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Todos os anos, no mês de agosto, a Igreja Católica intensifica as suas preces pelas vocações, especialmente as sacerdotais. E assim o faz porque o próprio Cristo, Nosso Senhor, instituiu a necessidade de pedirmos a Deus “que envie operários para sua messe” (Mt 9, 38). Tais operários são, sobretudo, os pastores ou, melhor dizendo, os sacerdotes que, em virtude do sacramento da Ordem, podem exercer na Igreja, e até ao fim dos tempos, a mesma missão confiada por Jesus aos Apóstolos (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1536). 

Vemos, portanto, que os sacerdotes têm uma missão especialíssima dentro da “economia da salvação”. O sacerdote é, segundo Jesus, o homem do sacrifício. Nesse sentido, dentre os três graus do sacramento da Ordem (episcopado, presbiterado e diaconado), a Igreja chama de “sacerdote” apenas o bispo e o presbítero, pois somente eles podem, in persona Christi, celebrar o santo sacrifício da Missa, absolver os pecados, ungir os doentes e, no caso dos bispos, crismar e ordenar outros sacerdotes. Já o diácono, embora esteja entre os graus do sacramento da Ordem, não é propriamente um sacerdote ainda, porquanto ele não tem a faculdade de oferecer o sacrifício eucarístico.

Seja como for, o Concílio de Trento afirmou dogmaticamente que o sacerdócio católico é uma verdade de fé:

Se alguém disser que no Novo Testamento não há sacerdócio visível e externo, ou que não há poder algum de consagrar e oferecer o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor, bem como de perdoar e reter os pecados, mas há apenas um simples ministério de pregar o Evangelho, ou que aqueles que não pregam não são absolutamente sacerdotes — seja excomungado (DH 1771).

Ao proclamar essa doutrina, os padres conciliares tinham em mente sobretudo os protestantes, para os quais o ministério dos Apóstolos se resume à pregação. Na verdade, o protestantismo é, como dizia o padre jesuíta John Hardon (✝ 2000), “um cristianismo sem sacerdócio ministerial ou ordenado”. Lutero, de fato, jogou fora praticamente todo o sistema sacramental e, além disso, escreveu coisas horrendas contra a Missa e o sacerdócio católico. Por outro lado, os católicos exaltamos o sacerdócio, porque ele nos traz a Eucaristia, “mistério grande, mistério de misericórdia”, do qual a Igreja vive, conforme a encíclica Ecclesia de Eucharistia (n. 11), de São João Paulo II.

A Eucaristia que os sacerdotes celebram “aplica aos homens de hoje a reconciliação obtida de uma vez para sempre por Cristo para a humanidade de todos os tempos” (Ecclesia de Eucharistia, n. 12). Em razão disso, não podemos pensar nesse eminente sacramento sem sentir o nosso coração atravessado de temor e gratidão. De fato, o sacerdócio católico nos dá acesso ao mesmo sacrifício do Calvário e, ademais, limpa-nos de nossas impurezas, que ofendem o Coração de Jesus. Como, portanto, não rezar por essas vocações, pedindo a Deus que nos envie santos operários para a sua messe?

Devemos, sim, pedir a Deus pelas santas vocações sacerdotais. E tal necessidade se impõe não apenas porque o número de sacerdotes é relativamente baixo — o que, de fato, é preocupante —, mas sobretudo porque precisamos de padres santos. Aliás, essa é a necessidade mais urgente de todas, muito mais urgente que a de aumentar o número de homens consagrados. Foi o que percebeu Santo Afonso de Ligório ao deparar com uma triste realidade de seu tempo.

Diante da urgência de um trabalho missionário nas regiões rurais da Itália, Santo Afonso não encontrou em Nápoles, no meio de “cento e cinquenta mil padres para cinco milhões de almas”, sequer um sacerdote disposto “a abandonar seus pais” para “trabalhar na salvação das almas pelo ministério da pregação ou da confissão”. Embora Nápoles fosse uma diocese com muitos padres, “a maior parte dos sacerdotes, não tendo cura d’almas, não exerciam ministério ativo; viviam, no seio da família, do produto de seu benefício” [1].

Hoje existem 400 mil padres no mundo para 1,3 bilhão de católicos. Se Nápoles ainda possuísse os mesmos 150 mil sacerdotes, esse número corresponderia a quase 40% do total, e a diocese inteira teria um padre a cada 33 pessoas. Ademais, se fizéssemos um cálculo da proporção de padres que o mundo teria atualmente, a partir dos números da diocese de Nápoles, seriam 39 milhões de padres para santificar o povo de Deus. Mas de nada adiantaria, como não adiantou para Nápoles, se esses mesmos sacerdotes não possuíssem um coração como o Coração de Jesus.

Pois bem, devemos pedir a Deus jovens generosos que queiram se gastar pelas almas, assim como interceder por aqueles que já têm o ministério, mas se encontram tíbios e acomodados. Mais do que uma questão numérica, atenção, a dificuldade dos sacerdotes é uma dificuldade espiritual. Sendo assim, devemos pedir sobre eles a graça do Espírito Santo, para que se sintam sempre movidos e acompanhados pela presença de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Os sacerdotes católicos precisam recobrar a fé na própria identidade e missão. Trata-se de crer, em primeiro lugar, naquilo que o Concílio de Trento, apoiado na Tradição e nas Sagradas Escrituras, afirmou solenemente: “Ninguém deve duvidar que a Ordem seja verdadeira e propriamente um dos sete sacramentos da santa Igreja” (DH 1766). Isso significa que, da multidão de discípulos, Jesus escolheu doze para exercerem um ministério distinto. No dia da Ceia Pascal, Ele os reuniu no andar superior, fechou-se ali com eles, ofereceu o sacrifício eucarístico e mandou que fizessem o mesmo em sua memória.

Não há, pois, razão verdadeira para questionar o seguinte fato: “A Sagrada Ordem é o sacramento do qual, pela imposição das mãos e a oração do bispo, o poder espiritual é concedido a um fiel, juntamente com a graça de exercitar esse poder, de forma a agradar a Deus” [2]. Afinal, Jesus não poderia exigir dos Apóstolos algo tão grandioso sem lhes ter conferido o poder para isso.

A dificuldade atual é que os sacerdotes não estão usando esse poder, isto é, a graça de exercer o próprio ministério de forma a agradar a Deus, e muitos deles já não creem no mistério da transubstanciação eucarística. Ora, a fé católica ensina, sem erro, que as substâncias do pão e do vinho convertem-se, após a consagração do sacerdote na Missa, no Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Trata-se de uma presença pessoal, ontológica, física, e não apenas espiritual, como é a lembrança de uma pessoa querida.

E embora a Trindade — e, portanto, Jesus — esteja virtualmente em todo lugar, o corpo de Cristo está substancialmente presente apenas em dois lugares: no céu e nos sacrários da terra [3]. Eis o grande mistério que os sacerdotes celebram no altar, ainda que muitos não acreditem nele. Precisamos, portanto, interceder pelos padres e bispos que vacilam na fé em seu próprio ministério.

Lutero, infelizmente, foi um sacerdote que desacreditou a Eucaristia, por uma ideia exótica de que o Corpo de Cristo está presente em todo lugar e, por conseguinte, está presente também no pão (consubstanciação). Com esse raciocínio, a Missa se tornou para ele apenas uma “tomada de consciência” na fé da presença de Jesus no mundo, de modo que o sacrifício eucarístico perdeu qualquer sentido. Terminada a cerimônia, os luteranos podem jogar fora as sobras do pão e do vinho, que não têm nenhum valor sacramental.

Esse tipo de mentalidade entrou também na Igreja Católica, seduzindo muitos teólogos. Karl Rahner, por exemplo, tinha a ideia de que, depois da ressurreição, o Corpo de Jesus entrou numa relação mais direta com o cosmos, que o levava a estar presente em todos os lugares. Desse modo, não precisaríamos de sacerdote nem de Missa para encontrar o Corpo de Nosso Senhor, e qualquer pessoa poderia celebrar a ceia eucarística, como sugeria Edward Schillebeeckx. Mas tal ideia vai de encontro ao Concílio de Trento, cujo decreto sobre os sacramentos afirma: “Se alguém disser que todos os cristãos têm o poder de administrar a palavra de Deus e todos os sacramentos — seja excomungado” (DH 1610).

Em resumo, a fé católica nos sacerdotes deve-se ao fato de que Jesus deu a esses homens, e não a outros, um poder verdadeiro para celebrar o santo sacrifício eucarístico. E, na Eucaristia, renova-se o sacrifício de Jesus na cruz, de modo que Ele se faz substancialmente presente sob as espécies do pão e do vinho, e quem dele recebe em estado de graça une-se a Nosso Senhor numa santa comunhão. O sacerdócio é, portanto, um tesouro incalculável, diante do qual nós devemos tremer, porque esse ministério nos dá o Cristo vivo dentro de nossas igrejas, ainda que seja a mais pobre capela de uma cidadezinha do interior.

Tamanho mistério foi o que sustentou muitíssimos de nossos irmãos durante os regimes comunistas, que proibiam a celebração eucarística e a presença de sacerdotes em alguns lugares. Nos campos de concentração da Coreia do Norte, por exemplo, entrava-se com a Eucaristia camuflada dentro de um bambu, e os católicos se revezavam no banheiro para poder adorá-la. Era uma verdadeira festa para eles quando algum sacerdote ia visitá-los.

Sem dúvida, a presença de sacerdotes no nosso meio também deve ser uma festa e um motivo de glória a Deus por ter nos dado tão grande mistério. Rezemos, pois, por essas vocações, sobretudo pelos que já são sacerdotes, a fim de que sejam santos e tratem devidamente o Santo Sacrifício do altar. Porque, no fim das contas, assim como eles tratarem Jesus no sacrifício da Missa, assim serão tratados por Nosso Senhor no Juízo Final.

Referências

  1. Padre Berthe, Santo Afonso de Ligório. Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2018, p. 121.
  2. Ludwig Ott, Manual de Teología Dogmática. 5.ª ed. Barcelona: Herder, 1966, p. 661.
  3. Cf. a esse respeito: Ludwig Ott, op. cit., pp. 79-81; Pe. Antonio Royo Marín, Dios y su obra. Madri: BAC, 1963, pp. 81-86.
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