O mundo inefável da Igreja Católica
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O mundo inefável da Igreja Católica

“Como celebrar dignamente a tua bondade, Senhor, por me ver introduzido, apenas entrei na terra, no mundo inefável da Igreja Católica?” Assim o Papa Paulo VI agradecia a Deus, em seu testamento, o fato de pertencer à única Igreja de Cristo. Mas o que isso realmente significa?

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
(Mc 4, 26-34)

Naquele tempo, Jesus disse à multidão: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece. A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou”.

E Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representá-lo? O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra. Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra”.

Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo.

Estamos no 11.º Domingo do Tempo Comum. O Evangelho de hoje é tirado de São Marcos, capítulo 4, versículos 24–34. Jesus conta-nos duas parábolas para ensinar como é o Reino dos Céus, ou seja, a Igreja Católica, a humanidade redimida.

Tudo começa com a parábola da semente lançada à terra. O agricultor vai dormir sem saber como ela cresce do dia para a noite. Em seguida, conta a parábola do grão de mostarda, que, ao crescer, tem ramos tão grandes, que os pássaros do céu vêm abrigar-se à sombra dela.

Antes de olhar para as parábolas propriamente ditas, lembremos um pouco de história. Jesus quer explicar ao povo de Israel o que é a Igreja, o Reino dos Céus. Ora, os nossos primeiros pais, Adão e Eva, pecaram, perdendo consigo a humanidade inteira, e Deus, para salvá-la, decidiu formar para si um povo. Por isso chamou Abraão, a quem prometeu uma descendência da qual nasceria a Igreja de Cristo.

Mas este povo começou a ser gerado por descendência biológica. Deus prometeu a Abraão: “Farei uma descendência para ti, a qual será mais numerosa do que as estrelas do céu e as areias do mar”. Que descendência é essa? A princípio, pensava-se que se trataria de uma descendência carnal, já que a Aliança fundava-se na carne, ou seja, na relação sexual. Sinal disso era a circuncisão, um “selo” sagrado instituído por Deus a fim de significar a Aliança firmada com o povo.

No entanto, isso era só o início e a preparação. Por quê? Porque Deus prometeu uma descendência a Abraão, não a partir da geração física, mas a partir da fé. Por isso dizemos que Abraão é nosso pai na fé. Pela fé, o povo de Deus foi-se preparando para a vinda de Cristo, o qual abriria as portas da Igreja ao mundo. De fato, quando, no dia de Pentecostes, os Apóstolos saem do Cenáculo para pregar o Evangelho aos povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Igreja começa a alargar-se, cumprindo assim a profecia: os que se salvam — os filhos de Abraão — são mais numerosos do que as estrelas do céu! A Igreja de Cristo, portanto, é o novo povo de Deus, povo que começou no Antigo Testamento, com a fé de Abraão, mas que agora se expande mundo afora.

É o que Jesus nos está tentando ensinar com as duas parábolas. Ele se serve primeiro de comparações tomadas do reino vegetal para falar da Igreja. Ora, o que é a Igreja? A Igreja somos nós, cada uma das almas que, tendo fé em Cristo, recebe o Batismo e começa a fazer parte de um mesmo organismo, de um só Corpo místico. 

Jesus quer que entendamos profundamente o que significa ser Igreja. Afinal, o que as pessoas costumam achar que é a Igreja? A maior parte delas tem uma visão muito superficial. Acham que a Igreja é uma simples associação de pessoas registrada no cartório sob um CNPJ, como se fosse mais uma agremiação humana.

A Igreja não é isso. É algo muito mais profundo. Para entendê-la, vejamos outra comparação, também do mundo vegetal, feita por Jesus no capítulo 15 do evangelho de São João. O Senhor diz: “Eu sou a videira, vós sois os ramos”. Ou seja, como somos membros de um só Corpo, há entre nós uma dinâmica, uma mesma vida. Quando temos fé e somos batizados, recebemos em nós a vida de Deus, a seiva divina.

E como ela cresce em nós? É o que Jesus quer-nos explicar com a primeira parábola. Ele diz: “O Reino de Deus é como quem espalha semente na terra”. O pregador espalha a semente da Palavra: em algumas pessoas ela faz surgir a fé; outras deixam seus pecados; uns pedem o Batismo; alguns, que havia muito não se confessavam, se arrependem e começam uma vida nova, mas não no sentido de que entram para um “clube”, cujas regras devem respeitar sob pena de ser expulsos.

Não se trata disso. Quando passamos a obedecer aos Mandamentos de Deus, a ter fé em Jesus, a participar dos sacramentos, recebemos uma força do alto, uma dynamis. É uma dinâmica que vem de Cristo, uma força que cresce e nos faz crescer. Ouçamos o que diz Jesus na parábola: “A semente vai germinando e crescendo, mas o homem que semeou não sabe como isso acontece, e a terra por si mesma produz o fruto. Primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga”.

O mesmo acontece conosco quando nos convertemos. Primeiro, a semente brota e aparecem as folhas. Quem são estes? São os iniciantes, isto é, os conversos que já largaram os pecados, cumprem os Mandamentos, observam tudo o que a Igreja manda, mas ainda têm uma vida limitada. Por quê? Porque não são generosos o suficiente. É necessário dar outro passo. Não é o bastante confessar-se, comungar, rezar o Terço, pagar o dízimo… 

Não. Deus quer que demos frutos de caridade porque não fomos chamados a ser apenas “bons cristãos”. Fomos chamados a ser grandes santos! Aí está a verdadeira vida da Igreja. Sim, a verdadeira vida da Igreja está na santidade, nos santos gloriosos que tivemos ao longo dos séculos. Também eles passaram por diferentes estágios: foram principiantes, quando produziam somente folhas; tornaram-se progredidos, ao darem espiga; e finalmente chegaram a ser perfeitos, porque deram o fruto maduro da caridade.

O que Jesus quer que compreendamos é que nós não podemos contentar-nos com as folhas e ramagens de uma vida espiritual ainda incipiente. Não podemos parar por aí. Nós temos de crescer espiritualmente até produzir o fruto perfeito da caridade, no qual se manifesta a verdadeira vida da Igreja.

Se não entendemos isso, não entendemos o que é ser Igreja. Se para nós a Igreja se resume à organização curial, ao CNPJ da Mitra Diocesana ou às organizações do Vaticano, não sabemos o que ela é. Não se trata de descartar essas realidades porque também elas, à sua maneira, são Igreja. A estrutura essencial da Igreja foi fundada por Cristo, e é preciso respeitá-la. Foi Cristo quem quis que houvesse Papas ao escolher São Pedro; foi Ele quem quis que houvesse bispos nas dioceses ao escolher os Apóstolos.

Seja como for, o que precisamos entender é que a vitalidade que nos vem por intermédio da sucessão apostólica se deve a que tanto o Papa quanto os bispos são transmissores da Palavra de Cristo. A semente que recebemos é a Palavra divina, a única que pode dar o fruto da caridade e da santidade.

No entanto, se o que queremos é a “semente” da moda, do que todo o mundo está a dizer, do que vem da ONU, do governo mundial ou das fundações internacionais, do movimento marxista internacional etc., fazer o quê? Iremos apodrecer… 

A única semente verdadeira e autêntica que a Igreja tem para nos dar é a Palavra de Cristo e dos Apóstolos. Os bispos e Papas são sucessores dos Apóstolos e, portanto, encarregados de transmitir a Palavra, isto é, a dinâmica que vem de Deus. Também nós devemos transmiti-la. Mas quando plantamos essa semente, implantamos nas almas uma “dinamite”, uma vitalidade própria. Se as almas corresponderem, darão frutos abundantes. Darão somente folha? Não, darão espiga. Darão somente espiga? Não, darão fruto de santidade.

A Igreja é vitalidade. Se queremos ser membros dela, precisamos entender que é necessário mudar de vida, porque a Igreja traz e vive uma vida nova. Jesus se pergunta: “Com o que hei de comparar o Reino dos Céus”, e o compara com organismos vivos, não com associações ou sindicatos. Ele não usa sequer a palavra “povo”, própria do Antigo Testamento. Ela se aplica também à Igreja, mas com ressalvas. Não se trata de uma realidade sociológica, mas espiritual, dinâmica. Quando falamos do povo brasileiro, falamos de uma realidade sociológica e cultural. Mas quando falamos do povo de Deus, falamos dos membros do Corpo de Cristo, mais unidos entre si do que um dedo à mão, porque vivificados pela mesma seiva espiritual que recebem de Cristo.

Nós pertencemos ao Corpo dos santos. Que maravilha sabê-lo! Os santos, lá no céu, já estão fruindo da felicidade de Deus. Somos membros do Corpo dos anjos, fazemos parte dessa dinâmica. É a mesma seiva. Por isso, se não damos os mesmos frutos, é porque não somos igualmente generosos. O Reino de Deus precisa crescer em nós, e nós nele.

A segunda parábola é a do grão de mostarda, a menor de todas as sementes. Quando cresce, ela se torna uma hortaliça tão grande, que os pássaros do céu vêm abrigar-se à sombra dela. O que quer dizer isso? Que a Igreja é a esperança da humanidade, é o lugar em que os pássaros do céu (quer dizer, os pagãos e os reinos deste mundo) precisam procurar abrigo.

Os governantes do mundo deveriam vir à Igreja à procura de abrigo! No Antigo Testamento, diz a profecia que, no Fim dos Tempos, virão os pagãos, gentes de outros povos, agarrar os israelitas pelo manto e suplicar: “Nós queremos ir contigo!” Sim, a sociedade — o governo mundial, as fundações internacionais, as feministas, os marxistas etc. —, no Fim dos Tempos, hão de agarrar os católicos pelo braço e dizer: “Por favor, mostrai-nos a verdade! Queremos participar convosco, abrigados nessa hortaliça linda que é a Igreja!” Por quê? “Porque vemos que tendes vida verdadeira”, e essa vida vem da vitalidade da santidade católica.

Hoje somos atribulados e perseguidos, porque ser católico é sinônimo de perseguição, até mesmo dentro da Igreja. Sim, somos perseguidos dentro e fora, porque quem tem a fé dos Apóstolos é perseguido em todos os lugares. Mas isso não será assim para sempre. Não! Non praevalebunt, as portas do inferno não prevalecerão! Talvez não vejamos o triunfo do Imaculado Coração de Maria, o Aleluia após a queda da grande prostituta, Babilônia; uma coisa, porém, é certa: nós já participamos, agora, de uma dinâmica exuberante, de uma vitalidade divina.

A vida da Igreja é a vida verdadeira porque é a vida dos santos: santa é a Palavra que nos converteu; santos são os sacramentos que nos incorporam a Cristo; santo é o governo hierárquico, quando serve à vida sobrenatural; santos são os seus membros, aqueles que triunfam no céu já glorificados, confirmados em graça; santos são também os salvos que estão no Purgatório porque já não têm mais a alma em perigo; santos são aqueles que, aqui na terra, observando os Mandamentos e temendo a Deus, querem crescer e produzir fruto, transformar o que é apenas folha em espiga e a espiga, em grão maduro de santidade e amor a Deus.

Essa é a Igreja Católica ou, para usar uma expressão de Paulo VI, “o mundo fantástico da Igreja Católica”. Paulo VI, no seu testamento, escreveu: “Meu Deus, como vos irei agradecer por me terdes introduzido desde cedo no mundo fantástico da Igreja Católica?”, no mundo da vida divina, que palpita em nossos corações com frutos de amor. Eis a Igreja! Não deixemos, pois, que nossa fé se abale.

Todos os domingos nos levantamos para dizer: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”, ou, na versão mais curta do Credo Apostólico: “Na Santa Igreja Católica”. É em tudo isso que cremos quando professamos nossa fé na Igreja. Sim, ela é atribulada por dentro e por fora: por fora, com as perseguições que causam os mártires; por dentro, pelas misérias que o demônio dissemina (escândalos sexuais, infidelidades, heresias etc.). Mas nada disso será capaz de arrancar vitalidade à Igreja de Cristo.

No Fim dos Tempos, a Igreja, que pode até passar pelas tribulações por que passou o seu divino Esposo — morte e ressurreição —, irá triunfar sobre todos os povos como Mestra das nações, já que Cristo é a luz dos povos, luz que resplandece no candelabro da Igreja!

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