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Homilia Dominical
1 Nov 2017 - 26:44

Santos sim, com a graça de Deus!

Neste domingo em que celebramos a Solenidade de Todos os Santos, Padre Paulo Ricardo recorda o ensinamento do Concílio Vaticano II sobre a “vocação de todos à santidade na Igreja” e ensina bem concretamente como podemos trilhar, com a ajuda indispensável da graça, esse caminho real e possível indicado pelo próprio Senhor.
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Homilia Dominical - 1 Nov 2017 - 26:44

Santos sim, com a graça de Deus!

Neste domingo em que celebramos a Solenidade de Todos os Santos, Padre Paulo Ricardo recorda o ensinamento do Concílio Vaticano II sobre a “vocação de todos à santidade na Igreja” e ensina bem concretamente como podemos trilhar, com a ajuda indispensável da graça, esse caminho real e possível indicado pelo próprio Senhor.
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt 5, 1-12a)

Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.

É com grande alegria que a Igreja celebra neste domingo a Solenidade de todos os Santos, data em que nos recordamos das tantas pessoas que no passado e ainda hoje alcançam a santidade. Tal celebração também nos oferece a oportunidade de meditarmos sobre o que significa ser santo. Uma vez que o cristianismo é a religião do amor, uma amor que não consiste em um ideal lá no Céu, longe de nossa realidade, mas em um dom gratuito da providência divina, somos levados a crer firmemente, como professa o Concílio Vaticano II, que todos, absolutamente todos nós, somos chamados a viver a santidade já aqui na Terra.

De fato, muitos dos nossos irmãos e irmãs alcançaram isso, e essa é a festa que nós celebramos. Nós celebramos a alegria de que muitos irmãos e irmãs, aqui na Terra, alcançaram um grau de santidade e de amor para com Deus extraordinário, e que nós temos agora essas pessoas lá no Céu, contemplando a Deus face a face, intercedendo por nós.

É verdade também que nem todos chegaram lá, porque, como ensina a fé da Igreja, há pessoas que, embora sejam salvas, embora entrem no Céu, não alcançam aqui na Terra a santidade. São as pessoas que vão para o Purgatório. Essas pessoas que terminam morrendo e vão para o Purgatório, nós as recordamos e rezamos por elas no dia 2 de novembro.

No calendário litúrgico, nós temos dia 1.º de novembro, festa de Todos os Santos — transferida no Brasil para o domingo seguinte — e no dia 2 os Fiéis Defuntos, quando nós rezamos pelas pessoas que morreram e esperamos que estejam salvas, apesar de que, não alcançando a santidade aqui na Terra, tenham ainda de passar por um período de purificação no Purgatório. Essa é a fé básica da Igreja.

Há uma tendência, no entanto, de se desacreditar a existência dos santos e do Purgatório, como consequência de uma certa protestantização dos católicos. O que é protestantização? É atitude de algumas pessoas que, ao invés de crerem no que a Igreja Católica ensina — que é possível a santidade aqui na Terra, pela graça de Deus, pela transformação, por um processo lento, penoso, porém um processo real em que Deus vai transformando a pessoa em um grande santo —, professam a mesma incredulidade dos protestantes evangélicos, que não acreditam em nada disso.

É bem provável que você já tenha encontrado algum protestante que, ouvindo falar sobre a história de um santo, protestasse: “Não, que santo que nada! Era um pecador como nós”. Ora, os protestantes não crêem que seja possível ser santo aqui na Terra.

E é irônico que, por uma coincidência, o aniversário da Revolta Protestante de Lutero — que neste ano completa 500 anos — seja comemorado justamente nas vésperas das festas de Todos os Santos e Todos os Fiéis Defuntos. No dia 31 de outubro, temos Lutero — que não acredita em santidade, e não acredita em Purgatório. Mas, quase que como uma espécie de resposta, a Igreja celebra no dia 1.º de novembro a sua fé na santidade, e no dia 2 a sua fé no Purgatório. É claro que as festas católicas são anteriores a Lutero. Já na época dele se celebravam essas festas. Mas é possível ver aqui como é necessária a renovação de nossa fé católica.

Meditemos, portanto, no significado da santidade e nas condições que são necessárias para que um dia a alcancemos:

1. Todos nós somos chamados à santidade. Todos nós somos chamados à “perfeição cristã”. A Igreja crê nisso como algo incondicional. O Concílio Vaticano II atestou essa fé da Igreja na constituição dogmática Lumen Gentium, capítulo V: “Nós cremos que a Igreja, cujo mistério é exposto no sagrado Concílio, é indefectivelmente santa” (n. 39).  Essa é a primeira coisa em que somos bem diferentes dos protestantes. Estes acham que a Igreja é santa e pecadora. Nós católicos não achamos isso. Nós cremos firmemente que a Igreja é indefectivelmente santa.

É preciso entender que os pecados da Igreja não são da Igreja, mas de membros da Igreja. A fronteira da Igreja passa dentro de você. Você é católico? É membro da Igreja? Ótimo. Você já é santo, plenamente? Não. Dentro de você existe uma fronteira; há algo em você que já é Igreja, e existe algo em você que ainda não é, e precisa ser evangelizado e convertido, pois é justamente essa parte o que o leva a pecar. O pecado é seu. A Igreja é indefectivelmente santa, como diz o Concílio Vaticano II e o próprio Credo: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. Você não diz: “Creio na Igreja santa e pecadora”, você diz: na Igreja santa. A Igreja tem essa característica, é uma de suas notas.

A consequência disso, já que a Igreja é indefectivelmente santa, é que essa santidade da Igreja incessantemente se manifesta e deve manifestar-se nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis. A Igreja não é santa em abstrato. Nunca faltará em nenhuma geração da Igreja pessoas santas, reais e concretas, porque o Espírito Santo não irá parar de manifestar esses frutos de santidade nos fiéis.

A conclusão do Concílio é que existe não somente o fato de que a Igreja é santa, de que não deixará de haver santos ao longo dos séculos, mas que também nós, batizados, somos chamados à santidade: “O Senhor Jesus, mestre e modelo divino de toda perfeição, pregou a todos e a cada um de seus discípulos, de qualquer condição, a santidade de vida de que Ele próprio é autor e consumador” (Lumen Gentium, V, 40). No caso do jovem rico, por exemplo, Jesus o convida expressamente para ser santo. Ele já estava salvo, mas ainda lhe faltava a perfeição: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Mt 19, 21).

Temos de exorcizar, portanto, essa mania protestante de as pessoas dizerem: “Não, mas nós somos pecadores, é assim mesmo, é inevitável ser pecador…” Não, não é inevitável ser pecador! Deus quer que nós sejamos santos, a santidade é possível e, se nós não somos santos, a culpa é nossa! Deus quer nos dar a graça da santidade!

2. Aplicação prática desses princípios. Mas como faço para chegar à santidade? O crescimento na santidade é o crescimento nas virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. Se você quiser ser santo, precisa fazer atos de fé, esperança e caridade, e, claro, já que é uma virtude teologal, quando você faz um ato de fé, um ato de esperança, um ato de caridade, não é você que está fazendo. É Deus que está, de alguma forma, infundindo aquilo em você. Deus age em você, faz sua transformação interior até que você chegue à santidade propriamente dita. Mas você tem de colaborar com Deus que vai fazer a transformação, unir a nossa alma àquele que é a fonte de toda santidade.

Com efeito, o primeiro passo na busca pela santidade deve ser dado pela fé. O santo vive pela fé. Se uma pessoa tiver de ser santa, ela será santa na fé, porque um santo está unido a Jesus de tal maneira que pode dizer como São Paulo disse aos Gálatas: “Vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (2, 20). São Paulo, contudo, ainda continua: “E esta vida eu a vivo na fé” (2, 20). A partir disso, torna-se claro que todas as maravilhas que um santo realiza não têm outra origem senão a própria pessoa de Cristo. Santo Antônio, São Paulo, Santo Tomás de Aquino, Santa Teresinha… todas as suas virtudes heróicas são expressão da profunda intimidade que tinham com Deus. Em São Pio de Pietrelcina, essa intimidade chegou a transparecer em seu próprio corpo, por meio das estigmas. Mas ele só chegou a esse grau de identificação com Jesus porque teve fé.

É preciso deixar claro, por outro lado, que essa fé não é a mesma que professava Lutero, cuja teologia resumia essa virtude teologal a um sentimento de confiança. A fé, na verdade, é uma virtude infundida por Deus em nossos corações, por meio também do exercício da oração, que pode ocorrer tanto na frente do sacrário como em uma pregação. Quando alguém escuta uma pregação e se sente alimentado por aquela palavra, ocorre um movimento da graça divina que o direciona para o Céu. Trata-se da fé exercida. Por isso é sempre recomendável que, na sua oração, você se recorde daqueles momentos em que se sentiu tocado pela graça de Deus, tocado pelo primeiro amor. Isso acontece mesmo quando você não está em estado de graça.

A fé, aliás, ajuda a pessoa a crescer em virtudes e desejar permanecer em estado de graça. É quando se inicia o processo de santificação e Deus a convida a fazer mais do que simplesmente obedecer aos dez mandamentos. A pessoa começa a viver o período dos iniciantes, das primeiras moradas, na linguagem de Santa Teresa d’Ávila. Se perseverar, a pessoa vai galgando vários degraus até passar pela purificação da vontade, de modo que se torne, já na quarta morada, totalmente submissa a Deus. Na quinta morada, a inteligência é iluminada com a contemplação da verdade. Na sexta, depois da purificação da fé, faz o seu noivado espiritual. E, finalmente, na sétima morada, vive a união transformante.

Muitos santos experimentaram essa realidade aqui na Terra, vivendo já neste mundo aquilo que teriam no Céu. É por isso que Santa Teresinha disse quando já estava na sétima morada: “Eu não sei o que o Céu vai acrescentar, porque eu já tenho Deus”.

Nesta Solenidade de Todos os Santos, temos de imitar o exemplo desses grandes santos e, crendo firmemente na fé católica, buscar a mesma santidade. Ouçamos o apelo do Vaticano II que nos chama à santidade, buscando o apoio indispensável das virtudes teologais. Para nós, iniciantes, deve valer a decisão firme de ter vida de oração e sair dessa miséria de fazer só aquilo que é obrigação. Ora, este domingo é o domingo da alegria, de que os santos existem, intercedem por nós, e de que um dia nós também seremos santos.

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