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Conheça os sacramentos da Igreja com o Padre Paulo Ricardo

Texto do episódio
949

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 
(Mc 2,23–3,6)

Jesus estava passando por uns campos de trigo, em dia de sábado. Seus discípulos começaram a arrancar espigas, enquanto caminhavam. Então os fariseus disseram a Jesus: “Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?” Jesus lhes disse: “Por acaso, nunca lestes o que Davi e seus companheiros fizeram quando passaram necessidade e tiveram fome? Como ele entrou na casa de Deus, no tempo em que Abiatar era sumo sacerdote, comeu os pães oferecidos a Deus, e os deu também aos seus companheiros? No entanto, só aos sacerdotes é permitido comer esses pães”. E acrescentou: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado. Portanto, o Filho do Homem é Senhor também do sábado”.

Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca. Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo. Jesus disse ao homem da mão seca: “Levanta-te e fica aqui no meio!” E perguntou-lhes: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” Mas eles nada disseram. Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: “Estende a mão”. Ele a estendeu e a mão ficou curada. Ao saírem, os fariseus, com os partidários de Herodes, imediatamente tramaram, contra Jesus, a maneira como haveriam de matá-lo.

No Evangelho de hoje, Cristo está em polêmica com os fariseus a respeito do sábado. São duas cenas diferentes. Na primeira, os discípulos colhiam espigas, e Jesus, vendo-os serem censurados pelos fariseus por trabalharem no sábado, diz: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”. Na segunda, um homem de mão seca apresentou-se na sinagoga em dia de sábado, e o Senhor curou-lhe a mão na presença de todos. Então, a partir daquele momento, os fariseus e os partidários de Herodes começaram a planejar uma forma de matar Jesus. Eis, em resumo, o Evangelho deste domingo.

Antes de abordar a controvérsia sobre o sábado, lembremos que os milagres de Nosso Senhor não são nunca obras de diletantismo, nem se ordenam exclusivamente a devolver o bem-estar físico a esta ou àquela pessoa. Em verdade, Cristo fez milagres pensando em nós, consciente de que, dois mil anos mais tarde, meditaríamos a cura do homem de mão seca, por exemplo. Esse milagre tem de ser uma luz que ilumine os nossos passos e uma verdadeira cura, porque também nós temos a mão seca e precisamos recuperar a saúde espiritual. Em outras palavras, Jesus realizou milagres, de fato; mas Ele também os fazia, entre outros motivos, para suscitar nos fiéis, ao longo dos séculos, a fé e a compreensão de seus desígnios de amor.

Pois bem, é sábado, dia de cessar o trabalho, um preceito que os judeus observavam com o máximo rigor, como fazem até hoje. Um judeu não pode, por exemplo, apertar um interruptor de lâmpada aos sábados. Na sexta-feira à noite, passa-se pela casa apagando as luzes que devem ser apagadas e acendendo as que ficarão acesas durante o dia seguinte. Com o início do shabāt, isto é, ao despontar da primeira estrela na noite de sexta, o judeu já não pode tocar no interruptor. A comida, por sua vez, é preparada na sexta-feira e fica à disposição num rechaud, em banho-maria, durante o sábado inteiro.

Nosso Senhor olhou para tal situação e viu muito mais, viu além, viu que, nessa forma de viver a Lei de Moisés, havia certa incapacidade de realizar obras de santidade. Incapacidade de amar, eis a nossa maior miséria. Por mais que nos achemos bons católicos, a verdade é que, na raiz do nosso ser, não somos capazes de amar. A única oração que com sinceridade podemos fazer é: “Jesus, se depender de mim, somente de mim, eu não vos amo, eu não me amo, eu não amo ninguém”.

Esse ato de humildade tem de ser feito por todos. Somos o homem de mão seca, ou seja, de coração incapaz de realizar a obra do amor. No entanto, escondemos a mão quando vamos rezar. Apresentamo-nos a Deus de cara bonita: “Ó Jesus, eu vos amo! Ó Jesus, vós sois tudo para mim”, mas verdade é que essas palavras, se forem verdadeiras, não o são por sermos capazes de amar, mas porque Jesus nos deu uma graça especial. Abandonados a nós mesmos, temos a mão seca para as obras da salvação.

Diz Jesus no Evangelho: “Levanta-te e fica aqui no meio”. O homem estava escondido a um canto, talvez por vergonha de sua mão. É o que todos nós fazemos. Pretendemos ocultar de Deus nossos defeitos. Queremos maquiar-nos e apresentar-nos de máscara, com juras de amor como as de São Pedro na Última Ceia: “Senhor, eu darei minha vida por ti. Irei até a morte”.

Mas Jesus, que conhece o íntimo dos corações, sabe-nos incapazes. “Darás a vida por mim?” responde Ele a Simão; “na verdade, eu te digo que ainda hoje me negarás três vezes”. Se era verdade para Pedro, também o é para nós. Todos, quando vamos à igreja fazer nossas declarações de amor e de entrega, agimos como Pedro, sem nos darmos conta de que, sem a graça, nada nos é possível. Não adianta dizer: “Iremos até a morte por Jesus”. Sem o auxílio divino, quando nos encontramos numa encruzilhada acabamos nos acovardando e traindo Jesus. Por isso nós precisamos ter vida de oração. Esse é o verdadeiro espírito do sábado.

Com efeito, o 3.º Mandamento é menos sobre o descanso que sobre a vida de oração. O descanso sabático, sim, é importante; mas dedicar tempo a Deus, mais do que um dever semanal, é uma necessidade diária. Deveríamos procurar recolher-nos todos os dias num momento de oração íntima, colocando-nos na presença de Jesus sem máscaras, tais quais somos, com a nossa incapacidade de amar. Como mendigos da graça divina, precisamos dizer: “Senhor, eu não vos amo, mas não quero morrer assim. Fazei, Senhor, com que eu vos ame. Dai-me, Senhor, a vossa graça. Eis-me aqui, mendigo da vossa bondade. Tende compaixão de mim. Olhai a minha mão seca e a dureza do meu coração”. 

Sim, Jesus olha para a dureza do nosso coração. Se lermos atentamente o Evangelho de hoje, iremos notar que, no versículo 5 do capítulo 3, São Marcos, como sempre, descreve a psicologia de Jesus. Essa, aliás, é uma das características do Evangelho de Marcos, rico em vislumbres da intimidade de Cristo, dos movimentos do seu Coração, das suas paixões humanas, do seu amor também humano, expressão do amor divino. Diz, pois, São Marcos que, ao chamar para o centro da sinagoga o homem de mão seca, Jesus perguntou aos circunstantes: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” Como nada dissessem, Jesus “olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração”.

Mostremos ao Senhor o nosso coração como ele é. Deixemos que Ele seja o médico de nossas almas. Jesus é observador. Ele viu a mão seca de um, mas a dureza de coração de muitos, expressão que traduz o grego ‘πώρωσις [pōrōsis]’, que quer dizer “calejado”. Trata-se de um termo médico para designar a pele grossa e insensível, como a de uma mão calejada que nada sente. Os fariseus, obstinados na soberba, eram insensíveis. Tinham o Mestre presente, Deus lhes falava diretamente, mas em vão. Eles ‘πωρώσει τῆς καρδίας [pōrōsei tēs kardias]’, tinham um coração calejado. Eram, por assim dizer, “paquidermes cardíacos”.

Ora, o endurecimento do coração, em geral, não começa por pura maldade, mas como mecanismo de autoproteção. Religiosos, os fariseus observavam o sábado e faziam suas orações; porém, foram-se revestindo de uma pele grossa que impedia esses atos aparentemente bons de surtirem efeito. Por quê? Porque quem se põe a rezar precisa, antes de se encontrar com Deus, encontrar-se consigo mesmo. Por não fazerem isso, muitos fiéis rezam distraídos, dispersos, agitados. O problema, aqui, não está em se encontrar com Deus, mas em não querer encontrar-se consigo, porque isso faz sofrer.

Dói olhar para si mesmo, e a vida de oração, querendo ou não, é como um ovo. Dentro da casca, a gema é envolvida pela clara; de modo que, para chegar ao núcleo, que é a gema, é preciso atravessar tanto a casca quanto a clara. A gema representa quem? O próprio Deus, com quem nos encontramos. No entanto, para alcançar a gema, devemos atravessar a casca e clara, que simbolizam nossas paixões e angústias.

A oração exige atravessar a casca do ovo (a calosidade do coração, a carapaça de autoproteção de quem não quer que Deus adentre) e a clara (tudo o que nos impede de nos encontrarmos com o nosso verdadeiro eu). Por isso, o primeiro ato a ser feito antes de rezar é de humildade: “Jesus, vós sabeis tudo. Vós sabeis que vos amo, mas que vos amo com um amor miserável, egoísta. Não vos amo de verdade. Jesus, meu amor é interesseiro, covarde e sem fibra, é inconstante e é volúvel, mas o vosso é tão grande!… Olhai, Senhor, para o meu coração insensível e penetrai-o, Senhor, mesmo que isso me vá causar sofrimento. Sim, Senhor, porque eu quero vos amar, nem posso viver sem vos amar”.

Guardar o sábado é isso. Sim, como Jesus ressuscitou no domingo, os fiéis substituíram o sábado pelo domingo. Trata-se de um costume antiquíssimo e universal. Daí que a esmagadora maioria dos cristãos siga até hoje o que é atestado pelo Novo Testamento: os discípulos se reuniam no dia do Senhor (cf. At 20,7; Ap 1,10 etc.). O  espírito da observância do domingo é a oração, a necessidade de se encontrar com Deus para estar com Ele. Ora, como rezar sem ter a coragem do encontro, a coragem de estar com Jesus e de se encontrar consigo mesmo? 

Muitos se queixam de não conseguir rezar exatamente por conta das tribulações. Poderíamos dizer que nós, cristãos, vivemos o que se diz na Segunda Leitura de hoje, da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios:

Somos afligidos de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos entre os maiores apuros, mas sem perder a esperança; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; por toda parte e sempre levamos em nós mesmos os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossos corpos (2Cor 4, 8ss).

Quantos de nós podem fazer o desabafo: “Somos afligidos… somos postos entre os maiores apuros… somos perseguidos… somos derrubados… levamos os sofrimentos mortais de Jesus”! Sim, é verdade; mas se você, ao colocar-se diante de Deus em oração, tiver a coragem de se encontrar consigo mesmo, poderá compreender o que diz São Paulo também nessa carta: “Trazemos esse tesouro” da graça divina “em vasos de barro, para que todos reconheçam que esse poder extraordinário vem de Deus, e não de nós” (v. 7). 

Sem a graça de Deus, temos todos a mão seca, somos incapazes de amar. Foi o que dissemos na sequência de Pentecostes duas semanas atrás: “Sem a luz que acode, nada o homem pode, nenhum bem há nele”, — “Sine tuo numine, nihil est in homine, nihil est innoxium”. Nada o homem pode. Não somos capazes de fazer absolutamente nada, por isso somos mendigos da graça.

O Evangelho deste domingo exorta-nos a nos apresentarmos corajosamente diante do Senhor. Saia do canto, venha para o centro e coloque-se diante dele. Mostre-lhe a mão seca; se não o fizer, Cristo olhará para você com ira e tristeza, por vê-lo preferir, à cura do coração, a carapaça de uma pele grossa que não se deixa atingir.

Venha para o centro e coloque-se diante de Jesus. Mesmo que você esteja aflito, venha e coloque suas aflições diante dele, para não ser vencido pela angústia. Mesmo que você esteja nos maiores apuros, venha e coloque esses apuros diante dele, para não perder a esperança. Mesmo que você esteja sendo perseguido, venha e coloque essa perseguição junto de Cristo, e você não será desamparado. Podemos, enfim, até estar derrubados; mas não seremos aniquilados, se tivermos a coragem de rezar e de viver verdadeiramente o dia do Senhor, um dia, sim, dedicado a Ele, mas que se estende a toda a semana na oração que fazemos recolhidos, na intimidade do amor a Deus.

Faça, pois, o sério propósito de não deixar passar um só dia sem verdadeira oração de intimidade com Jesus. Não lhe esconda a mão seca. Venha para o meio, e Ele irá curá-lo.

COMENTÁRIO

I. Os discípulos arrancam espigas (Mt 12,1-8; cf. Mc 2,23-28; Lc 6,1-5). — De acordo com Lc, a cena ocorreu em dia de sábado ou, segundo alguns códices, incluindo o texto da Vg, no “sábado segundo primeiro” (lt. sabbato secundo primo, gr. δευτεροπρώτῳ), expressão que deu origem a inúmeras discussões. Segundo a opinião mais provável, sábado δευτεροπρῶτον era o que caía depois do segundo dia da Páscoa [1]. Com efeito, como a Lei (Lv 23,15) mandava contar sete semanas a partir do segundo dia da Páscoa, supõe-se que tenham surgido as denominações δευτεροπρῶτον, δευτεροδεύτερον etc. para significar cada uma delas. Outros pensam que esse nome designava o sábado posterior ao grande sábado (Magnum Sabbatum), i.e. ao que vinha depois do sábado da semana da Páscoa (Jo 19,31); logo, entre os dias 23 e 30 de Nisan. Seja como for, a narração nos leva certamente a um tempo posterior à Páscoa, talvez em fins de maio ou no início de junho, já que nos arredores de Cafarnaum (onde transcorre a cena, provavelmente) as colheitas já estavam maduras por essa época.

V. 1s. Como Jesus estivesse atravessando algumas plantações, os discípulos, esfomeados, começaram a arrancar espigas e a debulhá-las com as mãos, o que na verdade era lícito, pois a prescrição mosaica vetava apenas colher espigas com foice em seara alheia (Dt 23,25). 

V. 3ss. Aos fariseus, que censuravam essa suposta violação do sábado equiparando o ato à colheita [2], Jesus responde com dois fatos: a) se a Davi e seus companheiros, por necessidade, se permitiu comer, como é narrado em 1Sm 21,1-6, dos pães da proposição, que segundo a Lei só podiam ser comidos pelos sacerdotes (Lv 24,9), por que não seria lícito aos meus discípulos, por justa causa, transgredir vossas tradições? (Subentende-se, logicamente: eu, que sou filho e o Senhor de Davi: cf. Mt 22,42ss.) — b) Não lestes na Lei (Nm 28,9s etc.) que, nos dias de sábado, os sacerdotes transgridem no Templo o descanso do sábado, por fazerem muitas coisas referentes aos sacrifícios e ao culto divino, e no entanto não se tornam culpados? [3] Logo, a lei sabática não é per se inviolável.

N.B. — No texto de Mc (v. 26), há uma dificuldade histórica. Com efeito, a cena de Davi é posta em tempos de Abiatar, príncipe dos sacerdotes, ao passo que em 1Sm se fala de Aquimelec. Para solucionar essa aparente discordância, basta notar o seguinte: no tempo em que se deu o fato narrado, Aquimelec era de fato o sumo sacerdote em exercício, mas seu filho, Abiatar, que o sucedeu na função, também estava presente no santuário (1Sm 22,20). “Assim compreendemos por que a tradição não vinculou este fato ao nome quase desconhecido do pai, mas ao do filho, conhecidíssimo na história do rei Davi” (Holzmeister, VD [1928] 268, n. 3) [4].

V. 6ss. Poderiam os fariseus ter respondido que era lícito, sim, aos sacerdotes realizar, mesmo em dia de sábado, os ministérios do Templo, por serem sagrados e destinados à honra de Deus; mas Jesus se adianta à dificuldade e a desfaz com uma tríplice razão: a) Eu vos declaro que aqui (ὧδε = neste lugar) está quem é maior (μεῖζόν, gên. neutr. = algo de natureza superior) que o Templo, i.e. não menos sagrado, pois é mais excelente o ministério dos discípulos que me seguem que o dos sacerdotes que servem no Templo. — b) Em Mc 2,27, dá outra e mais alta razão: O sábado foi feito para o homem, i.e. foi instituído para proveito do homem, tanto (e sobretudo) espiritual quanto corporal, e não o homem para o sábado; por isso deve ser observado de modo tal, que não prejudique a saúde nem da alma nem do corpo, como lemos terem feito muitos santos varões (Js 6,15s; 1Mc 2,41). Em seguida, repreende-os por acusarem os discípulos não por zelo e obediência à Lei, mas por rivalidade e dureza de coração: Se compreendêsseis (se entendêsseis corretamente) o sentido destas palavras: Quero a misericórdia, e não (i.e. mais do que) o sacrifício (Os 6,6), nunca condenaríeis os inocentes, i.e. os meus discípulos, que transgrediram o descanso sabático não por desprezo à Lei, mas por necessidade. — c) Como se não bastassem esses argumentos, desfere outro, ainda mais forte, baseado em sua própria autoridade: O Filho de homem é Senhor também do sábado; logo, quando for preciso, pode dispensar de sua observância. Em Mc, a frase é introduzida a modo de conclusão (ὥστε) a fortiori (καί) de um silogismo entimemático cuja premissa maior implícita é: [O Filho de homem é Senhor do homem]; ora, o sábado foi feito para o homem; logo, o Filho de homem é Senhor a fortiori (καί, também) do sábado.

II. Cura do homem de mão seca (Mc 3,1-5; cf. Mt 12,9-13; Lc 6,6-10). — a) As circunstâncias de lugar e tempo são indicadas apenas de modo geral pelos evangelistas: Aconteceu num dia de sábado que Jesus entrou na sinagoga (Mt: na sinagoga deles, i.e. dos judeus, ou talvez dos habitantes de Cafarnaum, entre os quais costumava demorar-se) e começou a ensinar.

b) O milagre. — V. 1-4. Achava-se ali um homem que tinha a mão (direita, acrescenta Lc) seca (ἐξηραμμένην), i.e. tábida, sem suco vital ou, como se diz em pt., atrofiada [5]. Ora, como Jesus tivesse feito milagres outras vezes também em dia de sábado, por ser maior nesse dia o afluxo de pessoas na sinagoga, por isso os escribas e os fariseus o observavam, para ver se iria curá-lo em dia de sábado. Jesus, porém, disse ao doente: Levanta-te e fica aqui no meio, e em seguida interrogou seus inimigos: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?, modo hebraico de dizer: “É lícito ou não fazer o bem em dia de sábado? É lícito salvar alguém da morte ou de um grave perigo?”

N.B. — A casuística dos rabinos acerca das curas e cuidados médicos em dia de sábado regia-se por três regras: 1) havendo perigo de morte, era lícito administrar e tomar qualquer remédio apto; 2) tratando-se de qualquer outra enfermidade, era lícito usar o que não tinha função exclusivamente medicinal apenas na medida necessária ao cuidado e à nutrição física de um homem saudável; 3) de resto, estava proibida qualquer ação, ainda que mínima, cujo fim único fosse a cura da doença. Ora, enfermidades como uma atrofia muscular não representavam perigo de morte, e a ação de Cristo dirigia-se unicamente à cura da doença; daí a indignação farisaica dos judeus.

Em Mt, reforça-se a pergunta com um argumento tomado de um costume comum e reconhecido: se a ovelha de alguém cair num poço em dia de sábado, quem de vós não a irá procurar e retirar? Ora, não vale o homem muito mais que uma ovelha? [6] Mas eles se calavam, convencidos, de um lado, pela verdade dos fatos e por sua atitude habitual, mas coagidos, de outro, pela interpretação estrita de suas tradições.

V. 5. Então, lan­çando (περιβλεψάμενος = olhando em derredor: cf. Mc 3,34; 5,22; 9,8; 10,23; 11,11) um olhar indignado, i.e. com rosto severo, sobre eles, mas ao mesmo tempo contristado (συλλυπούμενος = condoído, apiedado [7]: cf. Rm 9,2) interiormente com a dureza (lt. cæcitate, gr. πωρώσις = ato de endurecer, ou vício de quem tem a mente calejada, dura, embotada, i.e. cega [8]) de seus corações, i.e. com sua dureza e obstinação, diz ao homem: Estende tua mão! Ele estendeu-a e a mão foi curada.

c) Os fariseus decidem matar Jesus (cf. Mt 12,14; Mc 3,6; Lc 6,11). — A prática e a doutrina evangélica acerca da lei sabática opõem-se pelo diâmetro às dos fariseus. São, por assim dizer, duas concepções diferentes sobre a natureza da religião. Consequentemente, Jesus torna-se alvo do ódio e da inveja deles: Saindo, pois, dali os fariseus, ficaram com muita raiva (acrescenta Lc: gr. ἀνοία, lt. insipientia = fúria, ira insana), i.e. ficaram como loucos e fora de si, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus. Mt e Mc dizem explicitamente qual foi o desfecho da discussão: E deliberaram logo com os herodianos (muito influentes junto de Herodes Antipas) como o haviam de prender.

Notas

  1. De acordo com S. Epifânio (cf. Hær., 51.31), o vocábulo ‘δευτεροπρῶτον’ significa ‘δεύτερον σάββατον μετὰ τὸν πρῶτον’, i.e. o segundo (sábado) após o primeiro em alguma série (de sábados).
  2. Lavrar ou ceifar era explicitamente proibido aos sábados (cf. Ex 34,21). Os rabinos posteriores, no entanto, querendo definir ainda mais o assunto, estabeleceram, entre outras coisas, o seguinte: “Quem ceifa, ainda que só um pouco, é culpado. E debulhar espigas é uma espécie de ceifa. E quem quer que colha algo de seu plantio é culpado como ceifador” (Maimônides, Shabb., 8). Esta norma, embora seja atribuída pela primeira vez aos filhos do rabi Hiyya, o Velho (c. 200 d.c) na Mishna (cf. Shabb., 7.2), parece já ser conhecida na época de Cristo (cf. *Strack & Billerbeck, Kommentar…, 1 [...] 617d).
  3. Que em 1Sm 21,1 Aquimelec diga a Davi: Como vens tu só, e ninguém vem contigo?, mas Cristo afirme que os companheiros do rei comeram com ele dos pães da proposição, tampouco cria dificuldade. Com efeito, nos primeiros vv. de 1Sm 21 vê-se claramente que os criados, sim, estavam presentes e comeram, o que se depreende tanto do número (cinco, ao todo) de pães que Davi pediu (v. 3) como da pergunta feita a ele pelo sacerdote (v. 4b). Noutras palavras, Davi entrou sozinho no santuário, enquanto os criados o esperavam em certo lugar não longe dali (v. 2).
  4. Na Misha, lê-se com frequência este princípio: “O trabalho [no Templo] sobrepõe-se ao sábado” (cf. *Strack–Billerbeck, op. cit., 620).
  5. O evangelho apócrifo dos hebreus, ou dos nazarenos, põe na boca deste homem: “Eu era pedreiro e sustentava-me com o trabalho de minhas mãos; imploro-te, Jesus, que me devolvas a saúde, para que eu não fique a mendigar comida” (*Hilgenfeld, Novum Testamentum…, fasc. 4 [Leipzig 21884] 1532ss). Cf. S. Jerônimo, in Matth. 12,10).
  6. Maimônides, in Schabb. 25, apud *Lightfoot, Horæ…, 2 (Oxford 1859) 201: “Se um animal cair num poço ou num pântano, que [o dono] lhe dê de comer ali mesmo, se puder; se não, traga panos e palha e sustente o animal; se puder sair dali, saia”.
  7. *Bloomfield, Recensio…, 2 (Londres 1826) 17s, n. 6: “Συλλυπούμενος não tem aqui o mesmo sentido que συμπάσχων [compadecer-se]. Significa mais comovido (como em Sl 68,21), contristado… A sensação era uma mistura de raiva por sua [dos fariseus] irremediável malícia e incorrigível maldade, e de comiseração pelas calamidades que desta sorte acabariam atraindo sobre si”.
  8. Id., 18, n. 7: “πωρώσει, i.e. com os seus corações calosos e contumazes. Πωρώσει significa propriamente dureza, como a que se contrai numa pele calejada; πωροῦσϑαι significa calejar [lt. occallescere]. Estas palavras se aplicam tanto ao embotamento do intelecto quanto à depravação ou perversidade mental, como aqui”.

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