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Por que existe a oração de intercessão?

Quando se reza e intercede cheio de amor aos outros, o maior milagre não é aquilo que se obtém externamente com a oração, mas o que Deus mesmo está realizando dentro do coração de quem reza.

Texto do episódio

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 11,1-13)

Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’”.

E Jesus acrescentou: “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. Será que algum de vós, que é pai, se o filho lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”

Estamos meditando o evangelho de São Lucas e chegamos à belíssima passagem em que Jesus ensina aos discípulos o Pai-nosso. No evangelho de São Mateus, durante o Sermão da Montanha, Jesus ensina muitas coisas para a nossa vida cristã. Uma delas, dentro deste belíssimo sermão, que ocupa os capítulos cinco, seis e sete de Mateus, é também o Pai Nosso, na versão que estamos acostumados a rezar em todas as Missas.

Porém, os Evangelhos nos dizem que Jesus ensinou o Pai-nosso em duas ocasiões diferentes. Uma delas é a de hoje, no evangelho de Lucas, o evangelista que mais insiste no fato de que Jesus rezava. Pelo menos nove vezes, Lucas diz que Jesus estava rezando. Isso quer dizer que Jesus rezava sempre. Sendo Deus feito homem, Jesus estava continuamente unido a Deus. Ele não precisava rezar, e no entanto queria rezar. Rezava para nos dar exemplo e para cumprir sua missão na terra.

Assim, a primeira coisa notável no Evangelho deste domingo é esta belíssima cena: Jesus estava rezando em certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar”. Verba movent, exempla trahunt, as palavras movem, mas os exemplos arrastam. Jesus rezava porque sabia que, com isso, estava nos atraindo para a oração.

Deus quer que nós rezemos, porque a oração é importante para nós, mas também porque a oração é uma forma de participar do projeto de salvação, dos planos de amor divino para a humanidade. Podemos, assim, ver a oração sob dois aspectos: o que a oração faz conosco, e o que a oração faz no plano de salvação de Deus. Do que a oração faz conosco podemos tratar longamente num curso de ascética e mística: que nós devemos fazer para rezar, para ser mais santos, para mudar a nossa vida etc., etc.

No entanto, a liturgia deste domingo parece nos chamar atenção para o outro aspecto da oração, entendida não só como forma de nos transformar a nós, mas como meio de participar dos desígnios de Deus. Falamos aqui da oração de intercessão. A Primeira Leitura de hoje, com efeito, é tirada do Gênese. Deus parece ter decidido punir as cidades de Sodoma e Gomorra, que o ofendem com pecados que clamam ao céu; mas, eis que se levanta Abraão.

Ele se apresenta diante de Deus para interceder, dizendo: “Senhor, se houver pelo menos cinquenta justos na cidade, ireis exterminá-la?” Deus responde que, se houver cinquenta justos, poupará a cidade. Abraão insiste e vai diminuindo o número, de cinquenta para quarenta e cinco, depois para trinta, depois para vinte, depois para dez, e Deus responde que, se houver dez justos, Ele não destruirá a cidade. O problema é que não havia nem sequer dez justos. Por isso, Deus puniu as cidades de Sodoma e Gomorra. Eis o resumo da história.

Nesse relato, a primeira coisa que nos chama atenção é o fato de Abraão parecer mais compassivo, mais misericordioso e mais bondoso do que Deus, como se houvesse uma luta entre os dois. O homem bondoso, compassivo e misericordioso tenta convencer um Deus irado, justiceiro e vingativo a não se irritar com as cidades pecadoras.

Ora, nós sabemos que Deus é amor; logo, é evidente que Ele ama Sodoma e Gomorra mais do que Abraão as ama. Deus não precisa ser convencido a ter misericórdia. O que é que Deus, afinal, está querendo nos mostrar por meio dessa oração tão estranha de Abraão? Deus quer ouvir as nossas orações, quer fazer o bem e ser misericordioso, mas Ele também quer fazer tudo isso contando com a nossa oração, com a nossa bondade e com a nossa misericórdia.

Numa palavra, Deus quer nos incluir em seus desígnios de amor. Ele não quer apenas que o fiel se recolha numa montanha para rezar unicamente por sua própria salvação, como se não houvesse outras almas que salvar e santificar. Deus quer dos santos um coração como o seu. Por isso determinou conceder certas graças, sob a condição de que nós, filhos seus, sejamos misericordiosos como o Pai.

Para ilustrar essa realidade, vejamos o caso de Santo Agostinho, um pecador que, durante trinta e dois anos, cometeu atos que ofenderam gravemente a Deus, chegando inclusive a ter um filho fora do matrimônio. Agostinho, no entanto, tinha uma mãe bondosa, Santa Mônica, que rezou, intercedeu, sofreu e que suplicou em seu favor. Desde a eternidade, Deus decretou converter Santo Agostinho, mas o decretou sob a condição de Santa Mônica verter para isso muitas lágrimas de súplica. 

Não é que Deus, cruel, quisesse castigar Agostinho, nem significa que Mônica tenha mudado, por suas preces, a vontade divina. Não, a nossa oração não pode alterar a vontade de Deus. Não rezamos para que Deus passe a querer o que antes não queria. Na verdade, nós rezamos, intercedemos e pedimos coisas a Deus porque Ele, que quer dar suas graças, decretou dá-las por meio de nossa oração, do nosso pedido e da nossa intercessão.

Nesse sentido, a oração de intercessão é uma forma de participarmos da misericórdia de Deus, que é tão amoroso e tão misericordioso, que quer que também nós o sejamos junto com Ele. 

Vejam que isso é uma grande perfeição divina, porque imagine só se Ele decretasse assim: “Eu vou ser misericordioso com os sete bilhões de habitantes do planeta Terra agora, neste momento”. Muitas dessas pessoas são egoístas, inescrupulosas, de coração endurecido, vingativas, más, insolentes, impiedosas. São sete bilhões de pessoas que merecem o inferno, mas, na hora da morte, Deus pode misericordiosamente dar-lhes o arrependimento e, sem ter feito atos de amor durante a vida, com um único ato de amor e arrependimento na hora da morte, eles irão se converter. Ou seja, a vida humana sobre o planeta vai ser um inferno, mas, ao final, Deus exerceria sua misericórdia e magicamente todos iriam para o Céu. Se esse fosse o desígnio divino, tudo bem, seria um ato de amor. Porém, não é muito mais amoroso que Deus, em vez de querer isso, queira que nós, enquanto caminhamos neste mundo, já exerçamos atos de amor e amemos como Ele ama, tendo um coração igual ao Dele?

Não é fantástico que, em nossos dias de peregrinação na terra, nós possamos participar do amor divino? Para quem é mãe e tem um filho afastado da fé, como Santa Mônica teve Santo Agostinho, é maravilhoso que Deus tenha incluído em seus desígnios levar esse filho para o céu através das orações e dos sacrifícios dela e, assim, dar não só ao filho a graça da conversão, mas também à mãe a da santidade! Na terra, também Jesus rezou, derramou lágrimas, suou sangue e morreu na cruz intercedendo por nós!

Observemos que a oração de Jesus no Evangelho deste domingo é bonita. Ele estava rezando em um lugar separado, mas o próprio São Lucas irá narrar que, durante a Paixão, enquanto Jesus era pregado na Cruz, Ele repetidamente dizia: “Pai, perdoai-os; eles não sabem o que fazem”. É a oração que mostra a grandeza do Coração de Jesus. 

Deus desceu do céu para ser não só Deus a quem nós rezamos, mas para ser o homem que reza por nós, Jesus, Deus e homem verdadeiro. Ele é o Deus a quem rezamos e, ao mesmo tempo, o homem que intercede e sofre por nós, para nos mostrar qual é o desígnio de Deus: que tenhamos um coração como o de Cristo, coração compassivo que reza e sofre pelos outros. Porque rezar, interceder e sofrer é um ato de amor.

Quem não sofre por ninguém, não ama ninguém. Façamos um exame de consciência. Pensemos na última semana. Como foi essa semana do último domingo até hoje? Sofremos pelo bem de alguém? Porque, se não estamos sofrendo por ninguém, então não amamos ninguém.

Sofrer não quer dizer chorar, descabelar-se, sentir-se deprimido ou angustiado, sem paz etc. Sofrer é, por exemplo, acordar cedo para trabalhar pensando: “É pela minha mulher e pelos meus filhos. É para levá-los para o céu”. Isso, de certa forma, já é um sofrimento. Intercedemos pela nossa família? Estamos dispostos a dar a vida pelas pessoas, para que vão para o céu e se salvem? Abraão intercedeu por Sodoma e Gomorra, um povo miserável que não merecia compaixão; mas, ainda assim, ele pediu a Deus: “Se houver uma chance, poupai, Senhor, essas cidades”.

Assim também Jesus. Abraão é uma profecia, e sua intercessão por Sodoma e Gomorra é figura da intercessão de Jesus no alto da cruz: “Pai, perdoai-os”. E Jesus quer isso de nós, quer que nós saiamos do nosso egoísmo e amemos como Ele ama.

Quando a Igreja ordena um sacerdote ou um diácono, confia-lhe a missão de rezar e de interceder pelo povo, como outro Abraão. O bispo, aliás, pergunta ao padre no dia da ordenação: “Queres, juntamente conosco, implorar a misericórdia de Deus pelo povo de Deus a nós confiado, sendo assíduo ao dever da oração?”

É por isso que a Igreja põe nas mãos do padre a Liturgia das Horas, o Breviário. Não é uma oração privada e pessoal do padre, mas um ofício, um dever de interceder pelo povo. O padre reza a Liturgia das Horas pela Igreja, pelos pecadores, pelos ateus, pelos que estão em falsas religiões, pelos que estão distantes. O padre tem de rezar, tem de interceder. É um dever do seu ministério. “Queres, juntamente conosco”, diz o bispo, “implorar a misericórdia de Deus?”. Assim fez Abraão, assim fez Jesus. 

Se Deus é Deus de misericórdia, quer filhos de misericórdia e, para isso, nos ensina a rezar. Ele quer conceder a graça, quer poupar essa humanidade louca; não quer fazer chover castigos — castigos bem merecidos! — sobre o mundo atual, que está muito pior do que Sodoma e Gomorra; não quer fazer cair enxofre sobre nós. Ele quer ser misericordioso, quer ser clemente, quer ser compassivo, mas quer sê-lo contando com nossa compaixão e misericórdia. Eis por que Nossa Senhora de Fátima pergunta aos pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus?” e ensina-os a fazer sacrifícios pela conversão dos pecadores e a reparar as ofensas feitas ao Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria. 

Por que Deus quer isso? Não é Ele misericórdia? Deus não podia simplesmente ignorar nossos pecados, pondo para sempre uma pedra sobre eles? Sim, mas o Senhor é tão bom, que não quer fazer isso sozinho. É parte da bondade de Deus que Ele queira salvar a humanidade servindo-se de homens. Por isso a liturgia deste domingo nos ensina a crer no poder da oração. Ao fazer essa oração desinteressada, que não se lembra de si mesma, mas das necessidades de salvação dos outros, Jesus nos mostra o que Ele mais deseja fazer: transformar o nosso coração num coração semelhante ao seu.

Quando se reza e intercede cheio de amor aos outros, o maior milagre não é aquilo que se obtém externamente com a oração, mas o que Deus mesmo está realizando dentro do coração de quem ora. Sim, ficamos admirados com a conversão de Agostinho; mas milagre maior foi o que se estendeu por trinta e dois anos de espera, de oração, de sofrimento, de lágrimas e de intercessão no coração de Santa Mônica. Olhamos para a conversão de Agostinho e dizemos: “Nossa! Milagre em Agostinho!” Mas deveríamos também dar glória a Deus e dizer: “Milagre em Santa Mônica!”, um coração de mãe santificado e, por isso, semelhante ao de Cristo e ao de Maria. 

Sejamos, pois, verdadeiramente assíduos no dever da oração, assíduos na intercessão. Claro que existe a oração íntima, feita também para o nosso progresso espiritual, a qual não deve ser esquecida. Inclusive, temos o curso Direção Espiritual: Aprenda a Rezar, onde ensinamos como fazer a oração íntima, a fim de crescer espiritualmente.

No entanto, além dessa oração que visa a própria intimidade e união com Deus, é necessário dedicar-se também à oração de intercessão. Até porque, se a oração pessoal for verdadeira, ela nos leva a sentir os desejos de Deus: o amor dele arde em nosso coração para interceder por essa humanidade tão necessitada das graças e da misericórdia divina.

Aproximemo-nos de Jesus neste domingo, dizendo com amor e confiança: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também o Senhor ensinou aos seus discípulos”.

* * *

1. Argumento. — A pedido dos discípulos, propõe-lhes Jesus uma fórmula de oração; em seguida, acrescenta alguns avisos sobre a eficácia da oração perseverante.

2. Circunstâncias.a) Tempo e lugar. — Sobre o lugar e o tempo em que o Pai-nosso foi proferido nada dizem explicitamente os evangelistas. Mateus o insere no Sermão da Montanha, enquanto Lucas (cf. 11,1) exige claramente outra ocasião; mas qual? O fato de Lucas colocá-lo após a cena de Betânia permite inferir a proximidade (ao menos provável) de tempo e lugar entre os episódios. Marcos não relata o Pai-nosso, mas refere alguns ensinamentos parecidos, ditos no caminho de Betânia a Jerusalém (cf. 11,25s). Uma antiga tradição que remonta ao séc. XI (c. 1095) afirma que o Pai-nosso foi proferido no monte das Oliveiras, perto (“à distância de um tiro de pedra”, Lc 22,41) do que hoje é o sacelo da Ascensão.

b) Composição. — 1) Lucas e Mateus preservaram a Oração dominical em formas um pouco distintas. Mateus traz 7 petições; Lucas, apenas 5 (omite a 3.ª e a 7.ª), formuladas com outras palavras. Qual terá sido a forma original é tema controverso. Se no passado muitos atribuíram ambas as versões ao Senhor, ditas por Ele em diferentes circunstâncias, o que em si mesmo é possível mas não muito provável, hoje a maioria dos autores rejeita essa opinião e atribui as diferenças de forma à tradição oral ou aos critérios redacionais de cada evangelista, o que parece valer também para a forma da consagração (cf. Agostinho, Enchirid. 116: ML 40,286). — 2) Se se pergunta qual dos evangelistas conservou a forma genuína, cumpre responder com Agostinho que foi Mateus, como se infere tanto de sua conhecida fidelidade em transmitir as palavras do Senhor (cf., e.g., as bem-aventuranças, a conclusão do Sermão da Montanha etc.) como da disposição rítmica por ele preservada, de tonalidade mais semítica, ao que se pode acrescentar o costume de Lucas de resumir os fatos e as ideias ao essencial.

3. Explicação. — Instado pelos discípulos a que lhes ensinasse, a exemplo de João Batista, alguma fórmula de oração [1], Jesus recitou esta prece admirável, que pode ser considerada um compêndio da doutrina celeste e um breviário de todo o Evangelho (cf. Tertuliano, De orat. 1: ML 1,1255). A partir de Agostinho, tornou-se costume entre os latinos distinguir 7 pedidos, dos quais os 3 primeiros (classificados como optata, i.e., desejos) se referem à glória de Deus, enquanto os 4 restantes (chamados petitiones, i.e., petições stricto sensu) apresentam a Deus as necessidades humanas. No entanto, os Padres gregos, seguidos hoje por boa parte dos expositores, distinguem apenas 6 pedidos, na medida em que interpretam o 7.º como complemento do 6.º — Em Mateus, a Oração dominical é precedida por uma proibição do multilóquio (gr. πολυλογία) na oração (cf. 6,7); e, com efeito, do ponto de vista redacional, o v. 7 não é continuação dos vv. 5–6, que censuram a ostentação de piedade e recomendam a oração em segredo, mas uma introdução, ao modo de advertência por contraste, à forma por excelência da oração cristã: “Nas vossas orações não useis muitas palavras”. É incerta tanto a forma quanto a etimologia do verbo gr. correspondente (βατταλογήσητε, ou βαττο. …?). O sentido porém se depreende facilmente do contexto, já que é explicado logo em seguida por πολυλογίᾳ; donde: “Não multipliqueis palavras fúteis e inúteis nem vos expresseis prolixamente, como fazem os gentios”. De fato, os pagãos davam excessiva importância aos giros retóricos e ao aprumo de linguagem, e pensavam que à força de palavras poderiam dobrar a vontade divina, como se Deus fora um juiz para quem valesse mais a eloquência das partes que a justiça do caso em apreço [2]. 

N.B. — Leiam-se, e.g., as invocações dos profetas de Baal (1Rs 18,26ss), as séries intermináveis de epítetos grandiloquentes nos hinos babilônicos, as fórmulas encantatórias nos papiros mágicos da época helenística etc. A expressão lt. fatigare deos (cf. Sêneca, Ep. XXXI 5; Marcial Ep. VII 60, 3) atesta o mesmo vício. Também nos escritos rabínicos é comum encontrar orações desnecessariamente prolixas.

— “Julgam que serão ouvidos à força de palavras”, i.e., que a repetição vã de certas fórmulas merece por si só a atenção de Deus, como se Ele gostasse de verbosidade bajulatória ou precisasse de muitas palavras para conhecer os pedidos e as necessidades dos homens. — Atente-se a que o Senhor reprova o uso de muitas palavras por ser algo desnecessário, sobretudo quando se atribui a eficácia da oração à abundância de fórmulas ou ao número de repetições; isso porém não exclui a legitimidade e o valor da oração constante, frequente e até repetida segundo um mesmo padrão. Tampouco é intenção de Cristo dirimir diretamente a controvérsia rabínica sobre o valor da oração em função da duração. Ele mesmo dedicou longos períodos à oração (cf. Mt 4,1ss; Mc 13,5; Lc 5,16; 6,12; 9,18; 11,1; 22,43; Mt 26,36ss etc.), recomendou mais de uma vez a oração constante e perseverante (cf. Lc 11,5-13; 18,1ss; 22,40.46 etc.) nem teve medo de repetir ao menos três vezes a mesma oração no Horto (cf. 26,39.42.44); contudo, não há por que duvidar que Cristo rezasse ao Pai por meio de breves jaculatórias, elevando aos céus sua alma santíssima com a máxima frequência [3].

4. A Oração dominical. — Os que quiserem conhecer as riquezas do Pai-nosso podem ler nossa tradução ao comentário de Santo Tomás de Aquino, disponível neste link.

Dubium. — A quem rezamos no Pai-nosso, a Deus Pai ou a toda a Trindade? A resposta depende da acepção que se dê à palavra “pai” aplicada in divinis, ou seja, se ela é utilizada em sentido primário e pessoal (personaliter), ou derivado e essencial (essentialiter). No primeiro caso, a razão significada pelo nome, por importar uma relação de origem em unidade de natureza, cumpre-se propriamente na primeira hipóstase, chamada Pai (per prius) por referência à geração do Filho; no segundo, a razão significada pelo nome, por importar uma relação de origem com diversidade de natureza, é comum às três hipóstases, chamadas pai (per posterius) por referência à produção das criaturas. Com efeito, na medida em que há certa semelhança entre o que gera e o que é gerado, e sendo comum a toda a Trindade a obra da criação, também o Filho e o Espírito Santo podem ser chamados pai (e.g., Pai do futuro século, dito do primeiro; Pai dos pobres, dito do segundo), porque tanto eles quanto o Pai são o criador do mundo e o princípio de semelhança das criaturas racionais (por imagem, segundo o intelecto e a vontade; por graça, segundo a filiação adotiva; e por glória, segundo a deificação do intelecto) [4]. Em resumo, se se toma “pai” como nome próprio, enquanto importa relações pessoais, a oração dirige-se especificamente a Deus Pai; se se toma, porém, como nome comum, enquanto importa uma referência às criaturas, a oração dirige-se indistintamente às três hipóstases.

5. Perseverança na oração (cf. Lc 11,5-9; Mt 7,7).a) Imagem. Certo homem acolheu um amigo que viera procurá-lo de noite; mas, como não tivesse nada com que alimentá-lo, acudiu a um vizinho para pedir alguns pães emprestados. O vizinho, porém, respondeu de dentro de casa: “Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos” (não servos, como queria Agostinho, mas filhos: παιδία) “e eu já estamos deitados” (não necessariamente no mesmo leito, mas simplesmente no mesmo quarto). — “Mesmo que o outro”, i.e., o vizinho que está deitado, “não se levante para dá-los porque é seu amigo”, ou seja, por amizade, “vai levantar-se ao menos por causa da impertinência” (ἀναίδειαν = impudência, i.e., inoportunidade) “dele e lhe dará quanto for necessário”, quer dizer, todos os pães que o outro pedir.

b) O sentido espiritual flui espontaneamente do contexto. Com estas palavras, o Senhor ensina e recomenda a perseverança na oração. Por isso acrescenta: “Pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto”, o que se deve entender não como três pedidos, mas como oração constante e incansável. “Deus quer que lhe rezem; quer ser coagido; quer, de certo modo, ser vencido pela nossa impertinência” (Gregório Magno). “O que não queria dar o que se lhe pedia, deu o pedido porque não se cansou o outro de lho pedir. Quanto mais não dará o bom Deus, que nos exorta a que peçamos e a quem desagrada quando não pedimos?” (Agostinho) [5].

Dubium: As palavras pedi, procurai e batei contêm um preceito ou um simples conselho? — Resp.: 1) Parece indicar um conselho o fato de Jesus, para recomendar a prática da oração, apelar para o prêmio, que é receber o que se pede. — 2) No entanto, é mais provável que se trate de um preceito, devido à forma imperativa (pedi etc.) dos verbos, à insistência com que se reitera a mesma ideia e à ameaça implícita: quem não pede tampouco recebe.

6. Confiança na oração (cf. Lc 11,9-13; Mt 7,7-11). — Para convencer ainda mais os seus ouvintes desta doutrina e movê-los a pôr em prática este ensinamento, o Senhor passa a falar da eficácia da oração. — V. 10. “Quem pede recebe; quem procura encontra; e, para quem bate, se abrirá”. Acontece muitas vezes de não recebermos o que pedimos, a) ou porque pedimos sendo maus (mali), b) ou porque pedimos mal (male), c) ou porque pedimos coisas más (mala): “Ora, o Senhor é bom, porque frequentemente não nos dá o que queremos, para dar-nos o que deveríamos querer” (Agostinho).

V. 11s. Em seguida, corrobora a mesma doutrina sobre a eficácia da oração com um exemplo a minori ad majus tirado da vida ordinária. Quem, por exemplo, daria a um filho que pede pão, peixe ou ovo (comidas muitíssimos comuns na Palestina) uma coisa inútil ou perigosa como uma pedra, uma cobra ou um escorpião? Cristo escolhe estes exemplos, porque são de certo modo parecidos, em aparência, com aqueles alimentos, mas muito diferentes em natureza. — Existem muitas espécies de escorpião; mas na Palestina os mais comuns são brancos, não muitos diferentes à primeira vista, em tamanho e forma, de um ovo.

V. 13. “Ora, se vós que sois maus”, i.e., inclinados por natureza ao mal, carregados de muitos pecados ou, também, maus por comparação com Deus, que é o único Bom e bondade por essência, “sabeis dar coisas boas” (gr. δόματα; lt. dona) “aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo” (πνεῦμα ἅγιον = os dons do Espírito Santo, a virtude etc.) “aos que o pedirem” [6].

7. Escólio: Deve-se rezar somente a Deus? — “A fé católica nos ensina que se há de invocar com preces não somente a Deus, mas também aos santos bem-aventurados [7], embora por diversa razão, já que a Deus se reza como à fonte de todos os bens; a estes, porém, como a intercessores. A oração, diz Santo Tomás, é dirigida a alguém duplamente: de um modo, para ser por ele cumprida; de outro modo, para ser por ele impetrada. Ora, do primeiro modo só a Deus dirigimos a oração, porque todas as nossas orações devem ordenar-se à consecução da graça e da glória, que somente Deus dá, segundo aquilo do Salmo: ‘A Graça e a glória dará o Senhor’ (Sl 83, 12). Mas, do segundo modo, dirigimos a oração aos santos anjos e homens, não para que, por eles, Deus conheça nossos pedidos, mas para que, pelas preces e méritos deles, nossas orações surtam efeito… [8] Ora, quem, entre todos os que ocupam os tronos dos bem-aventurados, ousará disputar com a augusta Mãe de Deus o poder de merecer a graça?” (Leão XIII, Encíclica “Augustissimæ Virginis”).

Notas

  1. A oração do Pai-nosso não foi ensinada ao modo de preceito, como se o fiel só pudesse rezar segundo aquela forma e com aquelas palavras, mas a título de exemplar, i.e., como modelo que toda outra oração deve seguir; cf. Tomás de Aquino, STh II-II 83, 14 ad 2: “O Senhor não instituiu esta oração para que devêssemos usar somente estas palavras ao rezar, mas porque a intenção de nossa oração deve tender à impetração somente dessas coisas [i.e., das necessárias ou convenientes à salvação eterna], independentemente de como as pronunciemos ou concebamos”.
  2. Cf. Id., STh II-II 83 9 ad 5: “A oração não é apresentada a Deus com o fim de lhe dobrar a vontade, mas de estimular em nós mesmos confiança para pedir. Ora, estimulamos em nós tal confiança sobretudo quando consideramos a caridade dele para conosco, pela qual quer o nosso bem, e por isso dizemos: Pai nosso; e a sua excelência, pela qual no-lo pode dar, e por isso dizemos: que estais nos céus”.
  3. Cf. Id., STh II-II 83, 14c.: “Da oração podemos falar duplamente: de um modo, em si mesma; de outro, segundo sua causa. Ora, a causa da oração é o desejo da caridade, do qual deve proceder a oração. Este desejo em nós deve ser contínuo atual ou virtualmente. Ora, permanece a virtude deste desejo em tudo o que fazemos por caridade; com efeito, devemos fazer tudo para a glória de Deus, como se diz em 1Cor 10. E, segundo isto, a oração deve ser contínua. — Mas a própria oração, considerada em si mesma, não pode ser assídua, porque é necessário ocupar-se em outras atividades […]. Ora, a quantidade de cada coisa deve ser proporcional ao fim dela, assim como a quantidade do remédio à saúde. Por isso é conveniente que a oração dure tanto quanto for útil para excitar o fervor do desejo interior. Quando, porém, excede esta medida, de modo que não possa durar sem cansaço, não se deve estender mais a oração […]. E assim como isso deve ser levado em conta na oração individual por comparação à intenção de quem ora, assim também na oração comum por comparação à devoção do povo”.
  4. Cf. Id., STh I 33, 3c.
  5. Ouça-se uma vez mais o que diz Agostinho: “Mas, de novo, pode perguntar-se […]: por que é necessária a própria oração, se Deus já sabe o que nos é necessário, senão porque a intenção mesma da oração serena o nosso coração, purifica-o e torna-o mais eficaz para receber os dons divinos, que nos são espiritualmente infusos? Não é pois pela ambição das preces que nos ouve Deus, que sempre está disposto a dar-nos sua luz, não a visível, mas a inteligível e espiritual; somos nós que não estamos sempre dispostos a receber, por nos inclinarmos a outras coisas, presos nas trevas do desejo dos bens temporais. Que haja, portanto, na oração a conversão do coração àquele que sempre está preparado para dar, se nós mesmos quisermos receber; e haja nesta mesma conversão a purificação do olho interior, quando se dissipam os bens temporais que se desejavam, a fim de que o coração tenha força para receber a luz simples da divindade, que fulge sem nenhum ocaso ou mudança; e não só receber, mas nela permanecer não apenas sem incômodo, mas também com inefável alegria, que é nisto que consiste verdadeiramente a bem-aventurança” (De Serm. II 2, 14).
  6. Tradução adaptada de H. Simón, Prælectiones Biblicæ. Novum Testamentum. 4.ª ed., iterum recognita a J. Prado. Marietti, 1930, vol. 1, p. 322ss, n. 218.
  7. Concílio de Trento, sessão 25.
  8. STh II-II 83, 4.
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