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No dia 21 de outubro, a Igreja Católica celebra a memória do Beato Carlos da Áustria (1887-1922), que foi um exemplo extraordinário de esposo, pai de família e estadista católico.

Carlos foi Imperador da Áustria e Rei Apostólico da Hungria. Contudo, é interessante observar que ele não “nasceu” para ser imperador, no sentido de que não estava inserido, diretamente, na linha sucessória do trono, mas acabou assumindo esse encargo, após uma série de mortes ocorridas em sua família.

Seu tio-avô, Francisco José I — que pertencia à dinastia dos Habsburgo [1] — foi Imperador da Áustria de 1848 a 1916. O herdeiro direto do trono era Rodolfo de Habsburgo, filho único de Francisco José. Apesar de pertencer a uma dinastia historicamente muito católica, Rodolfo demonstrava tendências fortemente revolucionárias e possuía uma vida marcada por transgressões. Em 30 de janeiro de 1889, sob circunstâncias incertas, Rodolfo foi encontrado morto em sua residência de campo em Mayerling (Áustria). Assim, Francisco José perdeu o único herdeiro de seu trono, e confiou a linha sucessória ao seu sobrinho, o arquiduque Francisco Fernando, que passou a ser o herdeiro presuntivo do trono. No entanto, em 28 de junho de 1914, numa visita a Sarajevo, Francisco Fernando foi assassinado.

Foi assim que Carlos, enquanto sobrinho-neto de Francisco José, veio a tornar-se herdeiro do trono. No entanto, o assassinato que o levou à linha sucessória do trono também foi o fato que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Isso porque o assassino de Francisco Fernando, o estudante radical Gavrilo Princip, possuía ligações com um grupo terrorista sérvio. Diante da negativa da Sérvia em auxiliar na investigação, em 28 de julho de 1914, um mês após o atentado, o Império Austro-Húngaro declarou guerra contra a Sérvia. Na sequência, a Rússia apoiou a Sérvia e a Alemanha apoiou a Áustria, em um conflito cada vez maior, gerando uma reação em cadeia de outros países, que resultou no confronto das principais potências europeias. Iniciou-se, assim, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), em cujo término foram contabilizados 17 milhões de mortos.

Nesse contexto bélico, em 21 de novembro de 1916, com o falecimento do Imperador Francisco José, Carlos assumiu o trono do Império Austro-Húngaro, com o propósito explícito de buscar a pacificação e o término da guerra.

Aqui, é necessário destacar que Carlos, como Imperador, normalmente é retratado como um soberano inepto, inexpressivo e sem visão política. No entanto, essa imagem não corresponde à realidade, e consiste em uma forma de desqualificar alguém que não negligenciou a sua fé e seus princípios em nome do poder temporal e do reconhecimento político. Para compreender isso, é preciso considerar que Carlos era um católico convicto e fervoroso, que não escondia a sua fé, de tal modo que seus contemporâneos afirmavam que ter Carlos como Imperador Austro-Húngaro era como ter um papa no centro da Europa. 

Por outro lado, a maioria das demais nações envolvidas na guerra era totalmente anticatólica, inclusive os aliados da Áustria, como a Alemanha, que buscava cada vez mais ficar longe da influência de Roma. E assim surgiram diversas tentativas de sabotar seu reinado, bem como de caricaturar sua capacidade enquanto governante.

Para demonstrar que ele não era nenhum ingênuo politicamente, pode-se citar dois episódios ocorridos durante a guerra: 1.º) quando a Alemanha decidiu atacar com submarinos todo tipo de embarcações inglesas, inclusive navios civis, Carlos advertiu que aquilo poderia trazer consequências incontornáveis e com as quais os alemães não poderiam lidar, como o ingresso dos Estados Unidos na guerra; Carlos foi ignorado, e, posteriormente, aquilo que ele havia advertido aconteceu; 2.º) para combater a Rússia, a Alemanha planejou enviar os revolucionários comunistas Lenin e Trótski ao território russo, com o fito de derrubar o governo do czar; Carlos se opôs a esse plano, pelo fato de o comunismo ser totalmente contrário ao catolicismo, e porque essa ideologia poderia se voltar contra eles próprios no futuro; novamente, Carlos não foi ouvido, e a história atesta que ele tinha toda razão.

Quanto à sua vida privada, observa-se que, mesmo com problemas familiares pontuais — um pai adúltero e sifilítico e uma mãe afetivamente distante —, o jovem Carlos recebeu uma educação católica consistente, sendo muito dócil e maleável à disciplina. Porém, sob a influência de seu tio Francisco Fernando, em determinado momento, quando ainda era solteiro, Carlos passou a questionar a educação que recebera e entregou-se, por alguns meses, a uma vida de prazeres e pecados. Depois de um tempo caiu em si e arrependeu-se, de modo que, antes de se casar (com Zita de Bourbon-Parma, Serva de Deus), confidenciou-lhe o arrependimento que possuía desse período de sua vida. Zita o compreendeu e os dois se casaram em 21 de outubro de 1911.

Até aqui, observa-se a vida de um bom católico. Mas o que configura a santidade de Carlos da Áustria vai além desses fatos. Primeiramente, deve-se destacar sua paciência infusa, de alguém que não se desesperou diante das dificuldades da vida terrena, mas manteve viva a esperança de receber a “coroa imperecível” (2Tm 4, 8) da vida eterna. Como segunda característica de santidade, observa-se o seu profundo recolhimento interior na vida de oração, como atestado de alguém que permanecia em união constante com Deus.

Esses dois aspectos perpassam a vida do Beato Carlos, mesmo diante de tantas agruras que enfrentou depois de ter subido ao trono. No contexto dos desdobramentos históricos da guerra, Carlos foi pressionado a abdicar, mas não o fez. Não abdicou por considerar que não poderia renunciar à missão que lhe fora confiada por Deus. Desse modo, acabou sendo exilado com sua família na Suíça, onde viveu em situação de pobreza e precariedade. Mesmo exilado, o Beato Carlos, por obediência ao papa, tentou por duas vezes restaurar a monarquia católica na Hungria, tendo nítida percepção de que, como estadista católico, deveria ser um instrumento do poder de Deus na sociedade, conforme ensina o Papa Leão XIII, nas encíclicas Diuturnum Illud (1881), Immortale Dei (1885) e Rerum Novarum (1891).

Após a segunda tentativa de restauração da monarquia na Hungria, ele e sua esposa foram capturados e enviados para a Ilha da Madeira, em Portugal, onde viveram em condições materiais muito precárias, sendo, inclusive, nos primeiros tempos, privados da presença de seus filhos. Mesmo diante das dificuldades materiais e afetivas, Carlos não esmoreceu em sua fé; ao contrário, uniu-se cada vez mais à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Prova disso é que, ao chegar na Ilha da Madeira, sua primeira atitude foi solicitar ao bispo local que tivesse em sua casa uma capela com o Santíssimo Sacramento.

Nesse processo de união ao Cristo despojado e crucificado, Carlos soube ver os propósitos de Deus, como ele afirmou à sua esposa, ao final de sua vida: “Deus deu-me a graça de que, sobre a terra, não exista mais nada que eu não esteja pronto a sacrificar por seu amor, para o bem da Santa Igreja” [2].

Carlos morreu na pobreza, aos 34 anos, convalescente de pneumonia. Entregando-se como vítima, ele certamente purificou os pecados que havia cometido no passado, uma vez que viveu conscientemente os seus sofrimentos, oferecendo-os pela salvação das pessoas que compunham os povos que Deus lhe confiou.

Esses breves dados biográficos demonstram a grandiosidade espiritual do Beato Carlos da Áustria, cuja beatificação ocorreu por um milagre ocorrido no Brasil, e cujo processo de canonização está sendo analisado pela Igreja, a partir de um milagre ocorrido nos Estados Unidos.

Numa época em que a fé em Deus é negligenciada para agradar aos homens e satisfazer seus interesses, Carlos desponta como um grande testemunho de quem se manteve fiel até as últimas consequências, crendo e esperando contra todo desespero. Peçamos a intercessão do Beato Carlos — ele que perdeu tronos nesta terra, mas recebeu um trono glorioso no Céu — a fim de que sejamos fiéis à missão que o Senhor confiou a cada um de nós.

Notas

  1. A dinastia dos Habsburgo exerceu grande influência política ao longo da história, e esteve envolvida, inclusive, na Guerra dos Trinta Anos, sobre a qual estudamos na primeira aula do curso A Igreja e o Mundo Moderno.
  2. Giovanna Brizi, A vida religiosa do Beato Carlos da Áustria, 2.ª ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2014, p. 67.
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