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Homilia Dominical
23 Abr 2015 - 25:05

O êxodo, experiência fundamental da vocação

Quando um jovem é chamado ao sacerdócio, também é chamado a “sair”: sair da terra das próprias vaidades, caprichos e projetos pessoais, para dar a sua vida por Deus e por Suas ovelhas. É sobre esse “êxodo” que Padre Paulo Ricardo fala nesta pregação. Como saber se estou sendo fiel à minha vocação de sacerdote? Sou um padre “da moda” ou um homem do sacrifício? Como me configurar realmente à imagem do Bom Pastor?
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Homilia Dominical - 23 Abr 2015 - 25:05

O êxodo, experiência fundamental da vocação

Quando um jovem é chamado ao sacerdócio, também é chamado a “sair”: sair da terra das próprias vaidades, caprichos e projetos pessoais, para dar a sua vida por Deus e por Suas ovelhas. É sobre esse “êxodo” que Padre Paulo Ricardo fala nesta pregação. Como saber se estou sendo fiel à minha vocação de sacerdote? Sou um padre “da moda” ou um homem do sacrifício? Como me configurar realmente à imagem do Bom Pastor?
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Em sua mensagem para o 52º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, celebrado neste Domingo do Bom Pastor, o Papa Francisco fala do êxodo como experiência fundamental da vocação cristã. De fato, a própria palavra “apóstolo” (do grego: ἀπόστολος) carrega este significado: saindo da própria comodidade e de seus projetos pessoais, o discípulo de Cristo é enviado para longe, ao encontro da missão designada por Deus.

Mas o que este tema tem a ver com a liturgia deste Domingo? Ora, o “bom pastor” de que fala o Evangelho é também o pastor retratado pelo Evangelho de São Lucas (15, 1-7), que, perdendo uma de suas ovelhas, “deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la”. A chave de leitura desta passagem é o próprio Jesus, que sai do Céu para resgatar as Suas ovelhas do vale da sombra da morte (cf. Sl 22, 4). Ao contrário do mercenário, que, vendo o lobo chegar, “abandona as ovelhas e foge”, e o lobo, então, “as ataca e dispersa”, o bom pastor permanece com suas ovelhas e se expõe, ele mesmo, aos ataques do lobo, disposto que está a entregar a própria vida.

Antes, porém, de dar a sua vida, o bom pastor precisa sair de sua comodidade. O Papa Francisco cita, em sua mensagem, um trecho da encíclica Deus Caritas Est, do Papa Bento XVI, dizendo que a vocação cristã provoca um “êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus” [1].

Êxodo permanente do eu fechado em si mesmo. Na época de Cristo, era uma característica básica dos pastores que eles fossem nômades itinerantes, à procura de pastagens para o seu rebanho. Se ficasse parado em um só lugar, suas ovelhas morreriam de fome. Ele estava, pois, em “êxodo permanente”. No caso das vocações, é preciso que elas realizem essa saída “do eu fechado em si mesmo”. Neste dia especial de oração, é preciso pedir a Deus jovens que se inquietem consigo mesmos, que não fiquem ensimesmados em suas vaidades, mas queiram viver o sacerdócio em santidade, como viveram os grandes sacerdotes da história da Igreja. Jovens que saiam de seus planos egoístas de autorrealização e estejam dispostos a fazer a vontade do Outro, que é Deus. Que descubram, assim como o teólogo Hans Urs von Balthasar descobriu, que eles não têm nada para escolher; antes, eles já foram escolhidos [2].

Para a sua libertação no dom de si. Se o povo de Israel saiu do Egito para a Terra Prometida, o coração do vocacionado é chamado a sair “do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si”. Essas são as duas terras, no meio das quais há um deserto, uma peregrinação necessária. Sem ela, não é possível ser feliz, já que a felicidade consiste justamente em que a pessoa cumpra em sua vida a vontade de Deus a seu respeito. Só assim se dá, nas palavras de Bento XVI, o reencontro de si mesmo. Paradoxalmente, é justamente quando o homem sai à procura de Deus que ele se encontra consigo próprio, enquanto o pecado, fechando o ser humano em seu egoísmo, leva-o para bem longe de si.

Em última instância, o êxodo da vocação é feito para a descoberta de Deus, para que se entre em comunhão com Ele. Volta-se, então, à ideia do Evangelho deste Domingo. “Eu sou o bom pastor”, diz Jesus. “Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. (...) Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. No redil de Cristo, há um só Pastor, que é Ele mesmo. No fundo, todos os outros pastores são ovelhas, que também precisam ouvir a voz do Pastor para, assim, se tornarem imagens d’Ele.

Em sua analogia, Nosso Senhor também dá a conhecer um novo conceito de sacerdócio. O pastor que “dá a vida por suas ovelhas” é, ao mesmo tempo, sacerdote e vítima: não é simplesmente o sujeito que recebe o poder apostólico, mas também aquele que se entrega. Por isso, é triste que muitos padres e seminaristas queiram inventar um novo modelo de sacerdócio, adaptando-se a uma vida cômoda, querendo estar sempre “na moda” e reduzindo o seu serviço a uma rotina empresarial. Um clérigo assim pode até ser sucessor dos Apóstolos; sua vida, porém, não reflete o “êxodo permanente” que eles viveram, deixando tudo – suas redes, famílias e projetos – para ir aonde não queriam ir (cf. Jo 21, 18) e dar a vida pelo rebanho do Senhor.

“Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi de meu Pai”, diz o Senhor. Sejamos também nós capazes de dar a vida, de sair espontânea, livre e amorosamente ao encontro do Pai, dispostos a ser pisados como o trigo que cai na terra e dá muito fruto (cf. Jo 12, 24-26).

Referências

  1. Papa Bento XVI,Carta Encíclica Deus Caritas Est (25 de Dezembro de 2005), n. 6.
  2. Cf. Hans Urs von Balthasar, Porquoi je me suis fait prêtre. Témoignages recueillis par Jorge et Ramón Sans Vila (Tournai, 1961), 21: “Mesmo agora, trinta anos depois, ainda poderia ir àquele via longínqua na Floresta Negra, não muito longe da Basileia, e encontrar novamente a árvore debaixo da qual fui atingido como que por um raio... E, então, não era nem a teologia nem o sacerdócio o que vinha, em um flash, à minha mente. Era simplesmente isto: você não tem nada a escolher, você foi chamado. Você não vai servir, você vai ser levado ao serviço. Você não tem planos a fazer, você é apenas uma pedrinha em um mosaico que já está pronto há muito tempo. Tudo o que eu precisava fazer era ‘deixar tudo e segui-Lo’, sem fazer planos, sem desejos ou insights. Tudo o que eu precisava era permanecer ali, esperar e ver para o que eu seria precisado.”
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