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É possível afirmar que quem morre sem o sacramento do batismo vai direto para o inferno? A resposta é bem simples: não. Não é correto fazer essa afirmação,, pois existe o remédio do "batismo de desejo".

No final do Evangelho de São Marcos (16,16), Jesus diz: "quem crer e for batizado será salvo, quem não crer será condenado" e, para algumas pessoas, essas frase é tomada literalmente, ou seja, quem não crer e não for batizado irá direto para o inferno. No entanto, não é esta a interpretação que a Igreja dá. Para ela, a condenação depende de uma rejeição explícita da verdade do Evangelho. Para a salvação, é possível que a pessoa creia explícita ou implicitamente e deseje o batismo da mesma maneira.

Santo Ambrósio, bispo de Milão, no século IV, já falava sobre o "batismo de desejo". Na morte do Imperador Valentiniano, o Bispo enfrentou uma dificuldade na sua homilia pois o imperador era somente catecúmeno, ou seja, não tinha sido batizado ainda. A pergunta de todos era: ele foi salvo ou condenado? Santo Ambrósio responde com uma sábia pergunta: "acaso não possui a graça aquele que a desejou? Não recebe aquele que por ela pediu? Certamente quem pede alcança." (conf. "De obitu Valentiniani", 51).

O contemporâneo de Santo Ambrósio, o grande Santo Agostinho recordava os ensinamentos de São Cipriano de Cartago, um Bispo africano como ele, que falava da "salvação do bom ladrão. Ele não foi batizado, mas desejou a salvação e acreditou." (conf. "De baptismate", IV, 22). Portanto, a doutrina sobre o batismo de desejo vem desde a antiguidade.

Desde Pio IX a Igreja tem refletido sobre a realidade de que uma pessoa pode ter um desejo implícito de ser batizada. Ou seja, a pessoa não sabe que o batismo é necessário para a salvação, mas, se tivesse sabido, teria desejado ser batizada. Trata-se da chamada ignorância invencível. O Bem-aventurado Pio IX, em sua alocução "Singulari Quadam", de 1854, afirmou:

"Diante dos olhos de Deus não tem culpa aqueles que estão sujeitos a uma ignorância invencível da religião, pois bem, quem se atreverá a fixar os limites dessa ignorância? Elevemos nossas orações e não faltarão os dons da graça divina para aqueles que desejarem e pedirem com um sincero coração."

Apesar desse posicionamento de Pio IX, permaneceram algumas correntes rigoristas dentro da Igreja, as quais insistiam em afirmar que quem não fosse batizado não seria salvo, iria para o inferno. Diante disso, a Santa Sé teve que intervir, inclusive excomungando algumas pessoas. Como no caso da intervenção do Santo Ofício no dia 08 de outubro de 1949, em que uma carta dirigida ao Arcebispo de Boston resolvendo um problema que estava acontecendo nos Estados Unidos com um grupo de rigoristas, cujo conteúdo transcrevemos:

"... Entre as coisas que a Igreja sempre pregou e nunca deixará de pregar está também a afirmação infalível que nos ensina que "fora da Igreja não há salvação".
Este dogma, porém, deve ser entendido no sentido em que a própria Igreja o entende. Com efeito, não é ao juízo privado que nosso Salvador confiou a explicação do que está contido no depósito da fé, mas ao magistério eclesiástico.
Primeiro, a Igreja ensina que nesta matéria se trata de um preceito muito severo de Jesus Cristo. Com efeito, ele impôs aos seus Apóstolos que ensinassem todas as nações a observarem tudo quanto ele havia mandado. Entre os mandamentos de Cristo não ocupa o último lugar aquele que ordena sermos pelo batismo incorporados ao corpo de Cristo, que é a Igreja, e permanecermos unidos a Cristo e a seu vigário, pelo qual ele mesmo governa de modo visível a sua Igreja na terra. Por isso, ninguém será salvo se, sabendo que a Igreja foi divinamente instituída por Cristo, todavia não aceita submeter-se à Igreja ou recusa obediência ao Romano Pontífice, vigário de Cristo na terra
.
Ora, o Salvador não apenas ordenou que todas as nações entrassem na Igreja mas ainda decidiu que a Igreja seria o meio de salvação sem o qual ninguém pode entrar no reino celeste.
Na sua infinita misericórdia, Deus quis que o efeitos necessários para a salvação provenientes desses meios de salvação - que somente por instituição divina, mas não por necessidade intrínseca, são ordenados para o fim último do ser humano - possam também ser obtidos, em certas circunstâncias, quando estes meios são acionados só pelo voto ou desejo. É o que vemos claramente expresso no sacrossanto Concílio de Trento tanto a respeito do sacramento da regeneração como a respeito do sacramento da penitência.
Ora, deve-se dizer o mesmo, em seu próprio nível, a respeito da Igreja enquanto meio geral de salvação. Pois para que alguém obtenha a salvação eterna não é sempre necessário que seja efetivamente incorporado à Igreja como membro, mas requerido é que lhe esteja unido por voto e desejo.
Todavia, não é sempre necessário que esse voto seja explícito como o é aquele dos catecúmenos, mas quando o homem é vítima da ignorância invencível, Deus aceita também o voto implícito, chamado assim porque incluído na boa disposição de alma pela qual essa pessoa quer conformar sua vontade à vontade de Deus.
É esse o ensino claro [da encíclica de Pio XII]... a respeito do Corpo místico de Jesus Cristo. O Sumo Pontífice distingue claramente os que são realmente incorporados à Igreja como seus membros e os que à Igreja são unidos somente pelo voto. … "Como membros da Igreja contam-se realmente só aqueles que receberam o banho da regeneração e professam a verdadeira fé, nem se separam lamentavelmente do conjunto do Corpo, ou não foram dele cortados pela legítima autoridade em razão de culpas gravíssimas.
"
Pelo fim desta mesma encíclica, todavia, convidando afetuosamente à unidade os que não pertencem ao conjunto da Igreja católica, ele menciona 'os que por certo desejo e voto inconsciente estão ordenados ao Corpo místico do Redentor", sem os excluir de modo algum da salvação, embora de outra parte diga, a seu respeito, que se encontram num estado "em que não podem estar seguros de sua eterna salvação... por carecerem de tantas e tantas graças e auxílios celestes dos quais só na Igreja católica podem fruir."
Por estas providentes palavras, ele condena tanto aqueles que excluem da salvação eterna quantos estão unidos à Igreja só por um voto implícito, como também aqueles que, erroneamente, afirmam que os homens podem ser salvos de modo igual em qualquer religião.
Nem deve-se pensar que para ser salvo baste qualquer tipo de desejo de entrar na Igreja. Pois é necessário que o voto que destina alguém para a Igreja seria animado pela caridade perfeita. O voto implícito só pode ter efeito quando o homem tem a fé sobrenatural.
Do acima dito, aparece claramente que o que, no comentário "From the Housetops", fasc. III, é proposto como doutrina autêntica da Igreja católica fica muito longe desta e causa grande dano tanto aos que estão dentro quanto aos de fora...
Por isso não se pode entender como o Instituto "St. Benedict´s Center" seja coerente consigo mesmo, quando, embora se chame escola católica e queira ser considerada como tal, na realidade não se conforma ao que prescrevem os cânones 1381 e 1382 do Codex Iuris Canonici (1917), sendo uma fonte de discórdia e de rebelião contra a autoridade eclesiástica e de perturbação de muitas consciências. Do mesmo modo, não se compreende como um religioso, a saber, o Pe. Feeney, se pode apresentar como "defensor da fé", se ao mesmo tempo não hesita em combater a instrução catequética proposta pelas autoridades legítimas..." (DH 3866 e seguintes)

De maneira resumida, pode-se dizer que o Santo Ofício reafirma com toda a clareza a doutrina tradicional da Igreja: "fora da Igreja não há salvação", portanto, se uma pessoa há que ser salva deverá ser dentro da Igreja católica. Esta afirmação deve instigar a todos à missionariedade, "pois é um preceito muito severo de Jesus Cristo". Ou seja, não deve arrefecer o ardor missionário de cada um, é dever de cada um pregar o Evangelho e batizar as pessoas. Para além dessas realidades, resta ainda o "batismo de desejo".

O Santo Ofício prossegue dizendo que uma pessoa pode ser incorporada à Igreja não necessariamente pelo batismo, mas pelo voto ou pelo desejo, conforme doutrina expressada anteriormente por Santo Ambrósio e Santo Agostinho. E nem é necessário que esse voto seja feito de maneira explícita. O Catecismo da Igreja Católica confirma esse posicionamento dizendo:

"Para os catecúmenos que morrem antes de seu Batismo, seu desejo explícito de recebê-lo, juntamente com o arrependimento de seus pecados e a caridade, garante-lhes a salvação que não puderam receber pelo sacramento.
"Sendo que Cristo morreu por todos e que a vocação última do homem é realmente uma só, a saber, divina, devemos sustentar que o Espírito Santo oferece a todos, sob forma que só Deus conhece, a possibilidade de se associarem ao Mistério Pascal". Todo homem que, desconhecendo o Evangelho de Cristo e sua Igreja, procura a verdade e pratica a vontade de Deus segundo seu conhecimento dela pode ser salvo. Pode-se supor que tais pessoas teriam desejado explicitamente o Batismo se tivessem conhecimento da necessidade dele." (CIC 1259, 1260)

E em uma outra citação, o Catecismo reafirma essa doutrina dizendo: "Deus pode, por caminhos dele conhecidos, levar à fé todos os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho. Pois sem a fé é impossível agradar-lhe. Mesmo assim, cabe à Igreja o dever e também o direito sagrado de evangelizar todos os homens." (848)

Algumas pessoas pecam pelos dois extremos, existem aquelas que creem que "todos serão salvos, pois Deus é amor e não condenará ninguém, o inferno nem existe" e aquelas que acreditam que se a pessoa não for batizada explicitamente, sacramentalmente, irá para o inferno. A posição católica está entre esses dois extremos, que reconhece que o caminho de salvação é a Igreja, à qual as pessoas podem estar incorporadas pelo batismo ou pelo desejo (implícito ou explícito).

Deste modo o que se pede é que não sejam ecumenistas desvairados, daqueles que colocam todas as religiões e igrejas no mesmo nível, nem intransigentes, daqueles que colocam limites à misericórdia de Deus.

Por fim, é preciso recordar que Deus deixou aos homens a obrigatoriedade do sacramento, porém, esse caminho não é obrigatório para Ele. Ou seja, se o homem deseja ser salvo e recebe a notícia da obrigatoriedade do batismo é dever dele procurar o sacramento. Contudo, essa lei não obriga a Deus. Ele pode usar outros caminhos para incorporar as pessoas a esse corpo de Cristo que é a Igreja Católica.

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