Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
(Jo 3, 1-8)
Havia um chefe judaico, membro do grupo dos fariseus, chamado Nicodemos, que foi ter com Jesus, de noite, e lhe disse: “Rabi, sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes, a não ser que Deus esteja com ele”.
Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus”. Nicodemos disse: “Como é que alguém pode nascer, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe?”
Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito. Não te admires por eu haver dito: Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”.
No Evangelho de hoje, narrado por São João, vemos Jesus sendo procurado durante a noite por um chefe dos judeus, da seita dos fariseus, chamado Nicodemos.
Nesse contexto, Santo Tomás destaca vários pontos, mas o principal é que Nicodemos vai de noite ao encontro de Cristo porque, apesar de crer, ele ainda tem medo. E como sabemos que esse chefe dos judeus acredita em Nosso Senhor? Pelo fato de que ele o chama de “Rabi”, isto é, Mestre. Na Última Ceia, ao lavar os pés dos discípulos, Jesus diz: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois Eu o sou.” (cf. Jo 13, 13). Portanto, de fato, Cristo é Mestre, mas não somente isso: Ele é Deus que se fez homem.
Nicodemos já estava aberto à fé e reconhecia que Jesus vinha de Deus por causa dos sinais que realizava — no Evangelho de São João, até então, só temos o relato da transformação da água em vinho; mas, pelos outros Evangelhos, sabemos que houve muitos outros milagres. Ele também começou a ter fé porque pertencia aos fariseus, uma seita judaica mais próxima daquilo em que nós cremos. Se fosse saduceu, seria mais difícil, porque eles não acreditavam na ressurreição dos mortos nem nos anjos. Já os fariseus eram mais abertos — recordemos que o próprio São Paulo foi fariseu antes de se converter.
Nicodemos é, portanto, um homem com boas disposições, que busca Jesus e deseja crer, mas ainda não está plenamente na luz da fé. No entanto, o próprio nome dele já aponta para a vitória: Nicodemos significa “vitória do povo”, e a vitória que vence o mundo é a nossa fé (cf. 1Jo 5, 4).
Olhemos para o diálogo entre Nicodemos e Jesus. Jesus responde à profissão de fé de Nicodemos, ainda inicial e vacilante, dizendo: “Em verdade, em verdade te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3, 3). Esse “em verdade, em verdade” está lá no original grego como a repetição de uma palavra de origem hebraica: “amen”. Porém, esse “amen” é muito mais do que apenas “em verdade”: refere-se a algo que tem solidez, que tem consistência no ser. Eis o esforço de Jesus: por meio da pregação e desse encontro, conduzir Nicodemos à Verdade.
Na prática, isso significa reconhecer que existem dois tipos de mestres: os mestres exteriores, que são os pregadores, e o Mestre interior, que é Cristo. Nicodemos encontrou um Mestre exterior: para ele, Jesus é um Pregador e um Profeta, alguém que veio de Deus e realiza sinais.
Contudo, para alcançar a verdadeira fé e sair das trevas, ele precisava ir além e ter uma abertura mais profunda na alma, que permite enxergar a realidade como ela verdadeiramente é — esse “amém” silencioso, íntimo, que só o coração pode reconhecer. Desse modo, ele poderia encontrar o Mestre interior.
Infelizmente, vivemos num mundo em que as pessoas frequentemente se perdem em debates de palavras. Isso não significa que as palavras não interessam — elas são importantes, porque é, por meio delas, que a Igreja transmite o dogma. Mas, como dizia o Bem-aventurado Frei Maria-Eugênio, as palavras, o Catecismo e a fórmula dogmática são como um revestimento de prata que esconde por dentro o ouro. E nós precisamos ver o ouro. Por isso, Jesus diz: “amen, amen”, como se estivesse falando para o chefe dos judeus: “Lá dentro, no essencial, você ainda não está vendo, Nicodemos. Você vê a prata reluzente, mas ainda não chegou ao ouro. E, para isso, é necessário nascer de novo, nascer do Alto”.
A palavra grega usada por São João tem justamente esse duplo sentido: nascer de novo e nascer do Alto. Esse novo nascimento significa passar pelo sacramento da fé: o Batismo. Dessa forma, tornando-nos filhos de Deus e sendo movidos pelo Espírito Santo, começamos a compreender esse “amen”, que é Cristo — a realidade profunda, a Verdade viva.
Assim, entendemos muito mais do que a simples repetição de fórmulas. As fórmulas, evidentemente, são relevantes — mas, por trás delas, existe um Ser que precisamos buscar. Essa é a dificuldade de Nicodemos, e também a de muitos de nós: precisamos nascer do Alto, sair das trevas e entrar na luz interior, onde Cristo, o Mestre interior, nos ensina.
Portanto, não deixemos de meditar sobre o dogma, o Catecismo, os Sacramentos e todas as verdades que a Santa Igreja nos ensina: através delas, podemos, sob a graça e a luz do Espírito Santo, compreender a nossa razão de ser, a nossa salvação, a nossa paz: Jesus Cristo.




























O que achou desse conteúdo?