” Mas Jesus, conhecendo os pensamentos deles, disse: “Por que tendes esses maus pensamentos em vossos corações? O que é mais fácil, dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te e anda’?

Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar pecados, — disse, então, ao paralítico — “Levanta-te, pega a tua cama e vai para a tua casa”. O paralítico então se levantou, e foi para a sua casa. Vendo isso, a multidão ficou com medo e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens.

O Evangelho de hoje nos apresenta a cura de um paralítico. Como sabemos, os milagres de Cristo, além de fatos concretos registrados pelos evangelistas, são também, e sobretudo, sinais messiânicos.

Por meio da cura de doenças e outras mazelas, Jesus não quer satisfazer a curiosidade humana, tampouco abolir de uma vez para sempre os males físicos (cf. Lc 12,13s; Jo 18,36). O que deseja, ao contrário, é que contemplemos em suas obras uma ação mais profunda, que é a libertação “da mais grave das escravidões, a do pecado” (CIC 549). A erradicação definitiva das dores e dos sofrimentos que nos afligem só terá lugar no Fim dos Tempos, quando os corpos dos eleitos enfim ressuscitarem para a glória celeste (cf. Jo 5,29; 1Cor 15,22s). Entrementes, enquanto caminhamos na esperança, devemos renunciar a nós mesmos e, seguindo a ordem do Senhor, tomar dia após dia a nossa cruz (cf. Mt 16,24), “porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á” (Mt 16,25).

Firmes e constantes na verdadeira fé, não nos deixemos agitar pelo sopro de doutrinas falsas (cf. Ef 4,14) que querem fazer de Deus um “curandeiro” à disposição de nossos caprichos. “A vitória messiânica sobre a doença”, cumpre reafirmar, “não se realiza apenas eliminando-a com curas prodigiosas, mas também com o sofrimento voluntário e inocente de Cristo na sua Paixão, e dando a cada homem a possibilidade de se associar à mesma” (Instrução sobre as Orações para Alcançar a Cura I §1). Acolhamos com humildade os sofrimentos que o Senhor nos quiser enviar. Ele, embora sem pecado, não recusou sofrer por amor a nós. Redimindo-nos na cruz por sua dolorosíssima Paixão, redimiu também a própria dor, elevando-a “ao nível de redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, se podem tornar também participantes do sofrimento redentor de Cristo” (João Paulo II, Carta Apostólica “Salvifici Doloris”, §19). Imploremos, enfim, o auxílio de Maria, Mater dolorosa. Que ela nos ajude a trazer no coração as chagas de seu Filho, aos pés de cuja cruz devemos permanecer firmes e constantes.


* * *

Nome. — Os evangelistas empregam seis vocábulos distintos para se referir aos milagres de Cristo: 1.º “virtudes” (δυνάμεις, virtutes); 2.º “sinais” (σημεῖα, signa), i.e. argumentos [1] da missão divina de Cristo; 3.º “ações divinas” (ἔργα, opera; às vezes no sing. τὸ ἔργον, opus = a obra); 4.º “prodígios”, ou “portentos” (τέρατα, mirabilia); 5.º “maravilhas” (θαυμάσια); e 6.º “paradoxos” (παράδοξα, mirabilia), i.e. coisas surpreendentes, inesperadas etc.

Santo Tomás de Aquino explica a razão dessa variedade: “Nos milagres pode atender-se a duas coisas. (i) A primeira é aquilo que é feito, o qual é algo que excede a capacidade da natureza, e nesse sentido os milagres se chamam virtudes. (ii) A segunda é aquilo por causa do qual são feitos os milagres, a saber: para manifestar algo sobrenatural; e nesse sentido chamam-se comumente sinais. (iii) Mas em razão da excelência chamam-se portentos, ou prodígios, como se mostrassem algo distante” (STh II-II 178, 1 ad 3).

Natureza. — O milagre em geral define-se como “um efeito sensível superior à virtude da natureza criada, produzido por Deus à margem da ordem habitual da natureza [præter naturam]” (H. Herrmann, Instit. dogm. §76). 

NB — Se o milagre não fosse sensível, não poderia ser conhecido pelos homens nem, por consequência, causar neles admiração (miraculum vem de miror, -ari = admirar). Neste sentido, a transubstanciação e.g. não é milagre, por lhe faltar a primeira nota (ser perceptível aos sentidos), ainda que possua as outras duas (ser produzido por Deus acima da ordem natural).

Os milagres de Cristo são de um duplo gênero: 1.º alguns foram realizados nele, 2.º enquanto outros foram feitos por ele, em nome e por poder próprios, com o fim de manifestar sua divindade. Ao primeiro gênero pertencem (i) tanto o mistério da encarnação, o maior dos milagres ou, mais ainda, a suma e como que o compêndio de todas as maravilhas divinas, (ii) como todos os portentos que, seja no nascimento de Cristo, seja na inauguração de sua vida pública, seja enfim na ressurreição e ascensão e nos demais mistérios da vida do Senhor, foram feitos por virtude divina. — Nós aqui tratamos unicamente dos milagres considerados do segundo modo, i.e. os que Cristo realizou por virtude própria, a fim de mostrar que tanto ele quanto suas palavras vinham realmente de Deus.

Finalidade. — O fim com vistas ao qual Jesus realizou milagres era tríplice: 1.º demonstrar sua missão divina [2], 2.º socorrer os miseráveis e 3.º significar o poder divino que possuía para curar as doenças da alma e manifestar outras coisas de ordem sobrenatural. Com efeito:

a) Todo o que se apresenta aos homens como enviado de Deus deve confirmar sua missão com um testemunho divino, i.e. mediante milagres. A razão disto é que, afora o milagre, i.e. um efeito sensível cuja causa só pode ser Deus, não há qualquer meio proporcionado de atestar com certeza a origem divina de alguém ou de alguma doutrina [3]. Eis por que os judeus interpelavam Cristo, exigindo-lhe: Com que sinal nos mostras que tens autoridade para fazer estas coisas? (Jo 2,18). Ora, que tal fosse o objetivo primário do divino Taumaturgo, atestam-no mais de uma vez os próprios evangelistas (cf. Mt 9,5ss; 11,2-6; Lc 7,19-23; Jo 5,36; 10,25.37s). É verdade que, vez ou outra, o Senhor não parece indicar nada além da simples condição de legado do Pai (cf., e.g., Jo 3,2; 5,17-20), porém o mais frequente é vê-lo operar milagres em nome próprio, como quem tem virtude e autoridade divinas para mandar aos mares, aos ventos, às doenças, aos demônios etc. (cf. Mt 8,1.5ss; 9,28 etc.); às vezes, atesta sua própria divindade em termos ora explícitos, ora implícitos (cf. Jo 10,36ss; 14,11s; Mt 9,1-6; Lc 5,20-25).

Objeções: 1.ª As palavras de Cristo em Jo 4,48: [s]e não virdes milagres e prodígios, não credes, parecem indicar que a intenção de Cristo era outra que não a assinalada: “Quem pronunciou estas palavras não pode ter pensado que a fé em seus milagres era o verdadeiro ou mesmo o único caminho para alcançar uma justa compreensão de sua pessoa e de sua missão” [4]. Uma, portanto, era a finalidade do Mestre, outra porém a que lhe atribuíram os discípulos. Resposta: A melhor resposta são as palavras mesmas de Cristo, dirigidas não só ao centurião, mas aos galileus em geral, que, desejosos de prodígios e menos dispostos à fé do que os samaritanos (cf. Jo 4,39-42), se negavam a crer se não vissem com os próprios olhos os milagres do Senhor. — 2.ª Cristo ordenou mais de uma vez que seus milagres não fossem divulgados (cf., e.g., Mc 1,34; 5,43; Lc 4,41 etc.). Logo, é falso que os tenha realizado para que todo o mundo acreditasse. Resposta: Cristo agiu assim não porque quisesse manter os milagres em segredo, mas porque não queria vê-los divulgados pela boca de demônios, e para evitar que as multidões se exaltassem tanto, que viessem a pôr em perigo sua pregação e toda a obra messiânica.

b) Uma segunda finalidade dos milagres, subordinada à primeira, era a manifestação da bondade de Deus, nosso Salvador (Tt 3,4; cf. 2,11). Com efeito, o divino Médico quis curar não só as doenças invisíveis da alma como também as visíveis do corpo. Andou fazendo bem e sarando todos os oprimidos do demônio (At 10,38), — e ia percorrendo todas as cidades e aldeias…, curando toda doença e toda enfermidade (Mt 9,35), tomando sobre si as nossas fraquezas e enfermidade (Mt 8,17; cf. Is 53,4). Os evangelistas indicam mais de uma vez o afeto que impelia o Senhor a realizar milagres: Movido de compaixão para com ela, disse-lhe: Não chores etc. (Lc 7,13); Tenho piedade deste povo, porque há já três dias que não se afastam de mim (Mt 15,32; cf. Mc 8,2) etc. E aos filhos de Zebedeu, como quisessem precipitar fogo do céu sobre os samaritanos, respondeu: Vós não sabeis de que espírito sois (Lc 9,55).

Uma única vez realizou Jesus um milagre movido de indignação, a saber: na maldição da figueira (cf. Mt 21,18s; Mc 11,12ss.20.26); mas naquela ocasião, se considerarmos atentamente a passagem, notaremos sentimentos mais de misericórdia que de vingança, pois sob o símbolo da figueira vemos a ameaça divina, sinal do amor de Deus aos homens e meio eficaz de os levar à penitência.

Simbolismo dos milagres. — Os milagres são como parábolas factuais, que manifestam, não menos do que as literárias, a admirável analogia que existe entre as ordens natural e sobrenatural. O divino Redentor fazia milagres com o fim de elevar a inteligência dos homens das coisas naturais para as sobrenaturais, das doenças do corpo às enfermidades invisíveis da alma, além do de mostrar-se, logicamente, como remédio de todos os males.

A existência deste simbolismo depreende-se do próprio Evangelho: (i) Cristo nos ensina a íntima relação que pode haver, ao menos em certos casos, entre as doenças do corpo e as do espírito (cf. Mc 2,1-11); (ii) não raro, aproveita-se dos milagres como de ocasiões favoráveis para significar algum fato ou verdade de ordem sobrenatural (cf. Mt 4,19; Jo 11,23); (iii) obriga os demônios a que eles mesmos confessem que a destruição do império diabólico é representado, entre outras coisas, pela libertação dos possessos; (iv) por último, não há melhor argumento desta analogia do que o texto de Isaías (cf. 53,4) citado por Mateus (cf. 8,17), no qual o evangelista aplica às doenças corporais saradas por Cristo o que Isaías vaticinara acerca das enfermidades espirituais que o Messias tomaria sobre si.

Eis o que diz Agostinho a esse respeito: “Perguntemos aos milagres o que nos dizem sobre Cristo. Têm eles, se bem entendidos, sua própria linguagem. Pois se Cristo é a Palavra de Deus, também os feitos de Cristo são palavra para nós” (Tract. XIV in Ioh.: ML 35,1593); “Nosso Senhor Jesus Cristo queria que fossem entendidas também espiritualmente as coisas que fazia corporalmente. Ele, com efeito, não fazia milagres pelos milagres, mas para que aquilo que fazia fosse admirável a quem o visse, e verdadeiro a quem o entendesse, assim como quem vê as letras de um livro bem escrito, e não sabe ler, pode até elogiar a mão que as escreveu…, mas ignora o que indicam e querem dizer aqueles traços” (Serm. XCVIII 2: ML 38,592).

Notas

  1. Os milagres, mais do que provas em sentido estrito, são argumentos que confirmam o testemunho de Cristo e, nesse sentido, constituem motivos suficientes, adequados à inteligência de todos, para crer no que ele disse sobre si mesmo: Eu e o Pai somos um (Jo 10,30). De fato, uma vez que a filiação divina de Nosso Senhor é um mistério intrinsecamente sobrenatural, não pode ser visto ou demonstrado a partir de razões e evidências naturais, mas somente corroborado de maneira, por assim dizer, colateral ou extrínseca, i.e. por sinais que não se podem atribuir nem a causas naturais nem a forças naturais artificiais.
  2. Corolário dessa doutrina é a falsidade do islamismo. Com a palavra, Santo Tomás de Aquino (CG i 6 n. 7): ‘Maomé . . . [n]ão deu argumentos da verdade [de sua doutrina], a não ser os que podem ser facilmente compreendidos com a razão natural por qualquer um medianamente instruído; antes, pelo contrário, as verdades que ensinou envolveu-as em muitas fábulas e nas mais falsas doutrinas. Tampouco apresentou [em seu favor] sinais de origem sobrenatural, os únicos com que se dá testemunho conveniente de inspiração divina, na medida em que uma operação visível que não pode ser senão divina mostra estar invisivelmente inspirado o que ensina uma verdade; disse, porém, ter sido enviado no poder das armas, sinal que não falta também a ladrões e tiranos . . . Tampouco dão testemunho dele oráculos divinos de profetas passados; antes, pelo contrário, depravou com narrações fabulosas quase todos os ensinamentos do AT e do NT, como fica claro a quem examina sua lei. Daí que . . . não tenha permitido a seus sequazes a leitura dos livros do AT e do NT, para que estes não lhe denunciassem a falsidade. E assim se patenteia que os que dão fé às suas palavras crêem levianamente’.
  3. A rigor, para que seja conforme à razão o ato de fé teologal, pelo qual assentimos ao conteúdo da revelação divina, i.e. ao conjunto de seus distintos objetos materiais (e.g. à trindade de pessoas na única essência divina, à presença real de Cristo na Eucaristia etc.), é conveniente que as verdades propostas por Deus, embora inevidentes para a nossa inteligência, gozem todavia de alguma evidência extrínseca, ou de credibilidade, pela qual possamos estar certos do fato de que foram reveladas por ele e, por conseguinte, de que são críveis. Esta evidência, para os contemporâneos do Senhor, era imediata mas externa, fundada nos sinais visíveis (milagres) e inteligíveis (profecias) com que ele confirmava sua missão divina e mostrava, portanto, ser razoável crer em sua doutrina; para nós, ela é igualmente extrínseca mas mediata, porque a revelação e as verdades nela contidas nos são propostas por intermédio do Magistério infalível da Igreja. Deus, ensina o Concílio Vaticano I, ‘instituiu, por meio de seu Filho Unigênito, a Igreja, para que pudéssemos cumprir o dever de abraçar a verdadeira fé’ (DH 3012).
  4. *Harnack, L’essence du christianisme. Paris, 1907, p. 42.
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