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262. O sacrifício pelos pecadores

Em Fátima, a Virgem Maria disse aos Pastorinhos: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, porque muitas almas vão para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas”. Mas como se dá isso? Minhas orações e sacrifícios podem realmente ajudar a salvar os pecadores?

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Se perguntássemos a um católico minimamente instruído o que significa a comunhão dos santos, ele provavelmente responderia que se trata da união espiritual entre a Igreja triunfante, padecente e militante, e que, por meio dessa união, nós podemos pedir favores aos santos do Céu e também interceder pelas almas do Purgatório.

Sem dúvida, essa resposta está correta. Faltar-lhe-ia, porém, uma nota importantíssima que, não raro, é negligenciada em nossas pregações, seja porque não a conhecemos, seja porque não lhe damos a devida importância. Essa nota diz respeito à comunhão espiritual que existe entre nós, ou seja, os fiéis católicos que vivemos na terra.

Para termos uma noção prévia do que significa essa comunhão, recordemos primeiro o que disse Nossa Senhora, em Fátima, aos três pastorinhos: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, porque muitas almas vão para o inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas”.

Notemos a gravidade desse pedido da Mãe de Deus. Ela fala abertamente de uma comunhão espiritual, no sentido de atos concretos pela salvação das almas. Em outras palavras, a Virgem Maria está recordando que, com orações e sacrifícios voluntários, um católico pode merecer a salvação de uma alma que, abandonada a si mesma, estaria condenada ao Inferno.

Não deixa de ser curioso que Maria Santíssima tenha aparecido a três crianças para lhes pedir algo que está na origem de toda a celeuma entre católicos e luteranos. Para um protestante comum, a ideia de que podemos merecer algo de Deus, sobretudo a salvação de uma alma, é totalmente escandalosa. Por isso, precisamos meditar bem sobre esse artigo de fé, a fim de vencer todo equívoco e corresponder àquilo que não é simplesmente um pedido de uma revelação particular, mas algo que faz parte da Revelação pública de Deus.

A posição protestante (cf. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática, Barcelona: Editorial Herder, 1966, p. 403).A maior parte das pessoas acredita que o problema de Lutero com a Igreja Católica diz respeito à “venda das indulgências”. Essa crença, eivada de lendas e maledicências, é, na verdade, uma visão bastante limitada do que realmente significou o protesto de Lutero. No fundo, o fundador do protestantismo pretendia modificar a teologia da justificação, defendendo que o homem, depois do pecado original, teria se tornado um ser totalmente corrompido.

Lutero entendia que os méritos de Cristo na cruz serviam apenas para justificar os erros do homem, não para santificá-lo. Desse modo, a natureza humana seria coberta por um “véu de caridade”, algo meramente exterior e sem qualquer influência sobre a tendência do homem ao pecado. Este, mesmo depois de batizado, permaneceria escravo do mal, pelo que todos os seus atos, até os mais bem intencionados, terminariam como “obras do maligno”.

A partir desse raciocínio, a conclusão de Lutero não poderia ter sido outra senão a negação da santidade cristã e da doutrina dos méritos.

A posição católica.A doutrina católica, por sua vez, não ignora que o homem tenha “uma natureza ferida, inclinada para o mal”, porque uma tal posição, ensina o Catecismo, daria lugar “a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes” (n. 407). De fato, a inclinação do homem para o mal é algo que salta aos olhos.

Por outro lado, é também verdade de fé que Deus, por meio dos méritos de Cristo na cruz, realiza na alma humana uma autêntica transformação, cujo efeito imediato é a geração de um organismo espiritual em nós, onde a Trindade Santíssima faz a sua morada. Esses méritos de Cristo nos chegam por meio do Batismo, e devem crescer mediante a nossa resposta de amor, até nos configurarmos totalmente ao Bom Mestre. Nosso Senhor nos redimiu na cruz para que, pela sua graça, sejamos capazes de amar e merecer a passagem pela porta estreita.

Neste sentido, a Santa Igreja ensina que, por meio da graça de Deus, nós podemos, sim, realizar atos meritórios, porque a fonte desses atos não é, sic et simpliciter, a vontade humana, mas o próprio Senhor. Sem essa graça de amar, aliás, a vida humana não valeria a pena, porquanto ainda que falássemos “as línguas dos homens e dos anjos”, se não tivermos caridade, adverte o Apóstolo, seremos “como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine” (1Cor 13, 1).

A caridade que Deus infunde no coração do batizado precisa ser cultivada para que gere frutos do Espírito. Ao contrário, a sua falta de cultivo deve levar a pessoa à morte espiritual, que é a consequência de qualquer pecado mortal. Por isso, o Concílio de Trento afirmou:

Se alguém disser que os justos não devem esperar de Deus a retribuição eterna pelas boas obras feitas em Deus, pela misericórdia do mesmo Senhor e merecimentos de Jesus Cristo, se perseverarem até ao fim, obrando bem e observando os preceitos divinos — seja excomungado (DH 1576).

Os méritos de Cristo e os nossos. A confusão acerca da doutrina dos méritos é consequência de uma má compreensão do ensinamento católico. Quando a Igreja afirma que os católicos podem realizar atos meritórios, ela está fazendo uso de uma linguagem analógica, sem a qual, aliás, dificilmente se pode praticar uma teologia ortodoxa. Todo mérito é, stricto sensu, de Cristo e apenas de Cristo. Afinal de contas, Ele é que podia padecer as dores pelos nossos pecados; foi pelo seu precioso sangue, e “não por bens perecíveis, como a prata e o ouro”, diz São Pedro, que fomos resgatados da nossa vã maneira de viver, recebida por tradição de nossos pais (1Pe 1, 28). Eis o preço da nossa salvação.

Mas, uma vez que a graça batismal nos une intimamente a esse mesmo Corpo, por cujo sangue veio a salvação do mundo, nós temos assim a condição de completar na nossa carne “o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1, 24). É a partir dessa perspectiva que podemos falar, lato sensu, de atos meritórios ou, como dizem os bons teólogos, mérito de condigno, por conta da dignidade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Pense-se, por exemplo, num soldado que realizou esforços heróicos, além da média dos demais, e que recebe, por isso, uma “medalha de honra”, segundo a benevolência de seus compatriotas. Na batalha espiritual pela salvação das almas, não há dúvida de que a vitória é toda e inteiramente de Cristo. Mas no fronte de guerra, alguns de seus soldados, que Ele mesmo escolheu e capacitou, realizaram atos de amor extraordinário, e Deus deve recompensar “a cada um segundo as suas obras” (Rm 2, 6). Os grandes santos da Igreja, que abalaram o mundo e mudaram o rumo da história, são esses soldados cheios de medalhas, por cujos atos muitos outros soldados foram salvos.

Quando um santo intercede por uma alma aqui da terra, o seu pedido é muito diferente do de um pagão ou crente relaxado, porque o santo não é um soldado comum. Ele tem muito mais “créditos”, porque arriscou mais a sua vida. No céu, aliás, há diferentes graus de santidade, razão pela qual existem santos mais “taumaturgos” que outros. Deus atende mais facilmente ao pedido desses seus amigos fiéis.

O testemunho de Santa Mônica e Santo Agostinho. — A conversão de Santo Agostinho é um exemplo claro da doutrina sobre os atos meritórios. Graças às lágrimas de sua mãe, Santa Mônica, Deus não permitiu que aquele filho se perdesse, como disse Santo Ambrósio, e atendeu à oração insistente daquela intrépida soldada. Santa Mônica mereceu a conversão de Agostinho.

Do mesmo modo, nós devemos oferecer as nossas “lágrimas” pela salvação dos nossos filhos, irmãos, amigos e inimigos, a fim de que eles também cheguem ao Céu. De fato, a salvação de uma alma é mérito de Nosso Senhor, mas Ele nos escolheu como cooperadores na obra da redenção. Como a gota de água que se perde no vinho para transformar-se em Sangue de Nosso Senhor na consagração, assim devem ser os nossos sacrifícios pela salvação da humanidade. Unidos ao único sacrifício de Jesus, eles podem merecer a conversão de muitas e muitas almas.

Os atos de amor são como que a “moeda” para a entrada no Céu. Acompanhados pela oração, eles devem estar muito presentes na vida de todo cristão, porque é apenas neste tempo que podemos conquistar os méritos diante de Deus. As almas santas apenas gozarão do tesouro que ajuntaram no Céu durante a passagem por este mundo (cf. Mt 6, 20). Nenhum “mérito novo” lhes será acrescentado. O lugar de “merecer” algo é, portanto, aqui, onde podemos livremente amar a Deus, sofrendo as contradições do mundo em benefício das almas.

A solução de Santo Tomás. — A respeito da possibilidade de merecermos algo por alguém, o Doutor comum da Igreja tratou de explicar que essa espécie de merecimento não é ex condigno, mas ex congruo (STh I-II 114, 6 c.): 

Como do sobredito resulta, as nossas obras podem ser meritórias, por duas razões. Primeiro, em virtude da moção divina, e então, merecemos condignamente. Depois, por procederem do livre arbítrio, pelo qual agimos voluntariamente. E por este lado, o mérito é côngruo; pois é congruente, que o homem, usando bem das suas capacidades, Deus obre mais excelentemente, de conformidade com a sobreexcelência do seu poder.

Por onde é claro que, por mérito condigno, ninguém, salvo Cristo, pode merecer para outrem a primeira graça. Porque todos nós somos movidos por Deus, pelo dom da graça, para chegarmos à vida eterna; e portanto, o mérito condigno não pode ir além dessa moção. A alma de Cristo, porém, recebeu, pela graça, essa moção divina, não só para alcançar a glória da vida eterna, mas também para levar os outros para ela, como cabeça da Igreja e autor da salvação humana, conforme a Escritura: Levou muitos filhos à glória, ele o autor da salvação etc.

Por mérito côngruo, porém, podemos merecer para outrem a primeira graça. Pois, quando o homem, constituído em graça, cumpre a vontade de Deus, é congruente que Deus, por uma amizade proporcional, cumpra a vontade de um relativa à salvação de outro. Embora, às vezes, possa advir impedimento por parte daquele a quem esse justo desejava a justificação.

Vejamos, portanto, que esse mérito de côngruo diz respeito à nossa amizade com Deus. No caso de Santo Agostinho, por exemplo, ele não se converteu simplesmente porque aderiu, por sua conta, ao dogma da fé, mas porque sua mãe, estando em profunda amizade com Nosso Senhor, obteve o favor de ver o seu filho Agostinho entrar na grei de Cristo.

Pensando na gravidade desse assunto, o Papa Pio XII escreveu assim numa de suas encíclicas: 

Tremendo mistério, e nunca assaz meditado: Que a salvação de muitos depende das orações e dos sacrifícios voluntários, feitos com esta intenção, pelos membros do corpo místico de Jesus Cristo, e da colaboração que pastores e fiéis, sobretudo os pais e mães de família, devem prestar ao divino Salvador. (Mystici Corporis, n. 43).

A nossa responsabilidade pelas almas. A doutrina sobre os atos meritórios é, de resto, uma grande exortação da Igreja ao amor pelos irmãos, dado que a lei máxima é a salvação das almas. Trata-se, portanto, de grave negligência a falta de orações e sacrifícios pela conversão dos pecadores, o que não passou despercebido na mensagem de Fátima. Foi justamente para acordar as consciências cristãs a respeito desse tema que Nossa Senhora apareceu aos três pastorinhos. Afinal de contas, a prova do amor está no sacrifício que fazemos pelos irmãos.

A esse respeito, que exemplo nos dão as carmelitas de Santa Teresa! Quando esta ouviu falar dos estragos que os luteranos faziam às almas, ela decidiu-se vivamente a oferecer todos os seus sacrifícios pela conversão daquelas almas. E assim fazem até hoje as suas filhas fiéis. Elas não pensam com a mesquinhez do diabo, mas com a benevolência de Cristo, que nos honra com a grande missão de ser instrumento para a salvação de muitos.

Essa missão pode se expressar, segundo o Magistério, de três modos: 1) pela oração de intercessão; 2) pelo merecimento em favor dos outros; e finalmente 3) pela satisfação vicária.

O primeiro ponto parece bastante claro e pacífico. A oração de intercessão é coisa antiquíssima, e está presente na Sagrada Escritura desde Abraão. O segundo ponto se refere ao mérito de côngruo, do qual já tivemos oportunidade de falar acima. O terceiro ponto, por sua vez, refere-se ao fato de podermos assumir para nós as penas de outrem, verdade da qual decorre a possibilidade das indulgências. 

Desde muito cedo, os Padres da Igreja entenderam que o martírio servia como expiação pelos pecados dos fiéis. Isso aparece em Santo Inácio de Antioquia, São Cipriano, Santo Ambrósio, e em outros escritores cristãos como Orígenes e Tertuliano. Para arrematar esse ensinamento, Santo Tomás de Aquino cita a Carta de São Paulo aos Gálatas, na qual o Apóstolo diz: “Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a Lei de Cristo” (STh III 48). Desse modo, a Igreja sempre se apropriou de tal “tesouro” para perdoar as penas dos pecadores, como ocorreu com os “cristãos lapsos” nos primeiros séculos do cristianismo.

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