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Nesta aula, vamos falar sobre uma tradição antiquíssima da Igreja: as têmporas, que consistem em quatro semanas do ano nas quais a Igreja, nos dias penitenciais (quarta-feira, sexta-feira e sábado), proclama um jejum para consagrar a Deus a mudança nas quatro estações (verão, outono, inverno e primavera).

Por ser uma prática que caiu em desuso, algumas pessoas podem pensar que tenha sido abolida. Porém, o Cerimonial dos Bispos prevê as têmporas, em seu número 381: “Nas rogações e nas quatro têmporas a Igreja costuma orar ao Senhor pelas várias necessidades dos homens, sobretudo pelos frutos da terra e pelos trabalhos dos homens e render-lhe publicamente ação de graças” [1].

Também o Missal Romano trata do assunto em suas “Normas universais para o ano litúrgico”, prescrevendo o seguinte: “Para que as Rogações e as Quatro Têmporas do ano possam adaptar-se às diversas necessidades dos lugares e dos fiéis, convém que as Conferências Episcopais determinem o tempo e o modo como devem ser celebradas” [2]. 

Com efeito, a tradução brasileira do Missal apresenta a seguinte nota de rodapé sobre o assunto: “A CNBB (XII Assembleia Geral – 1971) decidiu que a regulamentação da celebração das Têmporas e Rogações fique a critério das Comissões Episcopais Regionais”. Ou seja, ficou a critério dos regionais regulamentar a prática; porém, até o momento, não se tem conhecimento de que algum regional o tenha feito. Assim, não havendo norma, deve prevalecer a liberdade; afinal, quem nos proibirá de fazer o bem?

Quanto aos períodos do ano, as quatro têmporas distribuem-se da seguinte forma, de acordo com as quatro estações do ano (considerando o hemisfério norte):

  1. As têmporas da primavera: na primeira semana da Quaresma;
  2. As têmporas do verão: na semana da oitava de Pentecostes;
  3. As têmporas do outono: na terceira semana de setembro, entre a Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro) e o dia de São Miguel Arcanjo (29 de setembro);
  4. As têmporas do inverno: na terceira semana do Advento, após o domingo Gaudete.

Antes da reforma litúrgica e da promulgação do novo Código de Direito Canônico, a lei eclesiástica previa a obrigatoriedade das têmporas, segundo esta determinação do cân. 1252, §2: “Lex abstinentiae simul et ieiunii servanda est [...] feriis Quatuor Temporum, pervigiliis [...] Nativitatis Domini” (A lei da abstinência e do jejum devem ser observadas nos dias das quatro têmporas [quarta, sexta e sábado] e na Vigília do Natal do Senhor). Sendo assim, podemos livremente assentir ao que o antigo código pedia.

Quanto às têmporas do Advento, são muito relevantes as exortações de Dom Prosper Guéranger, na obra Année liturgique. Ele explica que, por si mesmas, essas mortificações nada tem a ver com o Natal, mas com o início da nova estação. Todavia, o fato de a Igreja já não pedir nenhum jejum específico para o Advento fazia-o considerar as têmporas como uma oportunidade de maior devoção a Deus:

[...] como vivemos em uma época em que o jejum do Advento não existe mais, observemos o preceito das Quatro Têmporas com muito mais fervor, já que esses três dias, juntamente com a Vigília de Natal, são os únicos em que a atual disciplina da Igreja (Código de 1917 – Can. 1252 §2) nos obriga, de maneira precisa, a manter o jejum [3].

Em seguida, o bispo destaca o papel fundamental desta prática enquanto preparação para recebermos a Cristo em nossas almas:

Reanimemos em nós, com a ajuda dessas práticas, o zelo dos tempos antigos, tendo sempre em mente que, se a preparação interior é necessária antes de tudo para o Advento de Jesus Cristo a nossas almas, essa preparação não seria verdadeira em nós se não fosse manifestada externamente nas práticas de religião e penitência [4].

Vale lembrar, como destaca Dom Guéranger, que as têmporas são uma prática possivelmente dos tempos apostólicos [5]. Em todo caso, ele salienta o sentido de abnegação, por uma entrega livre, enquanto um meio de desapego das criaturas a fim de se unir ao Criador:

As Têmporas do Advento são conhecidas na antiguidade eclesiástica com o nome de Jejum do décimo mês [6]; e São Leão Magno [...] nos ensina que esse tempo foi escolhido para uma demonstração especial da penitência cristã porque, assim que a colheita dos frutos da terra termina, é conveniente que os cristãos mostrem sua gratidão ao Senhor através do sacrifício da abstinência, tornando-se assim mais dignos de se aproximarem de Deus, quanto mais souberem superar o apego às criaturas [7].

Oportunamente, além de estar relacionado às estações do ano, a prática das têmporas relaciona-se com as ordenações sacerdotais, principalmente as têmporas do Advento, uma vez que, em Roma, os sacerdotes eram ordenados somente em dezembro, no período das têmporas, a fim de que a Igreja inteira oferecesse jejum por aqueles que seriam ordenados. Assim, após o domingo Gaudete, no jejum da quarta-feira, durante a Missa, eram anunciadas publicamente as ordenações. Na sexta e no sábado, fazia-se o jejum das têmporas; e, então, no sábado, ainda em jejum, ocorriam as ordenações. Essa relação entre as têmporas do Advento e as ordenações sacerdotais é muito bem descrita por Dom Prosper Guéranger: 

O jejum das Quatro Têmporas tem outro objetivo além de santificar, por um ato de piedade, as várias estações do ano. Tem uma íntima relação com a Ordenação dos Ministros da Igreja, que são ordenados no sábado e cuja ordenação antigamente era anunciada ao povo na Missa da quarta-feira. Foram por muito tempo célebres, na Igreja Romana, as Ordenações do mês de dezembro; e o décimo mês era, pelo que se lê nas antigas Crônicas dos Papas, a única ocasião em que as Sagradas Ordens eram conferidas em Roma, com raras exceções. Os fiéis deviam unir-se às intenções da Igreja e apresentar a Deus a oferta de seus jejuns e abstinência, a fim de obter dignos ministros da Palavra e dos Sacramentos, e verdadeiros Pastores do povo cristão [8].

Nesse sentido, as têmporas deixam de significar apenas a ação de graças pelos frutos da terra, para designar uma ação de graças pelos frutos vocacionais que Deus concedeu à Igreja e que são ofertados em oblação durante a ordenação sacerdotal. Por essa razão, é importante que ofereçamos o jejum das têmporas do Advento pelos sacerdotes e pelas vocações sacerdotais, principalmente por aqueles que serão ordenados em breve. Uma oração muito piedosa a se fazer em intercessão pelos sacerdotes, juntamente com o jejum das Têmporas, é a Ladainha de Todos os Santos, que a Igreja reza na liturgia da ordenação sacerdotal, mas que os fiéis também podem rezar privadamente.

Esse oferecimento do jejum e da abstinência não é, como alguns podem pensar, algo retrógrado e ultrapassado. Ao contrário, faz parte da vida da Igreja que peregrina neste mundo sob o ritmo da oração e do sacrifício. A Igreja nos pede que moderemos o nosso ritmo semanal com um dia de sacrifício — a sexta-feira, em que se deve observar a abstinência de carne — e um dia de oração — o domingo, em que se deve participar da Santa Missa. Porém, por falta de zelo na pregação dessas verdades de fé, muitas pessoas acabam pensando como protestantes, afirmando presunçosamente que não é preciso oferecer sacrifícios a Deus, quando, na verdade, eles são indispensáveis para a nossa salvação.

Diferentemente de hoje, no passado, a Igreja influenciava a cultura da sociedade, deixando, inclusive na culinária, os reflexos da necessidade de abstinência de carne. Esse é o caso, por exemplo, do prato japonês conhecido como “Tempurá”, criado, pelos missionários que evangelizaram o Japão, como um alimento para ser ingerido durante o período das têmporas.

Atualmente, além de ter desaparecido da consciência e da vida dos fiéis, a dimensão do sacrifício também parece ter sido apagada da forma celebrativa da Missa. Em muitas celebrações, é impossível constatar algum sinal de que aquela liturgia seja a renovação do sacrifício do Calvário. Verdade esta que consiste num dogma de fé, mas que escandalosamente é ignorada e negligenciada em muitas paróquias.

Num contexto em que se nega até mesmo os preceitos da Igreja, é conveniente que realizemos também as práticas penitenciais não-obrigatórias, como as têmporas do Advento, a fim de exercitar nossa generosidade, pois nossos atos possuem maior valor espiritual quanto menos eles são obrigatórios.

Unamo-nos, pois, em oração generosa, oferecendo, na quarta, na sexta e no sábado (da terceira semana do Advento), o jejum e a abstinência pela conversão e santificação do clero, como sempre o fez a Igreja. Àqueles que são consagrados a Nossa Senhora, é preciso recordar que o valor impetratório dos nossos sacrifícios são confiados a ela, que os dispensará de acordo com sua vontade, embora possamos lhe sugerir a quem aplicá-los. E neste período das têmporas do Advento, ela certamente se lembrará dos sacerdotes, seus filhos prediletos.

Recomendações

  • Uma oração também muito piedosa a se fazer pelos sacerdotes, ao mesmo tempo que se faz o jejum das Têmporas, é a Ladainha de Todos os Santos, que a Igreja rezava na liturgia antiga por essa ocasião, mas que ainda hoje os fiéis podem rezar, privadamente, a fim de que Deus nos envie santos pastores.

Notas

  1. Congregação para o Culto Divino. Cerimonial dos Bispos. 4. ed. São Paulo, Paulus, 2008. n. 381.
  2. Congregação para o Culto Divino. “Normas universais para o ano litúrgico” In: Missal Romano. São Paulo: Paulus, 2002. n. 46.
  3. P. Guéranger. El año litúrgico: advento y navidad. Burgos: Editorial Aldecoa, 1954. pp. 135.
  4. P. Guéranger. El año litúrgico: advento y navidad. Burgos: Editorial Aldecoa, 1954. pp. 135.
  5. Como descreve Dom Prosper Guéranger, a prática das quatro têmporas “pode ser catalogada no número de costumes que a Igreja imitou da sinagoga, porque o profeta Zacarias fala do jejum do quarto, quinto, sétimo e décimo meses. A introdução desse costume na Igreja cristã parece remontar aos tempos apostólicos; tal é, pelo menos, a opinião de São Leão Magno, Santo Isidoro de Sevilha, Rábano Mauro e muitos outros escritores da antiguidade cristã. No entanto, chama a atenção o fato de os orientais não observarem este jejum” (p. 133).
  6. O primeiro calendário romano, cuja criação é atribuída a Rômulo em 753 a. C., estava dividido em dez meses, a começar por Março: Martius, Aprilis, Maius, Junius, Quintilis, Sextilis, September, October, November, December. Em 713 a. C., Numa Pompílio, segundo rei de Roma, reformou o calendário, que passou a ter doze meses, sendo Ianuarius o décimo primeiro e Februarius o décimo segundo. De qualquer forma, em ambos, o décimo mês era dezembro, que no calendário atual é o décimo segundo mês.
  7. P. Guéranger. El año litúrgico: advento y navidad. Burgos: Editorial Aldecoa, 1954. pp. 134.
  8. P. Guéranger. El año litúrgico: advento y navidad. Burgos: Editorial Aldecoa, 1954. pp. 135-136.
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