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Homilia Dominical
10 Fev 2017 - 27:09

O pecado começa no coração

Existem duas formas de pecar contra o próximo: usando e odiando. É sobre isso que Nosso Senhor fala no Evangelho deste domingo, quando ensina, por exemplo, que a traição e a impureza sexual começam no coração. Mas será realmente possível guardar a castidade até nos olhares e pensamentos? De que modo acolher essa lição de Jesus como uma verdadeira "boa-nova" para a nossa vida?
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Homilia Dominical - 10 Fev 2017 - 27:09

O pecado começa no coração

Existem duas formas de pecar contra o próximo: usando e odiando. É sobre isso que Nosso Senhor fala no Evangelho deste domingo, quando ensina, por exemplo, que a traição e a impureza sexual começam no coração. Mas será realmente possível guardar a castidade até nos olhares e pensamentos? De que modo acolher essa lição de Jesus como uma verdadeira "boa-nova" para a nossa vida?
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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
(Mt
5, 17-37)

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus. Porque eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus.

Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno. Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta. Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.

Ouvistes o que foi dito: 'Não cometerás adultério'. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno.

Foi dito também: 'Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio'. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério.

Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: 'Não jurarás falso', mas 'cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor'. Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; nem pela terra, porque é o suporte onde apoia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. Não jures tão pouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. Seja o vosso 'sim': 'Sim', e o vosso 'não': 'Não'. Tudo o que for além disso vem do Maligno.

Nosso Senhor, neste domingo, dá continuidade ao Sermão da Montanha e reapresenta aos seus discípulos os preceitos da Lei Antiga, dizendo expressamente que veio não para os abolir, mas elevá-los à perfeição. E isso de três modos: primeiro, com relação ao fim que se almeja, pois, enquanto o povo de Israel buscava o reino terreno de Canaã, o povo da nova e eterna aliança ruma nada menos que o reino celeste do Céu; segundo, com relação ao alcance dos preceitos, já que os Dez Mandamentos, a partir de então, passam a ser obedecidos não só exteriormente, mas partindo do coração; e, terceiro, quanto à motivação dos homens, os quais antes agiam pelo temor e agora devem mover-se pelo amor. Nas expressões dos santos doutores Agostinho e Tomás de Aquino, "breve é a diferença entre a Lei e o Evangelho: temor e amor" [1], e ainda: lex vetus cohibet manum, lex nova animum, ou seja, "a leia antiga coíbe a mão; a lei nova, a alma" [2].

Essa verdade fica patente no modo como Cristo reformou seja a primeira tábua da Lei — referente ao amor de Deus —, seja a segunda — concernente ao amor do próximo. Ao fim do Evangelho deste domingo, por exemplo, Ele amplia a extensão do pecado de perjúrio, pedindo a seus seguidores a sinceridade e a clareza no falar; em toda a primeira parte, no entanto, é dos pecados contra a benevolência devida ao próximo que trata Nosso Senhor, e é também sobre eles que pretendemos nos deter nesta breve meditação.

Comecemos distinguindo os dois modos pelos quais pode alguém pecar gravemente contra o seu próximo: pelo desejo carnal e pela ira. Quem mantém, assim, um comportamento desordenado em relação às outras pessoas, ou é porque as está usando (caso do 6.º e do 9.º mandamentos), ou porque as está odiando e lhes desejando o mal (caso do 4.º, do 5.º, do 7.º, do 8.º e do 10.º mandamentos).

Vale lembrar que a prática consciente e deliberada desses pecados impossibilita de modo absoluto a vida espiritual. Isso porque estamos a falar dos chamados "pecados mortais", os quais matam em nós a vida sobrenatural da graça. As pessoas que se abstêm dessas condutas, portanto, nada mais fazem que dar o primeiro passo rumo ao amor: de fato, não se pode dizer que ama verdadeiramente sua mãe um filho que a espanca; do mesmo modo, não ama a Deus quem O ofende com esses tipos de pecado. No momento mesmo em que decidimos praticá-los, perdemos a amizade dEle e só a recuperamos pelo arrependimento e pela confissão humilde de nossas faltas.

Ouçamos, pois, o que nos ensina o Senhor.

Primeiro, Ele diz: "Ouvistes o que foi dito: 'Não cometerás adultério'. Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração". Com isso, Nosso Senhor adverte para a gravidade do nono mandamento: "Não cobiçar a mulher do próximo" — pecado ao qual a nossa época hipersexualizada parece não dar muita importância, mas que constitui, se pararmos para meditar com seriedade, uma verdadeira traição às pessoas que Deus constituiu como nossas companheiras. De fato, que fidelidade há em trazer uma aliança de compromisso no dedo, enquanto a própria mente vagueia a imaginar relações sexuais com outros homens ou mulheres? Será que pode ser considerado realmente fiel quem se compromete com o corpo, mas tem um coração adúltero? O que a pessoa com quem você compartilha a vida pensaria, se pudesse acompanhar todos os seus olhares e ler todos os seus pensamentos?

Ao contrário do que muitos podem pensar em um primeiro momento, não se trata de um peso ou um fardo esmagador esse exame de consciência que Jesus nos propõe. Estamos a falar de uma exigência desafiadora para os tempos em que vivemos, mas Deus definitivamente não nos pede o impossível. Neste Evangelho está contida, na verdade, a única chave de libertação para a afetividade e a sexualidade humanas. Não fomos feitos, afinal, para nos relacionarmos uns com os outros como os animais; Deus criou-nos (e redimiu-nos!) para que fôssemos família, para que vivêssemos entre nós, seres humanos, aquela mesma aliança que Ele firma conosco, através do santo Batismo. Essa é, portanto, a primeira lição que devemos pôr em prática em nosso trato com o próximo.

A segunda diz respeito ao nosso apetite irascível, como já dito. Assim ensina o Senhor: "Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno". Com isso, Cristo não está a reprimir como pecaminoso qualquer acesso de raiva que tenhamos, ainda que também estes precisem ser ordenados e trabalhados dentro de nós. As palavras dEle são muito claras: "todo aquele que se encoleriza com seu irmão", isto é, para que haja pecado grave nesta matéria, é necessário um querer consciente e deliberadamente o mal alheio. Disso se depreende que é perfeitamente possível irar-se sem, no entanto, pecar contra a benevolência devida aos irmãos, como diz o Apóstolo: "Mesmo em cólera, não pequeis" (Ef 4, 26).

Evitando já esses pecados mais grosseiros, por amor a Deus, começamos a caminhar rumo à santidade. O trabalho de nossa conversão, no entanto, não é obra de um dia ou de uma semana. Peçamos à Virgem Santíssima, pois, a graça de seguirmos firmes nesse caminho, levantando-nos se caírmos e desconfiando sempre de nós mesmos, se estivermos de pé. O prêmio da vida eterna é prometido não aos que iniciam a caminhada, mas aos que concluem a corrida. "Quem perseverar até o fim, este será salvo" (Mt 24, 13).

Referências

  1. Santo Agostinho, Contra Adimantum Manichaei Discipulum, 17, 2 (PL 42, 159).
  2. Suma Teológica, I-II, q. 91, a. 5.

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