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Homilia Dominical
11 Jun 2016 - 26:13

A ousadia de uma pecadora

O Evangelho deste domingo conta uma das cenas mais belas da vida de Cristo. Ele está comendo na casa de um fariseu, quando é abordado por uma mulher em prantos, que cobre de beijos os Seus pés e os unge com perfume.
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Homilia Dominical - 11 Jun 2016 - 26:13

A ousadia de uma pecadora

O Evangelho deste domingo conta uma das cenas mais belas da vida de Cristo. Ele está comendo na casa de um fariseu, quando é abordado por uma mulher em prantos, que cobre de beijos os Seus pés e os unge com perfume.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 7, 36-8, 3)

Naquele tempo, um fariseu convidou Jesus para uma refeição em sua casa. Jesus entrou na casa do fariseu e pôs-se à mesa.

Certa mulher, conhecida na cidade como pecadora, soube que Jesus estava à mesa, na casa do fariseu. Ela trouxe um frasco de alabastro com perfume, e, ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com perfume.

Vendo isso, o fariseu que o havia convidado ficou pensando: "Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele, pois é uma pecadora".

Jesus disse então ao fariseu: "Simão, tenho uma coisa para te dizer". Simão respondeu: "Fala, Mestre!"

"Certo credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentas moedas de prata, o outro, cinquenta. Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais?"

Simão respondeu: "Acho que é aquele ao qual perdoou mais". Jesus lhe disse: "Tu julgaste corretamente".

Então Jesus virou-se para a mulher e disse a Simão: "Estás vendo esta mulher? Quando entrei em tua casa, tu não me ofereceste água para lavar os pés; ela, porém, banhou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Tu não me deste o beijo de saudação; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. Tu não derramaste óleo na minha cabeça; ela, porém, ungiu meus pés com perfume.

Por esta razão, eu te declaro: os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco, mostra pouco amor". E Jesus disse à mulher: "Teus pecados estão perdoados".

Então, os convidados começaram a pensar: "Quem é este que até perdoa pecados?"

Mas Jesus disse à mulher: "Tua fé te salvou. Vai em paz!"

Depois disso, Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa-nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; e também algumas mulheres que haviam sido curadas de maus espíritos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam.

*

A passagem proclamada na liturgia de hoje constitui, sem dúvida, uma das cenas mais belas dos Evangelhos. A imagem que nos é colocada pelo Evangelho de São Lucas representa o que acontece conosco em cada comunhão eucarística: ainda que possamos tocar a humanidade santíssima de Cristo que se esconde sob as espécies do pão e do vinho, o sentimento que usualmente nos sobrevém — se não estamos contaminados pela arrogância — é o de uma profunda miséria e indignidade, pelo que, assim como a pecadora do Evangelho, a única coisa que conseguimos fazer é "banhar-lhe os pés" a Cristo, reconhecendo a nossa pequenez diante da Sua misericórdia redentora. Oxalá sempre repetíssemos em nossas comunhões esta belíssima narração que escutamos no dia de hoje!

A riqueza de detalhes com que São Lucas relata esse episódio suscita um questionamento importante. Diz o Evangelho que a mulher "trouxe um frasco de alabastro com perfume e, ficando por detrás, chorava aos pés de Jesus", e que "com as lágrimas começou a banhar-lhe os pés, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e os ungia com perfume" (v. 37-38). Esta é uma imagem esponsal, de uma expressão íntima de amor. A pergunta é: o que levou aquela mulher, "conhecida na cidade como pecadora", a tamanha ousadia? Se sabia de sua condição e conhecia de quem se aproximava, como se atreveu a tanto?

A resposta deve ser encontrada na , fé bem concreta que aquela mulher tinha no amor salvífico de Deus, e que a justificou. Como diz a segunda leitura deste domingo, de fato, "ninguém é justificado por observar a Lei de Moisés, mas por crer em Jesus Cristo" (Gl 2, 16). Simão, o fariseu, embora externamente parecesse justo, não teve fé em Jesus: quando ouviu Ele perdoar os pecados àquela mulher, somou sua voz à dos outros convidados e perguntou, escandalizado, quem era aquele homem. Aquela pecadora pública, no entanto, sequer se teria aproximado de Cristo se não acreditasse que Ele era muito mais que um simples homem.

O objeto específico de sua fé, como dito, é o amor de Deus, que "nos amou primeiro" (1 Jo 4, 19). A salvação humana é, pois, de iniciativa divina, mas não se efetiva sem a virtude da . Essa é uma verdade que pode ser observada não só na teologia, mas também nas relações humanas: uma pessoa só se dá conta do amor que recebe de outrem porque sua inteligência é capaz de abstrair dos gestos concretos captados por seus sentidos físicos. Se, per absurdum, alguém sacrificasse a própria vida por seu cãozinho de estimação, agiria em vão: desprovidos de intelecto, o máximo que os animais podem perceber são afetos sensíveis; não são capazes de receber amor, mas tão somente "carinho".

No caso do amor de Deus, que ultrapassa o alcance de nossa inteligência, é preciso que a Sua graça venha em nosso socorro. Por isso, a fé cristã não é algo meramente humano, mas uma virtude teologal. Sem o auxílio divino, de fato, seria impossível aceitarmos o fato de um Deus que ama tanto as Suas criaturas a ponto de tomar a forma de uma delas para salvá-las; o máximo a que conseguiríamos chegar seria uma heresia como o jansenismo.

Com a Encarnação da segunda Pessoa da Trindade, porém, fica claro que o amor de Deus não é uma teoria abstrata, um ideal platônico ou utópico: o amor divino tem um lugar, que é o Sagrado Coração de Jesus. "O Verbo se fez carne" e tomou um coração de carne humana para Se entregar por nós. Por isso, quando recebemos o Seu corpo, não recebemos um corpo qualquer, mas um corpo dilacerado; quando recebemos o Seu sangue, não é um sangue qualquer, mas um sangue derramado; quando recebemos o Seu coração, recebemo-lo traspassado; Suas mãos, chagadas; e, do mesmo modo, todas as partes de Sua humanidade.

Diante desse mistério tão grandioso, a única resposta possível é a da pecadora arrependida do Evangelho: a gratidão. Prostrada aos pés do Senhor, aquela mulher é "eucaristia viva": todos os seus atos são uma ação de graças pelo perdão que ela recebeu. "Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco, mostra pouco amor" (v. 47).

Assim como esta mulher, possamos também nós oferecer a Deus a nossa ação de graças, unindo os nossos gestos à reparação infinita que o próprio Cristo oferece na Cruz. Neste fim de semana em que também celebramos a memória do Anjo de Portugal, rezemos com fé a oração que ele ensinou aos três pastorinhos de Fátima: "Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam."

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