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Anjos e Demônios

Sim, os anjos existem!

Os anjos são parte integrante da doutrina católica. Crer em sua existência não é uma opção, mas um dever nascido da obediência da fé. A Igreja a ensina, a Escritura a atesta, a Tradição a confirma e os tempos mostram sua influência no rumo da história.

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Vivemos tempos conturbados, em que são tanto mais necessários os auxílios do céu quanto mais intensos são os ataques do inferno à barca de Pedro. E entre estes auxílios se contam, sem dúvida, os santos anjos, enviados para proteger não só cada homem em particular, mas toda a Igreja de Cristo.

Prova disso são os diversos serviços prestados pelos anjos ao glorioso São José, posto por Deus à frente da Sagrada Família, berço da Igreja nascente. Foram anjos, com efeito, que iluminaram o patriarca a receber Maria como esposa, o mandaram fugir de noite com o Menino para o Egito e lhe ordenaram, morto Herodes, a volta para Nazaré.

Essa relação entre José e o ministério angélico na vida da Igreja foi posta em evidência mais recentemente pelo próprio magistério eclesiástico. Lembremos que o beato Papa Pio IX proclamou São José padroeiro da Igreja justamente para proteger a família cristã daquelas hostes infernais que, mais tarde, Leão XIII veria ruir sobre a cidade de Roma, o que levou o pontífice a compor a famosa oração a São Miguel Arcanjo.

Disso temos ainda outra confirmação nas aparições de Fátima, preparadas pela vinda do Anjo de Portugal e consumadas pela aparição no céu de São José. E, na visão do segredo, os pastorinhos viram o anjo da vingança divina a clamar: “Penitência, penitência, penitência!” e outros dois anjos a colher o sangue dos mártires.

São José, São Miguel e os anjos, Nossa Senhora e o drama da perseguição à Igreja — um século de história sobrenatural que manifesta a consciência que a Igreja tem da batalha que está enfrentando e de sua dependência dos anjos na luta contra os poderes infernais.

Se já não fossem suficientes esses capítulos da história recente, o próprio Catecismo de 1992 nos recorda qual é a fé católica a respeito do drama final que precederá a segunda vinda de Cristo:

Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o “mistério da iniquidade”, sob a forma duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade (§ 675).

Que tempos dramáticos estamos vivendo! Há uma luta, e nós fazemos parte dela. Mas não são apenas os sinais dos tempos, os quais indicam a proximidade da grande apostasia, que tornam necessário conhecer melhor os anjos. Também o clima cultural moderno — que induz em não poucas pessoas o interesse por “anjos cabalísticos”, numerologia e ocultismo — torna-o ainda mais urgente. Afinal, o demônio sabe que, atraindo as almas para o mundo angélico, mas não por via da sã doutrina, irá torná-las presas fáceis de suas mentiras e influências.

Por isso, a fim de recorrer como convém à ajuda dos santos anjos, é importante conhecer primeiro o que estamos obrigados a crer sobre o mundo angélico em geral. É somente na posse da verdade católica, isto é, sabendo com clareza o que são os anjos e como distinguir a ação angélica boa da má, que poderemos ser devotos conscientes e bem formados dos nossos guardiões espirituais.

Infelizmente, muitos ambientes católicos se deixaram influenciar por tendências nascidas entre protestantes liberais dos séculos XIX e XX. Para eles, os anjos não passariam de uma construção das comunidades cristãs primitivas. O resultado disso é que, ao lado do fiel que crê com excessiva ingenuidade em qualquer coisa que se diga e escreva sobre anjos, há hoje uma leva de teólogos católicos que simplesmente nega a existência deles, considerando-os “recursos literários” ou personificações de atributos humanos.

Isso, porém, nada tem a ver com a doutrina da Igreja. É verdade de fé, com efeito, que os anjos existem e — como teremos ocasião de ver ao longo das próximas aulas — atuam como criaturas verdadeiramente pessoais, embora distintas tanto dos homens quanto de Deus.

Ora, ainda que haja registro de várias revelações privadas sobre anjos, com aparições e visões extraordinárias, o testemunho não só da Tradição apostólica como da Sagrada Escritura é inequívoco neste ponto. Percorramos apenas algumas passagens da Bíblia para ver como, no desenrolar da revelação pública, Deus manifestou com certeza a existência deles [1]:

  • Na economia patriarcal, um anjo apareceu enquanto Agar fugia de Sarai, “e o anjo do Senhor disse-lhe: ‘Volta para a tua senhora e humilha-te debaixo da sua mão’” (Gn 16, 9). Um anjo de Deus consolou a mesma Agar desolada com o filho no deserto: “Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino do lugar em que está” (Gn 21, 17). Como Abraão estivesse a ponto de imolar Isaac, “o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: ‘Abraão, Abraão […], não estendas a tua mão sobre o menino’” (Gn 22, 11). “Chegaram os dois anjos a Sodoma quando Lot estava assentado às portas da cidade […] e o tiraram de casa e o puseram fora da cidade” (Gn 19, 1.17). Jacó “viu em sonho uma escada posta sobre a terra, cujo cimo tocava o céu, e os anjos de Deus subindo e descendo por ela, e o Senhor apoiado na escada” (Gn 28, 12s). “Jacó prosseguiu o caminho que levava, e saíram-lhe ao encontro uns anjos de Deus. Tendo-os visto, disse: ‘Estes são os acampamentos de Deus’” (Gn 32, 1s). “De repente abriu o Senhor os olhos de Balaão, e ele viu o anjo que estava no caminho com a espada desembainhada e, prostrado por terra, o adorou. O anjo disse-lhe: ‘[…] Eu vim opor-me a ti, porque o teu caminho é perverso’” (Nm 22, 31s).
  • Na economia mosaica, lê-se: “O Anjo de Deus, que caminhava na frente do acampamento de Israel, levantou-se e foi para detrás deles” (Ex 14, 19; cf. 23, 20; 33, 2). De Gedeão se diz: “O anjo do Senhor apareceu-lhe e disse: ‘O Senhor é contigo’” (Jz 6, 12). Davi viu um anjo como ministro da vingança divina (cf. 2Rs 24, 17; Cr 21, 16). Um anjo apareceu ao profeta Elias, tanto para o confortar na fuga como para lhe transmitir ordens do céu (cf. 1Sm 19, 5; 2Sm 3, passim). Um anjo acompanhou Tobias no caminho, prestando-lhe muitos serviços; no fim, manifestou-se-lhe, dizendo: ‘Eu sou o anjo Rafael, um dos sete que assistimos diante do Senhor’” (Tb 12, 15).
  • Na economia cristã, um anjo apareceu: a Zacarias, predizendo o nascimento de João (cf. Lc 1, 11); a Maria, anunciando a Encarnação do Verbo (cf. Lc 1, 28); a José, revelando o mistério da maternidade divina (cf. Mt 1, 20) e trazendo-lhe ordens do céu (cf. Mt 2, 13.17). Outro anjo anunciou aos pastores o nascimento de Cristo, “e subitamente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste, louvando a Deus e dizendo: ‘Glória a Deus no mais alto dos céus’” (Lc 2, 13). Após o jejum e a tentação de Cristo, lê-se: “Então o demônio deixou-o, e eis que os anjos se aproximaram e o serviram” (Mt 4, 11). Foi um anjo quem anunciou às mulheres a ressurreição de Cristo (cf. At 10, 3), quem mandou o centurião Cornélio trazer Pedro (cf. At 10, 3-7), que será mais tarde solto da prisão por um anjo do Senhor (cf. At 12, 5-15).

A libertação de Pedro é particularmente chamativa porque manifesta, em poucas linhas, inúmeras verdades:

  1. Primeiro, que os poderes do inferno, embora conscientes de sua derrota, farão de tudo para destruir a Igreja, e para isso se servem da iniquidade dos homens: “O rei Herodes mandou prender alguns membros da Igreja para os maltratar. Matou à espada Tiago, irmão de João. Vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender Pedro” (At 12, 1ss).
  2. Segundo, que os anjos bons são enviados aos homens como ministros de Deus para assisti-los em suas necessidades e, em alguns casos, para os livrar inclusive do martírio: “Sobreveio um anjo do Senhor, e resplandeceu uma luz no aposento. O anjo despertou Pedro, dizendo: ‘Levanta-te depressa’. [...] O anjo disse-lhe: ‘Toma o teu cinto e calça as tuas sandálias.’ […] E disse-lhe: ‘Põe sobre ti a tua capa e segue-me’” (At 12, 7s).
  3. Terceiro, que os anjos podem interagir com o mundo material, produzindo diferentes tipos de efeitos: “O anjo, batendo no lado de Pedro, despertou-o […]. E caíram as cadeias das suas mãos. […] chegaram à porta de ferro, que dá para a cidade, a qual se lhes abriu por si mesma” (At 12, 7.10).
  4. Quarto, que a ação dos anjos é real, e não meramente imaginária, como em uma visão mística: “Ele, saindo, seguia-o sem se dar conta de que era realidade o que se fazia por intervenção do anjo, antes julgava ter uma visão. […] Então Pedro, voltando a si, disse: ‘Agora sei verdadeiramente que o Senhor mandou o seu anjo e me livrou da mão de Herodes e de tudo o que esperava o povo dos judeus’” (At 12, 9.11).
  5. Quinto, que para os primeiros cristãos era tão natural supor a intervenção de anjos no mundo, que lhes pareceu mais fácil crer na aparição do anjo de Pedro que na libertação milagrosa do próprio Pedro: “Tendo ele batido à porta da entrada, uma donzela, chamada Rode, foi escutar. Logo que reconheceu a voz de Pedro, com alegria, não lhe abriu logo a porta, mas, correndo para dentro, deu a boa nova de que Pedro estava à porta. Eles, porém, disseram-lhe: ‘Estás louca’. Mas ela afirmava que era assim. Eles diziam: ‘É o seu anjo’’” (At 12, 13ss).

Talvez não sejamos encarcerados como Pedro nem tenhamos de encarar o martírio de sangue, mas devemos estar, como Pedro após Pentecostes, dispostos ao martírio, abertos com docilidade às graças que, por meio dos anjos, Deus nos há de enviar para suportar as provações que estes tempos nos reservam. Se é verdade que um dia chegará a grande apostasia, não é menos certo que temos ao nosso lado, para nos guardar e iluminar, amigos bons, sábios e poderosos — os santos anjos.

Nota

  1. A relação de versículos nos três itens seguintes foi feita por C. Mazella, em sua obra De Deo creante, 5.ª ed., Prati, 1908, p. 174ss, a quem traduzimos com ligeiras modificações.
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