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Homilia Dominical
23 Abr 2015 - 00:25

O êxodo, experiência fundamental da vocação

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Homilia Dominical - 23 Abr 2015 - 00:25

O êxodo, experiência fundamental da vocação

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo João
(Jo 10, 11-18)

Em sua mensagem para o 52º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, celebrado neste Domingo do Bom Pastor, o Papa Francisco fala do êxodo como experiência fundamental da vocação cristã. De fato, a própria palavra "apóstolo" (do grego: ἀπόστολος) carrega este significado: saindo da própria comodidade e de seus projetos pessoais, o discípulo de Cristo é enviado para longe, ao encontro da missão designada por Deus.

Mas o que este tema tem a ver com a liturgia deste Domingo? Ora, o "bom pastor" de que fala o Evangelho é também o pastor retratado pelo Evangelho de São Lucas (15, 1-7), que, perdendo uma de suas ovelhas, "deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la". A chave de leitura desta passagem é o próprio Jesus, que sai do Céu para resgatar as Suas ovelhas do vale da sombra da morte (cf. Sl 22, 4). Ao contrário do mercenário, que, vendo o lobo chegar, "abandona as ovelhas e foge", e o lobo, então, "as ataca e dispersa", o bom pastor permanece com suas ovelhas e se expõe, ele mesmo, aos ataques do lobo, disposto que está a entregar a própria vida.

Antes, porém, de dar a sua vida, o bom pastor precisa sair de sua comodidade. O Papa Francisco cita, em sua mensagem, um trecho da encíclica Deus Caritas Est, do Papa Bento XVI, dizendo que a vocação cristã provoca um "êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus" [1].

Êxodo permanente do eu fechado em si mesmo. Na época de Cristo, era uma característica básica dos pastores que eles fossem nômades itinerantes, à procura de pastagens para o seu rebanho. Se ficasse parado em um só lugar, suas ovelhas morreriam de fome. Ele estava, pois, em "êxodo permanente". No caso das vocações, é preciso que elas realizem essa saída "do eu fechado em si mesmo". Neste dia especial de oração, é preciso pedir a Deus jovens que se inquietem consigo mesmos, que não fiquem ensimesmados em suas vaidades, mas queiram viver o sacerdócio em santidade, como viveram os grandes sacerdotes da história da Igreja. Jovens que saiam de seus planos egoístas de autorrealização e estejam dispostos a fazer a vontade do Outro, que é Deus. Que descubram, assim como o teólogo Hans Urs von Balthasar descobriu, que eles não têm nada para escolher; antes, eles já foram escolhidos [2].

Para a sua libertação no dom de si. Se o povo de Israel saiu do Egito para a Terra Prometida, o coração do vocacionado é chamado a sair "do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si". Essas são as duas terras, no meio das quais há um deserto, uma peregrinação necessária. Sem ela, não é possível ser feliz, já que a felicidade consiste justamente em que a pessoa cumpra em sua vida a vontade de Deus a seu respeito. Só assim se dá, nas palavras de Bento XVI, o reencontro de si mesmo. Paradoxalmente, é justamente quando o homem sai à procura de Deus que ele se encontra consigo próprio, enquanto o pecado, fechando o ser humano em seu egoísmo, leva-o para bem longe de si.

Em última instância, o êxodo da vocação é feito para a descoberta de Deus, para que se entre em comunhão com Ele. Volta-se, então, à ideia do Evangelho deste Domingo. "Eu sou o bom pastor", diz Jesus. "Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. (...) Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor". No redil de Cristo, há um só Pastor, que é Ele mesmo. No fundo, todos os outros pastores são ovelhas, que também precisam ouvir a voz do Pastor para, assim, se tornarem imagens d'Ele.

Em sua analogia, Nosso Senhor também dá a conhecer um novo conceito de sacerdócio. O pastor que "dá a vida por suas ovelhas" é, ao mesmo tempo, sacerdote e vítima: não é simplesmente o sujeito que recebe o poder apostólico, mas também aquele que se entrega. Por isso, é triste que muitos padres e seminaristas queiram inventar um novo modelo de sacerdócio, adaptando-se a uma vida cômoda, querendo estar sempre "na moda" e reduzindo o seu serviço a uma rotina empresarial. Um clérigo assim pode até ser sucessor dos Apóstolos; sua vida, porém, não reflete o "êxodo permanente" que eles viveram, deixando tudo – suas redes, famílias e projetos – para ir aonde não queriam ir (cf. Jo 21, 18) e dar a vida pelo rebanho do Senhor.

"Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi de meu Pai", diz o Senhor. Sejamos também nós capazes de dar a vida, de sair espontânea, livre e amorosamente ao encontro do Pai, dispostos a ser pisados como o trigo que cai na terra e dá muito fruto (cf. Jo 12, 24-26).

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