Uma humanidade desfigurada
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 17, 14-20)

Naquele tempo, chegando Jesus e seus discípulos junto da multidão, um homem aproximou-se de Jesus, ajoelhou-se e disse: “Senhor, tem piedade de meu filho. Ele é epiléptico, e sofre ataques tão fortes que muitas vezes cai no fogo ou na água. Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!”

Jesus respondeu: “Ó gente sem fé e perversa! Até quando deverei ficar convosco? Até quando vos suportarei? Trazei aqui o menino”. Então Jesus o ameaçou e o demônio saiu dele. Na mesma hora, o menino ficou curado. Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram em particular: “Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?”

Jesus respondeu: “Porque a vossa fé é demasiado pequena. Em verdade vos digo, se vós tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’ e ela irá. E nada vos será impossível”.

I. Reflexão

No Evangelho de hoje, Jesus cura um menino epilético. É interessante notar que, por providência divina, este Evangelho é a continuidade do que meditávamos ontem, festa da Transfiguração do Senhor. Ontem líamos o evangelho de São Marcos; porém, há um relato paralelo no de São Mateus, capítulo 17. Ali, logo após descer do monte, Jesus, que estivera transfigurado no topo da montanha, encontra aos pés dela um menino desfigurado. É interessante pôr lado a lado as duas imagens. Aliás, existe um quadro muito famoso, o último pintado pelo célebre Rafael, em que se vê no topo a cena da Transfiguração a Jesus luminoso, com Moisés e Elias, um de cada lado; um pouco mais embaixo, aos discípulos atordoados pela luz; e por fim, num nível inferior e mais escuro, uma grande confusão em torno do menino epilético, desfigurado, de olhos virados, com um semblante perdido.

É interessante tal contraste porque ele nos leva a meditar sobre o estado em que se encontra a humanidade perante Jesus. Deus vem do alto de sua glória celeste a essa humanidade desfigurada, representada aqui pelo menino epilético. Mas dizer que o homem desfigurado está aqui “representado” não significa que o relato evangélico não seja histórico. Não, nada disso. Não se trata de “conversa fiada”. Jesus, de fato, curou o menino epilético e expulsou dele o demônio que lhe causava epilepsia, doença física que, embora seja em si mesma de origem natural, tinha neste caso uma origem demoníaca. É o que lemos no Evangelho, narrado não só pelos outros evangelistas, mas pelo próprio São Mateus, que mostra Jesus ameaçando o demônio, e este saindo do menino.

Sim, a humanidade sob o poder de Satanás está desfigurada. Perdemos nossa dignidade, perdemos o controle de nossa vida. O menino fora tomado pelo demônio, e o próprio disse ao Senhor: “Tem piedade de meu filho porque ele sofre ataques tão fortes, que o demônio o joga ora no fogo, ora na água. Eu apresentei a situação a teus discípulos, mas eles não o puderam curar”. Jesus olha para a situação e se compadece não só do menino possesso e vexado pelo demônio, mas também de nós. Por isso, cheio de compaixão, Ele nos repreende a pouca fé; antes, a falta de fé, a incredulidade. Aqui está a raiz, a corrente, o cadeado que mantém a humanidade presa a Satanás.

Mas por que Satanás tem tanto poder sobre nós? Será ele superpoderoso? Não, nada disso. O diabo já foi derrotado. Jesus mesmo o disse: Eu vi Satanás cair do céu como um raio. O diabo foi derrotado, mas o poder que ele tem sobre nós, somos nós que ainda lho damos! Sim, damos poder a Satanás quando, por falta de fé, preferimos crer nas seduções que ele propõe a crer no que Deus nos diz e revela. É assim desde o início. Com efeito, desde Adão e Eva, as mentiras de Satanás circulam entre nós; desde Adão e Eva, a humanidade prefere escutar as mentiras da serpente a crer nas promessas de Deus.

Jesus, como que enfadado, olha então para aquela gente e diz: Gente de pouca fé! Eis aí, pessoas que deveriam ter mais fé, mas não têm. Ὀλιγοπιστία é o que se lê no v. 20, mas a acusação de Jesus é ainda mais grave ainda se olharmos para o v. 17, onde Ele diz o seguinte: Geração sem fé, isto é, ἄπιστος, e não só isso: também “perversa”, pervertida e maldosa, porque a falta de fé (quando deixamos de crer em Deus para crer nas mentiras de Satanás) nos perverte, nos deforma, nos torna o que se tornara o menino — de olhos virados, contorcido e deformado por conta da epilepsia.

Ao curar o menino da doença e expulsar dele o demônio, Jesus quer-nos curar de nossa epilepsia, ou seja, das correntes que o diabo lança sobre nós porque, quando preferimos ouvir as mentiras dele, rejeitando com isso as verdades de Deus, nos tornamos não somente incrédulos, mas perversos, gente contorcida, distorcida, corrompida. A palavra que se lê nos originais para “gente pervertida” foi bem traduzida em português. Afinal, quando se diz que algo é “perverso” é porque está numa direção distorcida. O original grego é στρέφο, que quer dizer “virar”, “girar”. Somos gente girada pelo avesso, contorcida, como o menino epilético! Jesus nos vê desfigurados por nossa falta de fé. Creiamos, portanto! Como Deus Pai disse de seu Filho transfigurado no Tabor: Este é o meu Filho muito amado. Escutai o que Ele diz, escutemos, tenhamos fé, e então Satanás será derrotado e nós, finalmente libertos. 

II. Comentário exegético

Argumento. — Logo após Jesus descer do monte, aproxima-se dele para pedir a cura do filho o pai de um menino lunático, surdo e mudo, a quem os Apóstolos embalde tentaram sanar; Jesus cura o menino e ensina aos Apóstolos por que foram inúteis suas tentativas. — A narração de Mc. é mais longa e rica em detalhes, a de Mt., mais breve e sucinta; Lc., como de costume, segue um meio termo. Para que se veja melhor a diferença entre uns e outros, seguiremos Mt. como fundamento para interpretar o relato.

1. Narração do milagre (cf. Mt 17, 14-18; Mc 9, 13 [gr. 14]-26 [gr. 27]; Lc 9, 37-43). — V. 14s. O Senhor passara a noite no monte da transfiguração; no dia seguinte (Lc.), ao descer do monte para junto de seus discípulos, viu uma grande multidão em volta deles, e os escribas disputando (gr. συζητοῦντας) com eles (Mc.). Saudado pelos discípulos, Jesus perguntou-lhes o que discutiam entre si. Então, um dentre a multidão (Mc.) aproximou-se dele e se lançou de joelhos a seus pé, i.e., prostrado rogava-lhe  pelo filho único (Lc.), que era lunático e, além disso, vivia há tempos vexado por um espírito mudo e surdo (v. 24 de Mc.), i.e., por um demônio que lhe prendia a língua. Lunático (gr. σεληνιαζόμενος) era o nome que se dava a quem sofria de morbus comitialis, i.e., do que hoje se conhece como epilepsia, pois se pensava que esta doença se agravava ou atenuava em função das fases da Lua (cf., v.gr., Galeno [ed. Kunh] IX 903; Luciano, Philopseudes 16). E, de fato, a descrição da doença feita pelo pai do menino corresponde perfeitamente aos sintomas da epilepsia, embora contenha alguns detalhes que não podem atribuir-se senão a uma possessão diabólica (defeito de fala e audição, ímpetos suicidas, falta de autodomínio etc.).

V. 16s. Como o pai do menino se lamentasse de que os discípulos não puderam curar-lhe o filho, Jesus prorrompeu nestas palavras cheias de indignação: Ó geração incrédula (gr. ἄπιστος = infiel) e perversa, até quando hei-de estar convosco? Até quando vos hei de suportar? A maioria dos autores pensa que Cristo o disse não aos discípulos, mas ao pai do menino e aos judeus em geral; no entanto, o v. 19 torna provável que Ele tenha querido repreender também a incredulidade dos Apóstolos. São, portanto, palavras de um médico que se queixa da desobediência do enfermo, ou de um mestre indignado com a lerdeza dos discípulos.

(Mc 9, 20-23) Após uma nova descrição da doença, o pai insiste outra vez: Se podes alguma coisa, vale-nos… Jesus responde: Se podes [crer, acrescenta a Vg], tudo é possível ao que crê. O texto gr. crítico traz τὸ εἰ δύνῃ, ou seja, quanto àquilo que disseste: Se podes tu, então tudo é possível ao que crê. Há quem interprete as palavras Se podes em forma interrogativa (Lagrange) ou admirativa (*Loisy). O pai do lunático, ao ouvir isso, disse com lágrimas nos olhos: Eu creio, Senhor, mas auxilia minha falta de fé, i.e., faz-me crer perfeitamente ou, segundo outros, supre por tua potência a imperfeição de minha fé.

V. 18. E Jesus o ameaçou (o espírito imundo, Mc. e Lc.), e saiu dele o demônio que o lançava por terra e agitava-o com violência, e o menino, desde aquele momento, ficou curado.

Condições do exorcismo (cf. Mt 17, 19ss; Mc 9, 27s). — V. 19. Confusos por se terem saído mal, os Apóstolos aproximaram-se de Jesus em particular, i.e., depois de terem entrado em casa (εἰς οἶκον, Mc.), quer dizer, onde estavam hospedados, e disseram-lhe: Por que não pudemos nós lançá-lo fora?

V. 20. Jesus disse-lhes: Por causa da vossa falta de fé (em gr. se lê ὀλιγοπιστίαν = fé pequena). Porque na verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte (i.e., a qualquer monte, não necessariamente ao da transfiguração): Passa daqui para acolá, e ele passará (cf. Mc 11, 22). — Levantam-se aqui duas questões: 1.ª de que fé Jesus está falando, e 2.ª o que pretende significar pela comparação com o grão de mostarda. Quanto à primeira, não há dúvida que se trata da fé dos milagres (cf. 1Cor 12, 9); ora, esta “é certa excelência da fé, ou uma grande confiança, que é uma como que extensão da virtude da fé em ordem aos milagres, quer para os impetrar de Deus, quer para os realizar pela virtude de Deus, na medida em que isso for necessário à dilatação da fé; daí que essa fé seja um dom especial de Deus, enumerado entre as graças gratis datæ” (Lépicier II, 209), i.e., entre os carismas. Quanto à segunda, alguns autores dizem que o ponto de comparação com o grão de mostarda é a virtude e a fecundidade, outros porém (e são a maioria) que é a pequenez. Cf. abaixo (§ III) o comentário de Santo Tomás

Dubium: Ora, como é possível que uma fé pequena seja suficiente, se no mesmo v. os Apóstolos são repreendidos por terem pouca fé, e São Paulo afirma que os milagres são realizados em virtude da perfeição da fé (cf. 1Cor 13, 2)? Responde Maldonado que Cristo fala deste modo, à maneira de quem repreende, por certo exagero, como se dissesse: “Se tivésseis a fé mínima, i.e., tanto quanto deveríeis ter, nem mais nem menos, diríeis a este monte” etc. Mas essa resposta parece um pouco artificiosa. É melhor e mais simples a interpretação de São João Crisóstomo: Cristo quer-nos ensinar do quanto é capaz a virtude da fé, a qual, embora pequena, se for sincera, pode transportar montanhas, i.e., superar grandes obstáculos.

E nada vos será impossível, pois a fé é como que a mão de Deus, de forma que tudo o que Deus pode, também o pode a fé.

V. 21. Esta casta (de inimigos, i.e., de demônios os mais hostis, que possuem os homens com grande violência) não se lança fora, senão mediante a oração e o jejum; deixa, pois, subentendida a segunda razão por que os discípulos não puderam expulsá-lo. A oração estimula a fé e a confiança e, por isso, aumenta o domínio sobre os espírito imundos; o jejum, por sua vez, afugenta o demônio, o qual, assim como se alegra com a intemperança dos maus, não pode suportar o jejum dos bons. Os inimigos da alma, com efeito, são vencidos não só com os tormentos da geena e os dardos do exorcismo, mas também com a fome dos penitentes.

III. Comentário de Santo Tomás de Aquino (Super Matt. 17, l. 2, n. 1468s)

Em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda etc. Aqui manifesta sua resposta. E põe-se certo condicional, cujo antecedente é: Se tiverdes fé etc., e o consequente é: Direis a este monte: Passa daqui, e ele passará. Alguns dizem que a fé comparada com o grão de mostarda é uma fé pequena, como se dissesse: “Se tiverdes alguma fé, direis” etc. Mas Jerônimo o nega porque diz o Apóstolo: Ainda que eu tivesse toda a fé, até o ponto de transportar montanhas etc. (1Cor 13, 2). Donde, requer-se uma fé perfeita para transportar montanhas.

Por isto que diz, como um grão de mostarda, assinala-se a tríplice perfeição da fé. No grão de mostarda, com efeito, encontramos vitalidade, fecundidade e pequenez:

a) Vitalidade. — O grão, antes de ser rompido, não parece ter nenhuma vitalidade; assim o homem fiel, antes de ser provado, parece desprezível, mas quando é atribulado, então aparece sua santidade: Embora presentemente convenha que sejais afligidos por um pouco de tempo, a fim de que a prova da vossa fé, muito mais preciosa que o ouro, o qual, embora perecível, se prova com o fogo (1Pd 1, 7).

b) Fecundidade. — Além disso, encontramos fecundidade no grão, o qual, embora seja pequeno, cresce numa grande hortaliça, de modo que as aves do céu vão habitar ali. Veja-se Hb 11, onde são narradas as obras da fé e, na sequência, se diz: Pela fé conquistaram reinos etc. (v. 33).

c) Pequenez. — Além disso, encontramos a pequenez, e pode por isto ser designada a humildade da fé. De fato, reconhece-se que alguém é humilde na fé quando abraça as palavras de Deus: Se alguém não abraça as sãs palavras, é um soberbo (1Tm 6, 3s). Assim, pelo contrário, quem abraça as palavras é humilde.

Quer dizer, portanto: Se tiverdes fé, mas uma fé viva, incansável, fecunda em obras, pequena e humilde, direis a este monte: Passa daqui, e ele passará.

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