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Homilia Dominical
1 Mar 2017 - 27:03

Por que somos tentados?

Foi logo após receber o batismo que Cristo foi conduzido ao deserto para ser tentado pelo diabo. Também a nós, é especialmente depois que fomos agraciados com o dom da fé e com a graça dos sacramentos, que nos advêm, por misteriosa permissão divina, as tentações do inimigo de Deus. Mas por que são tão violentamente testados justamente aqueles que receberam da Igreja a graça espiritual?
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Homilia Dominical - 1 Mar 2017 - 27:03

Por que somos tentados?

Foi logo após receber o batismo que Cristo foi conduzido ao deserto para ser tentado pelo diabo. Também a nós, é especialmente depois que fomos agraciados com o dom da fé e com a graça dos sacramentos, que nos advêm, por misteriosa permissão divina, as tentações do inimigo de Deus. Mas por que são tão violentamente testados justamente aqueles que receberam da Igreja a graça espiritual?
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt
4, 1-11)

Naquele tempo, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, para ser tentado pelo diabo. Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites, e, depois disso, teve fome. Então, o tentador aproximou-se e disse a Jesus: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!" Mas Jesus respondeu: "Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus'".

Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo, e lhe disse: "Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo! Porque está escrito: 'Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra'". Jesus lhe respondeu: "Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor teu Deus!'"

Novamente, o diabo levou Jesus para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua glória, e lhe disse: "Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar". Jesus lhe disse: "Vai-te embora, Satanás, porque está escrito: 'Adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a ele prestarás culto'". Então o diabo o deixou. E os anjos se aproximaram e serviram a Jesus.

Todos os anos, na primeira semana da Quaresma, a Igreja proclama em sua liturgia dominical a passagem das tentações de Cristo. Ano passado, a partir da narração de São Lucas Evangelista, servimo-nos de Santo Tomás de Aquino como guia e intérprete desse episódio; este ano, o Evangelho é de São Mateus, mas o doutor que nos ajudará a compreender esse acontecimento da vida de Nosso Senhor é o mesmo (cf. Comentário ao Evangelho de São Mateus, c. 4, l. 1).

Primeiro, Jesus foi conduzido ao deserto "quando já tinha sido declarado pela voz paterna como Filho de Deus, com o que se dá a entender que a tentação é iminente para aqueles que se tornam filhos de Deus pelo Batismo, conforme palavra do Eclesiástico (2, 1): 'Filho, ao entrares para o serviço do Senhor, prepara a tua alma para a tentação'".

Para dizer a verdade, todos os que recebem de Deus a graça espiritual são chamados para esse combate contra Satanás, motivo pelo qual o Aquinate chega a confirmar a possibilidade de o sacramento da Confirmação ser ministrado também às crianças, já que elas são capazes de pecar tão logo alcançada a idade da razão (cf. Suma Teológica, III, q. 72, a. 8; Sobre as Sentenças, IV, dist. 7, q. 3, a. 2; Exposição sobre o Símbolo dos Apóstolos, art. 10 [990]). A Quaresma é então esse tempo de luta intensa, representativo de nossa existência neste mundo, dado que "é uma luta a vida do homem sobre a terra" ( 7, 1). Embora esses quarenta dias que antecedem a Páscoa do Senhor sejam um tempo forte especialmente escolhido para vivermos a oração e a penitência, a verdade é que não devemos descuidar dessas práticas nunca, pois os inimigos de nossa alma não dão trégua em sua luta para perder as nossas almas.

Segundo, Nosso Senhor foi conduzido ao deserto. "Este deserto — explica Santo Tomás — era entre Jerusalém e Jericó, onde muitos eram assassinados e do qual falou Jesus ao contar a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 30): 'Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo, espancaram-no e foram-se embora, deixando-o quase morto'".

Tragédia semelhante à que se deu com o homem da parábola é a que aconteceu com o povo de Israel, antes de entrar na Terra Prometida, e também a que se passa conosco no "deserto" desta vida. Depois de atravessarem as águas do Mar Vermelho, por muitas provações tiveram que passar os israelitas até entrarem na posse de Canaã; também nós, depois de atravessarmos as águas do santo Batismo, muitos combates devemos travar até entrarmos na posse do Reino dos céus.

Por sua vez, o número 40, expresso em todos esses episódios — inclusive no tempo em que Jesus passou jejuando e rezando no deserto —, vem carregado de significados. Um deles é trazido por Santo Tomás, conforme observação de São Gregório Magno: "Esse número é instituído pela Igreja para o jejum porque por ele pagamos o dízimo de todo o ano: do primeiro domingo até a Páscoa são 36 dias de jejum, os quais constituem a décima parte do ano, faltando seis dias. Por isso, desde muito tempo foi adicionado um meio dia, no qual se jejuava até a meia-noite do Sábado Santo".

A reflexão mais importante, porém, do Doutor Angélico para este Evangelho, começa a partir de agora, quando ele apresenta cinco razões básicas pelas quais Deus permite que sejam tentados por Satanás aqueles que recebem a graça espiritual:

  1. "A fim de que seja provada a sua justiça, pois, como diz a Vulgata, 'quem não é tentado, como se sabe que é bom?' (Eclo 34, 9)".
  2. "A fim de que seja reprimida a sua soberba, como aconteceu com o Apóstolo: 'Para que a grandeza das revelações não me enchesse de orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me esbofetear' (2Cor 12, 7)".
  3. "A fim de que seja confundido o Diabo (para que saiba quão grande é a virtude de Cristo, a qual não pode superar), e disso se tem como exemplo a história do servo Jó (cf. 1, 8ss)";
  4. "A fim de que voltem mais fortes os cristãos, assim como voltam mais fortes da guerra os soldados"; e
  5. "A fim de que reconheçam a sua dignidade, porque, quando o Diabo assalta alguém, isso é motivo de honra, dado o seu alvo serem os santos".

E quem são os santos, senão aqueles que, pelo santo Batismo, ingressaram no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja? Quem são eles, senão os santos Padres do Deserto — os seguidores de Santo Antão —, senão os sacerdotes das grandes tentações — como o Cura d'Ars e São Pio de Pietrelcina —, senão nós mesmos que, assistidos pela graça de Deus, fomos predestinados por Ele para a glória do Céu?

Grande é a nossa dignidade, caríssimos irmãos! O nosso preço é o sangue de um Deus. Peçamos a Ele, pois, a graça de vivermos conforme sua santíssima vontade e correspondermos, dia após dia, ao amor tão elevado com que Ele nos amou. Amém.

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