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248. A Quaresma é de São José!

A presença do Patriarca da Sagrada Família ao longo de todo o mês de março faz da Quaresma um tempo litúrgico “josefino”. Mas de que modo bem concreto São José pode inspirar nossa vivência quaresmal? O que têm a ver nossa conversão e este grande santo, patrono da Igreja?

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Podemos chamar São José de pai porque o próprio Cristo o chamava assim, sendo-lhe totalmente submisso como um bom filho deve ser. Não resta dúvida, portanto, de que São José também pode ser nosso pai, ajudando-nos com sua intercessão. No período da Quaresma, em especial, essa paternidade do Patrono Universal da Igreja não deve ser vista como um obstáculo, mas como auxílio precioso na vivência dos exercícios espirituais. A sua solenidade justamente no período quaresmal é uma oportunidade de meditarmos sobre a participação dele no mistério da encarnação, pois São José é aquele que nos leva para a segurança do deserto e nos defende dos falsos ídolos.

Tradicionalmente, a Quaresma recorda os quarenta dias de Jesus no deserto, onde Nosso Senhor rezou e jejuou. Esse retiro de Cristo já era previsto no Antigo Testamento, por figuras como a do filho mais novo de Jacó, também chamado José. Num período de fome e penúria, ele teve a missão de conduzir o povo de Israel para o Egito, depois de uma série de sonhos e interpretações alegóricas sobre o destino de sua família e dos egípcios.

Numa leitura tipológica, os Padres da Igreja e tantos Papas interpretaram essa personagem da história de Israel como prefiguração de São José. Após um sonho, São José recebeu de Deus a missão de levar Jesus para o Egito, onde toda a Sagrada Família estaria a salvo do rei Herodes. Do mesmo modo, São José leva toda a Igreja, Corpo Místico de Cristo, para o deserto, onde Deus lhe prepara um retiro para aí ser sustentada ao longo da Quaresma (cf. Ap 12, 6).

No Evangelho de São Mateus, diz-se que José teve em sonho a visão de um anjo que lhe advertia: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar” (2, 13). Essa fuga para o Egito é celebrada por católicos de vários lugares, sendo, na liturgia ocidental, uma memória de Nossa Senhora do Desterro. Também a Igreja Copta celebra o fato. Seja como for, podemos ver nesse episódio aquele desapego do mundo, tão necessário para a nossa conversão e salvação. Aliás, não deixa de ser interessante uma tradição copta que recorda a chegada da Sagrada Família ao Egito. Conta-se que, nessa ocasião, os ídolos egípcios caíram todos do altar e se quebraram. Verdade ou não, essa tradição nos coloca diante da entrada de Jesus em nossas vidas, algo que deve pôr fim ao primado dos ídolos sobre nossa inteligência e vontade.

Acompanhados por São José, podemos também viver essa vitória contra a idolatria, a fim de que Jesus tenha uma morada em nossas almas. A Igreja precisa colocar-se em fuga, desfazendo-se assim de tudo aquilo que seja obstáculo e risco para a graça de Deus. Em nossos dias, há muitos Herodes que desejam matar o Menino no coração da humanidade. São José, por sua vez, tem esse patrocínio para preservar a pureza de nossa alma.

A intercessão de São José se aplica universalmente à Igreja porque, como ensina Santo Tomás de Aquino, ele estava intimamente unido ao mistério da união hipostática. São José foi uma testemunha particular da Encarnação. Neste sentido, ele permanece no Céu como o guardião do Redentor, que segue a história dos homens por meio da Igreja. Se é verdade que a Igreja nem sempre teve consciência absoluta desse papel do pai adotivo de Jesus na história da salvação, ela hoje está plenamente consciente desse mistério, como se nota pelas tantas manifestações recentes dos Pontífices. De fato, a Igreja sempre tem a oportunidade de amadurecer e aprofundar o conteúdo da fé que, embora seja sempre mesmo, é também atual. Assim aconteceu com o dogma da Trindade e com os dogmas marianos. Não seria diferente no caso de São José.

Nos tempos modernos, a devoção a São José ganhou grande impulso pela atuação de Santa Teresa d’Ávila, que o tinha como mestre de vida interior. Na verdade, São José nos ajuda a ter intimidade com Cristo, por meio da fuga das coisas do mundo. A Sagrada Família permaneceu no Egito até a morte de Herodes, quando não mais havia risco para a vida do Menino. Também a nossa oração deve durar o tempo que for necessário para que Herodes não nos roube a graça santificante e assim se cumpra a profecia de Oséias: “Do Egito chamei meu filho” (11, 1).

O ministério de São José também pode ser comparado ao de Moisés, que tirou o povo do Egito e o conduziu para a Terra Prometida. Depois da morte de Herodes, o mesmo anjo apareceu outra vez em sonho a São José, dizendo-lhe: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino” (Mt 2, 20). Em seguida, eles foram morar em Nazaré, como cumprimento da profecia: “Será chamado nazareno” (Mt 2, 23). A viagem certamente não foi fácil nem rápida; São José experimentou o êxodo pelo deserto até a terra de Israel, e depois passou o resto de sua vida ao lado de Cristo. Na Quaresma, portanto, a história de São José ilumina a nossa caminhada de fuga para o Egito (desapego do mundo) e retorno para a Terra Prometida (vida contemplativa). O pai de Jesus é, sim, um guia para a entrada nas quartas moradas, como diria Santa Teresa.

Toda essa peregrinação espiritual da Quaresma pode ser resumida no Salmo 113, que a Igreja canta nas II Vésperas do Domingo, na primeira semana do saltério, recordando Israel que saiu do Egito. Inclusive o tom para esse salmo no canto gregoriano é o do peregrino. “Judá tornou-se o templo do Senhor”, diz o salmista (v. 2). No contato íntimo com Cristo, esse canto se converte em realidade; Deus vem morar em nós, dando-nos o poder de amar. Para São José, o êxodo do Egito a Nazaré foi a oportunidade que ele teve de carregar o Menino no colo, e isso o santificou plenamente. A sua humildade de fazer-se servo para o menino conferiu à sua alma a graça da chefia da Sagrada Família. O menos importante foi o líder da família. Nesse mesmo humilde passo, por conseguinte, podemos caminhar com Cristo na Eucaristia até que Ele faça o mar de nossas paixões pôr-se em fuga, as montanhas darem pulos como ovelhas e as colinas, parecendo cordeirinhos (Sl 113, 3-4).

 Das lições de São José, precisamos agora viver uma Quaresma que seja, de fato, uma grande páscoa, uma fuga para o Egito, como renúncia às nossas paixões, e um retorno para a casa de Deus, como vida interior. Nessa jornada, devemos recorrer mais insistentemente à companhia de São José, a fim de que ele proteja a graça em nossos corações. É hora de crescermos no amor e devoção ao pai adotivo de José, prorrogando nossa admiração para além das datas litúrgicas, pois São José é também uma presença na vida católica, como modelo dos corações que amam Nosso Senhor e Nossa Senhora. Que, então, o mês de março se converta num tempo especialíssimo, como o mês de maio o é para a devoção mariana.

No fim das contas, São José ainda nos previne contra o pior dos perigos na caminhada de volta para a Terra Prometida: a incredulidade. A falta de fé impediu que os israelitas dessem o passo decisivo na história da salvação. Isso também pode acontecer conosco se não tivermos um verdadeiro recolhimento e vida de oração, como nos ensina o silêncio de São José. Firmes nesse propósito, então poderemos juntos entoar o mesmo canto: “Treme, ó terra, ante a face do Senhor / ante a face do Senhor Deus de Jacó” (Sl 113, 7).

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